IMPRENSA MINEIRA

Super Notícia, fenômeno de circulação

Por José de Souza Castro em 09/10/2007 na edição 454

Jornalista mineiro, para fazer carreira, precisava ir para o Rio de Janeiro, como Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende e Miriam Leitão; para São Paulo, como Luis Nassif, José Maria Mayrink e Luiz Fernando Emediato; ou para Brasília, como Carlos Chagas, José Silvestre Gorgulho e Tereza Cruvinel. Agora não precisa mais, pois, pela primeira vez na história, Minas Gerais tem um jornal com a maior circulação do país.

Uma afirmação que se sustenta apenas em parte. Segundo o IVC de agosto, o Super Notícia, tablóide com vendas médias diárias de 300.322 exemplares, superou a Folha de S. Paulo (299.010), O Globo (276.733), o Extra (238.937) e O Estado de S. Paulo (238.752). Mas daí a dizer que as coisas na imprensa mineira estão mudando para melhor vai uma longa distância. Primeiro, não me parece correto comparar esses cinco jornais, começando pela questão do preço de venda deles. O Super, como é mais conhecido, custa 25 centavos, enquanto o Extra, também dirigido às classes C e D, é vendido em Belo Horizonte a um real – ou seja, quatro vezes mais caro.

Também não se pode comparar o novo líder de vendas no país com o Estado de Minas (EM), o qual por mais de 40 anos liderou a vendagem de jornais em Minas Gerais e está hoje em terceiro lugar (73.232 exemplares vendidos diariamente, em média, em agosto), atrás de outro jornal também dos Diários Associados, o Aqui, vendido a 25 centavos. Além do preço, o conteúdo desses dois jornais baratos é diferente de uma Folha de S. Paulo e até de um Estado de Minas. Na segunda-feira (8/10), o Super saiu com 32 páginas, das quais 13 de anúncios, enquanto o EM, vendido a 2 reais, tinha 34 páginas, mais seis de anúncios classificados, além de dois suplementos (um deles, o tradicional "Agropecuário").

Taxistas e salões de barbeiro

O mais certo é que os jornalistas continuarão sem espaço de trabalho em Minas, pois o Super é um fenômeno isolado numa imprensa regional que, sob todos os aspectos, se encontra em franca decadência. O novo recordista de vendas tem duas secretárias de redação – as mesmas dos jornais O Tempo e Pampulha, do mesmo grupo empresarial – e apenas quatro redatores. Chupa e reduz, em tamanho, notícias produzidas pelos repórteres de O Tempo e de agências. Seu concorrente direto, o Aqui, tem o mesmo esquema: preço de 25 centavos, 48 páginas (27 de publicidade!), uma editora, um editor de arte e sete subeditores. E chupa notícias do Estado de Minas e de outros veículos dos Associados.

A decadência dos jornais mineiros pode ser constatada nos próprios números do Instituto Verificador de Circulação. O Super representa 56,3% das vendas, entre todos os 27 jornais mineiros auditados pelo IVC, cuja circulação total pouco ultrapassa os 533 mil exemplares.

"O grande jornal dos mineiros", como propagam os dirigentes dos Associados, referindo-se ao Estado de Minas, foi ultrapassado pelo Aqui, que havia sido lançado para combater o concorrente Super, mas que acabou tirando mercado do veterano Diário da Tarde, do mesmo grupo. Depois de 77 anos de vida, quase sempre como o segundo mais vendido jornal mineiro, o DT fechou em julho passado. Seus leitores – motoristas de táxi, salões de barbeiro, policiais e outros funcionários públicos mal remunerados – haviam emigrado para os jornais de 25 centavos. O último DT custava um real. O Aqui não foi o sucesso esperado, mas estava em agosto no 13º lugar no ranking do IVC, duas posições acima do EM, que custa oito vezes mais.

Vingança contra Associados

O Super tem sua grande circulação vitaminada por mulheres bonitas na primeira página e pela generosa oferta de brindes, que são sorteados entre os leitores em qualquer município mineiro. Recentemente, foi inaugurada sua página na internet. Todo o conteúdo do jornal impresso pode ser lido neste endereço, sem necessidade de cadastro ou senha. O leitor tem espaço para fazer comentários abaixo de cada notícia ou coluna, imprimir ou enviar por e-mail. Pode também aumentar ou diminuir o tamanho da letra e buscar notícias de edições anteriores.

O jornal é publicado pela Super Editora, que edita também o diário O Tempo e o semanário de distribuição gratuita Pampulha (116 mil exemplares), entre outros. O proprietário é o empresário ítalo-brasileiro Vittorio Medioli, ex-deputado federal pelo PSDB e pelo Partido Verde. No ano passado, ele desistiu de concorrer a um quinto mandato, alegando que a política atrapalhava seus negócios. Uma de suas empresas tem a concessão do transporte dos carros Fiat produzidos em Betim, o que ela faz com frota própria e terceirizada. Medioli resolveu investir em jornal para se vingar dos Associados, que há alguns anos publicaram reportagens vinculando-o à Máfia.

"Invasão" de diários de fora

Com o jornal O Tempo, ele esperava desbancar a liderança do Estado de Minas, mas não teve sucesso nessa empreitada, pelo menos por enquanto. (Jornais do grupo fundado por Assis Chateaubriand, em outras praças – como O Jornal, do Rio –, historicamente perderam espaço para outros que souberam fazer um melhor jornalismo.) Pouco depois de sua contratação como novo diretor de redação, Teodomiro Braga começou a planejar o lançamento do Super.

Jornalista mineiro que fez carreira no Rio de Janeiro, Teodomiro voltou a Belo Horizonte na década de 1990 para reabrir a sucursal do Jornal do Brasil, um projeto que não encontrou sustentação no mercado publicitário mineiro. A sucursal voltou a fechar e Teodomiro aceitou o convite de Medioli. Sob sua direção, O Tempo não avançou, mas o Super, desde seu lançamento, em 1º de maio de 2002, vem registrando recordes sucessivos de venda. Nos últimos 12 meses, até agosto, o crescimento foi de 100%. O aumento de 8,5% em agosto foi o maior entre todos os jornais auditados no país pelo IVC.

Vittorio Medioli, em artigo publicado no último domingo no seu semanário gratuito Pampulha, deixava transparecer algum espanto com o sucesso do novo jornal em um Estado "que até pouco tempo tinha fama de ser refratário à leitura e se destacava pela média mais baixa de vendagem de jornais do Sudeste do Brasil". Acrescentou o ex-deputado: "Minas foi humilhada pela ‘invasão’ de diários de fora que em certos momentos abocanharam metade do seu mercado, como se aqui quase não existisse imprensa."

Talvez até uma notícia

Para esse empresário, nascido na Itália e que descobriu como vender jornal para mineiros, o filho caçula de O Tempo é um jornal "grande de coração, de alma gentil, corajoso, alegre, colorido, bom caráter". Na opinião do dono, o Super "ganhou simpatia de gente que nunca teve a possibilidade de ler um jornal e de muitos outros que procuravam uma notícia fácil de se ler. Certamente não é o mais completo, não satisfaz os intelectuais – nem é para eles –, mas representa uma janela sobre o mundo para quem sempre a encontrou fechada".

O jornal de Medioli é um sucesso de vendas, mas dificilmente significará um avanço real no jornalismo mineiro, com suas notícias de dez linhas e suas fotos coloridas de belas mulheres, de partidas de futebol e de crimes hediondos. No último domingo, a foto que mais se destacava na primeira página era a de Natália Guimarães, com a legenda em letras grandes: "Assessores da Miss Brasil confirmam namoro de Natália com Aécio Neves".

Ninguém precisa esperar notícias com críticas ao governo de Minas no Super ou em qualquer outro jornal mineiro (e nem se critica o bom gosto de Aécio na escolha de namoradas e sua habilidade em reunir aliados políticos). Além de faltar vontade, não há espaço no jornal para reportagens de algum fôlego investigativo. Ângelo Prazeres, um cronista bem conhecido dos mineiros, já aprendeu a escrever crônicas de 18 linhas. Padre Marcelo Rossi, outro cronista do Super, se satisfaz com 14 linhas. O próprio Medioli deve estar se esforçando para enxugar seu texto, conformando-o ao perfil dos leitores do fenômeno, definidos como oriundos das classes C e D.

Só agora esse leitor está se habituando a gastar parte de seu salário para comprar jornal, na esperança de ser sorteado com um ingresso para o Parque Guanabara, com um Super Play Station 2 Slim ou, vá lá, com um áudio-livro do padre Marcelo Rossi. E, talvez, se tiver sorte mesmo, possa até encontrar uma notícia importante para ler no Super – ou, se preferir, no Aqui.

***

Jornalista, Belo Horizonte, MG

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 Ivan Moraes
 Enviado em: 10/10/2007 01:40:59
"sucesso de vendas, mas dificilmente significará um avanço real no jornalismo mineiro, com suas notícias de dez linhas": eh so isso que Minas precisa, mais jornais orkutizados...
 eustáquio fernandes
 Enviado em: 10/10/2007 08:17:42
Faço das pavras do Ivan, com a devida licença, minhas próprias palavras.
 Jose Geraldo
 Enviado em: 10/10/2007 10:12:26
Discutir-se imprensa em MG é chover no molhado. É atualmente dedicada ao Governo de MG (Chapa Branca). A incapacidade do principal jornal (Estado de Minas) tem de apresentar notícias consistentes impressiona. De alguns anos para cá nao me dou mais ao trabalho de ler este jornalsinho. Mudei para São Paulo, pelo menos para buscar informações de qualidade.
 Ademir Demarchi
 Enviado em: 10/10/2007 13:23:43
Faço uma correção: o certo seria "haviam migrado para os jornais de 25 centavos" em vez de "haviam emigrado para os jornais de 25 centavos". No mais, o artigo é ótimo e me fez conhecer melhor as nuances numéricas da indústria da notícia...
 Rute Maria
 Enviado em: 15/10/2007 14:30:57
Quando o assunto é a má qualidade nas informações veiculadas pelo Super e pelo Aqui, realmente não há discussão. As publicidades do jornal justificam seu preço. Caso contrário este seria inviável. Além disso, permitam-me dizer: em um país como o nosso, somente tablóides, a R$ 0,25 pra fazer com que a população (que recebe um mísero salário), crie o hábito de leitura. E isso é triste.
 Jackson de Andrade
 Enviado em: 05/04/2009 18:34:47
É fácil ficar fazendo um perfil do ponto de vista elitista sobre que tipo de notícia e de que forma deve ser publicada ou não nos jornais. E tirar conclusões de que se não atende ao pessoal mais intelectualizado então não pode ser considerado avanço na imprensa mineira. O jornal Super mostra que faz sucesso justamente porque é dedicado a uma parcela muito grande da população, a maioria, alías, que não está incluída na denominação "intelectuais". Parabéns ao blogueiro pela crítica redondinha, imparcial até, mas eivada de preconceito (acredito, não intencional)...

José de Souza Castro

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