Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

NOVAS TECNOLOGIAS > Análise de cenários

Futuristas relacionam crise no jornalismo com risco a democracias

Por Reberson Ricci Ius em 16/10/2017 na edição 962

O futuro do jornalismo tem sido tema de muitos debates, mas poucas empresas de comunicação têm envolvido suas equipes em planejamento ou tomado ações concretas para sobreviver às mudanças, cada vez mais impactantes, da Era da Informação Digital. A constatação é de uma pesquisa feita pelo Future Today Institute, divulgada no encontro anual da Online News Association, em Washington (DC) no início de outubro.

A preocupação com o futuro pessoal é bem mais frequente entre os jornalistas (94%) que a média da população dos Estados Unidos (32%), mas quase 70% dos profissionais que atuam em organizações dos Estados Unidos, Canadá, América Latina, Europa e Sudeste Asiático consultados na pesquisa disseram que não há nas redações um monitoramento efetivo de tendências tecnológicas que podem impactar a produção e distribuição de notícias além dos próximos 5 ou 10 anos.

O levantamento constatou que a maioria dos gestores, supostamente com maiores responsabilidades estratégicas, têm se concentrado em resolver questões de impacto imediato, como escassez de recursos e manutenção de equipes.

Não é possível considerar a modelagem do futuro da mídia sem intervenções no presente. É consenso entre os futuristas que os dados pessoais, capturados pelas diversas plataformas, vão se tornar ainda mais valiosos (data = next oil). Que computadores e smartphones tendem a se tornar cada vez mais “vestíveis”. Que sistemas que usam “Machine Learning” vão ser capazes de tomar decisões lógicas com muita rapidez, mas ainda estarão sujeitos a equívocos graves. E especialmente, que apenas 9 grandes empresas de tecnologia, com evidentes vantagens no uso da Inteligência Artificial, tendem a controlar toda a distribuição de notícias no planeta.

Ilustração: 2018 Tech Trends/Future Today Institute

IMPACTOS

Os pesquisadores buscam estabelecer conexões entre inovações tecnológicas capazes de gerar tendências e a partir delas, construir cenários para o futuro do jornalismo tanto do ponto de vista da empresas quanto da sociedade.

Porque Jornalistas deveriam se preocupar com Visual Computing?

Visual Computing é uma tecnologia que pode equipar ferramentas capazes de reconhecer e distinguir pessoas, objetos, lugares em vários contextos. Tende a se popularizar pelo uso em vários tipos de dispositivos. Desde satélites (na órbita da Terra) menores e mais baratos a equipamentos portáteis capazes de análises detalhadas, com aplicações na saúde, psicologia, marketing, segurança, etc… Tem sido implantado na China, com grande apoio do governo, preocupado com o controle social. A tecnologia tem potencial para contribuir na produção e na interação do público com o conteúdo.

Cenário otimista

Ponto de vista do Jornalismo: Visual Computing se torna uma poderosa ferramenta para produção de matérias jornalísticas. É usado também como plataforma de distribuição. Organizações de notícias desenvolvem um modelo de negócios para tornar o noticiário mais visual, atraente e sustentável.

De ponto de vista da Sociedade: os pesquisadores encontram solução para o jornalismo tendencioso.
Tudo o que podemos ver poderá ser pesquisado e confirmado. Compreenderemos melhor o mundo e tomaremos melhores decisões.

Cenário Pragmático

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias não terão um modelo de negócios que incorpore as ferramentas de Visual Computing. A distribuição de notícias fica ainda mais difusa, tornando mais difícil sustentar as empresas de comunicação. Algumas abandonam o negócio.

Do ponto de vista da Sociedade: o jornalismo tendencioso se generaliza. Continuaremos ensinando computadores a reconhecer e aprender a partir de estereótipos. Advento de discriminação digital generalizada. As empresas prometem melhorar os algoritmos, mas muito poucas mudanças serão constatadas.

Cenário Catastrófico

Do ponto de vista do Jornalismo: Visual Computing conquista o mercado. As empresas de comunicação não possuem um modelo comercial pronto. Eles perdem anunciantes e market share para novas plataformas de notícias com mais recursos tecnológicos e visuais. Jornalistas desempregados.

Do ponto de vista da Sociedade: se tornará ainda mais difícil detectar notícias falsas em função da proliferação de novos recursos de sabotagem de conteúdo. Máquinas, treinadas a partir de estereótipos horríveis, agora tomam decisões que afetam nossas vidas.

Modelo probabilístico
😄 Cenário Otimista = 0%
😐 Cenário Pragmático = 70%
😢 Cenário Catastrófico =30%

Porque jornalistas deveriam se preocupar com Interface de Voz?

Porque 50% das pessoas em países industrializados que interagem com computadores usarão voz até 2021. Em muito pouco tempo as pessoas estarão depositando muita confiança nas máquinas e serão os algoritmos a tomar decisões por nós. Nesse contexto há risco de que marcas de organizações de comunicação deixem de participar do diálogo.

Cenário Otimista

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias investem e priorizam interfaces de reconhecimento de voz em todas as unidades de negócios. Os gestores começam a testar e trabalhar com modelos comerciais radicalmente diferentes. As empresas de comunicação prosperam com a popularização dessas interfaces praticamente “invisíveis”.

Do ponto de vista da Sociedade: os jornalistas desenvolvem formas de autenticar o vídeo antes de distribuí-lo. Facebook, Google e Twitter desenvolvem sistemas de autenticação, rejeitam ou bloqueiam vídeos falsos. As pessoas ficam mais bem informadas.

Cenário Pragmático

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias continuam a lançar ferramentas com interfaces de voz, mas não desenvolvem uma estratégia de negócios para esse recurso. Uma vez que as grandes corporações tecnológicas dominam as interfaces, as empresas de comunicação tendem a perder receitas rapidamente.

Do ponto de vista da Sociedade: como as grandes corporações tecnológicas não se preocupam em estabelecer parcerias reais com as empresas de comunicação tradicionais, notícias falsas proliferam e repórteres são enganados. A confiança no jornalismo cai, a desinformação se generaliza a sociedade civil entra em tensão.

Cenário catastrófico

Do ponto de vista do Jornalismo: as empresas de comunicação nunca desenvolvem um modelo de negócios para a era das interfaces invisíveis. Elas não encontram uma maneira razoável de monetizar seu conteúdo. Falência generalizada; jornalistas sem trabalho.

Do ponto de vista da Sociedade: notícias falsas enganam e influenciam líderes globais. Distúrbios generalizados, confusão, violência. A opinião pública está mal informada. Acabamos em uma guerra cibernética ou nuclear.

Modelo Probabilístico:
😄 Cenário Otimista = 0%
😐 Cenário Pragmático = 80%
😢 Cenário Catastrófico= 20%

Porque jornalistas do futuro deveriam se preocupar com a qualidade das notícias?

Porque velocidade da apuração é incongruente com a qualidade, especialmente nesta era da aprendizagem de máquinas.Os sistemas de distribuição modernos foram construídos para priorizar a velocidade, e não a precisão do conteúdo jornalístico. E é preciso considerar nesse contexto outros fatores que podem influenciar a produção de conteúdo.

Nos próximos 10 anos as plataformas digitais e os distribuidores de conteúdo enfrentarão iniciativas de regulamentação governamental que podem estimular ainda mais a tendência de estabelecimento das chamadas “splinternets”, espécie de barreira tecnológica que pode filtrar a experiência de uso e acesso a conteúdos da internet a partir de questões políticas, ideológicas, comerciais, segurança, etc. Outro impacto importante é o da adoção de novos protocolos digitais e descentralizados para validar relações comerciais, como o blockchain.

Ilustração: 2018 Tech Trends/Future Today Institute

Cenário Otimista

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias se unem e firmam posição quanto aos valores de verificação e a transparência.
As empresas de comunicação reconquistam participação no mercado, os consumidores pagam pelo acesso, a indústria de mídia se tornar sustentável.

Do ponto de vista da Sociedade:

As “splinternets” são evitadas. Os ciclos de produção e distribuição de notícias é reduzido para uma taxa mais razoável. Os consumidores consomem muito menos notícias falsas. A humanidade está mais bem informada.

Cenário Pragmático

Do ponto de vista do Jornalismo: o ciclo de produção e distribuição de notícias acelera.
Os jornalistas gastam o mesmo tempo na correção de registros de informações quanto da produção de novos conteúdos.

Do ponto de vista da Sociedade: a confiança na mídia — toda — desmorona. As splinternets regionais tornam-se uma coisa real. Google e Facebook gastam centenas de milhões de dólares para desenvolver sistemas regionais. Erros são cometidos. Notícias falsas aumentam.

Cenário Catastrófico

Do ponto de vista do Jornalismo: as organizações de notícias perdem participação de mercado para startups que publicam notícias com alta frequência. As notícias geradas por máquinas, a partir de sentimentos e outros detalhes captados do público tornam-se padrão. Colapso das organizações de notícias.

Do ponto de vista a Sociedade: os distribuidores não conseguem lidar com um sistema global de “splinternets“. Os sistemas se demonstram vulneráveis a ataques. Campanhas de desinformação se generalizam. A democracia se desmorona.

Modelo Probabilístico
😄 Cenário Otimista = 0%
😐 Cenário Pragmático = 50%
😢 Cenário Catastrófico = 50%

Diante da adesão nula aos prognósticos otimistas, a especialista Amy Webb, CEO do Future Today Institute, fez questão de enfatizar que a boa notícia é que os cenários projetados não ocorreram ainda. Espera-se que possam ser modificados a partir de novas ideias, mas principalmente pelo engajamento em ações concretas e decisões de cada indivíduo (não apenas de profissionais de comunicação) disposto a se posicionar diante dos valores que deseja preservar no futuro.

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Reberson Ricci Ius é jornalista de TV e Mídias Digitais, consultor de Gestão de Comunicação e Estratégias de Conteúdo na plataforma Arbache Innovations.

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