Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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OBJETHOS > Três pilares

O que Paulo Freire pode nos ensinar sobre jornalismo?

Por Juliana Freire Bezerra em 20/08/2019 na edição 1051

(Foto: Breiller Pires, El País, 2019)

Publicado originalmente no site objETHOS

Contra o projeto de privatização do ensino superior e o corte de verbas na educação pública, professores e estudantes se mobilizaram mais uma vez em protesto nacional na terça-feira, 13 de agosto. Como nas duas mobilizações anteriores de mesma finalidade, realizadas em maio deste ano, o patrono da educação brasileira, o pedagogo Paulo Freire (1921-1997), foi homenageado em frases registradas nos cartazes enquanto símbolo da luta em defesa da democratização do conhecimento.

A memória de Paulo Freire se constitui, ainda nesses protestos, como presença viva e esperançosa de que o “estar sendo” atual da história, por mais melancólico que esteja para o corpo estudantil, pode ser modificado. É que, segundo o pensamento do pedagogo, a história não é algo dado ou uma fatalidade. É construção humana e, como tal, em momentos de crise, deve ser animada sempre pela esperança da luta política por meio da qual pode ser alterada para melhor.

Tendo como horizonte esse saber fundamental acerca do agir no mundo que os protestos em defesa da educação suscitam, aqui é feito o uso da pedagogia freireana para refletir sobre a prática jornalística no contexto de crise da profissão. Essa ponte de reflexão é possível sobretudo quando partimos do pressuposto de que o jornalismo é uma forma de conhecimento acerca do mundo (GENRO FILHO, 1987) e que, portanto, desempenha uma função pedagógica.

Vizeu e Cerqueira (2017) percorreram caminho similar ao relacionar alguns saberes que Paulo Freire julgava necessários à prática docente em Pedagogia da autonomia (1996) aos jornalísticos. Alguns deles são retomados – tendo-se como perspectiva, contudo, que, tal qual a pedagogia de Freire, o jornalismo deve ser voltado à defesa dos direitos humanos e, portanto, das lutas populares. O porquê disso está relacionado não só a uma perspectiva ética da profissão, mas também ao contexto de crise que a atravessa.

De acordo com Mick e Tavares (2017), a crise jornalística é um problema complexo que não se explica apenas pela chave financeira. É, sobretudo, uma crise de governança relacionada, segundo os autores, “à erosão de credibilidade da estrutura organizacional dominante do jornalismo no Ocidente desde o século XIX (…) junto aos públicos com os quais se relaciona” (p. 121). Dentre esses públicos, encontra-se a audiência, que, como afirma a pesquisadora Kikuti, frequentemente não se sente representada nos discursos oficiais reproduzidos pelo jornalismo declaratório e se incomoda com a superficialidade com que são tratadas questões pertinentes ao debate público.

Esse distanciamento entre o jornalismo e as audiências ainda se acentua por meio do uso de uma linguagem jornalística muitas vezes elitista; da ausência de relação feita entre os assuntos tratados nos jornais e a vida cotidiana das pessoas a quem se dirigem e da seleção de enquadramentos para significar os acontecimentos que frequentemente não condiz com a racionalidade popular.

Por isso, parece que a aproximação entre o jornalismo e as camadas populares, na busca pelo restabelecimento de relações de confiança, se configura como um caminho a ser percorrido para o enfrentamento da crise na profissão. Nesse sentido, Paulo Freire nos ajuda a pensar sobre como construir um jornalismo popular de qualidade, com rigorosidade metódica na apuração do processo de construção do conhecimento sobre o mundo e em consonância com a validação de outras formas de vê-lo, as das minorias políticas.

Ensinamentos de Paulo Freire para o jornalismo
O primeiro saber fundamental da prática educativa freireana que podemos transmutar ao jornalismo é o da consciência de que a realidade histórica é mutável; de que ela não é uma fatalidade sobre a qual nos resta, enquanto homens e mulheres no mundo, a pura adaptação. Tendo em vista que o jornalismo historicamente vivencia sua pior crise, adotar esse saber como horizonte nos anima a pensar possibilidades para sair dela e construir conhecimentos mais transformadores sobre a realidade. Nesse sentido, selecionamos a seguir três termos-chave contidos na obra Pedagogia da autonomia (1996) que parecem pertinentes para a discussão sobre como os jornalistas podem melhorar sua prática rumo à construção de conhecimentos mais eticamente humanizados acerca do mundo.

– Rigorosidade metódica. Consciente de que o ser humano é um ser inconcluso e, por isso, sempre em busca de conhecer mais, Paulo Freire afirma que há a possibilidade de se promover um saber ingênuo sobre as coisas do mundo para um mais crítico. Isso é feito com pesquisa, apuração e disponibilidade para o diálogo. Tais atributos são indispensáveis aos jornalistas enquanto construtores de conhecimento acerca da realidade concreta de uma localidade. Freire afirma ainda que a disponibilidade para o diálogo provém da dimensão coletiva do conhecimento; que não se esgota individualmente. É que, enquanto sujeito histórico, o ser humano sempre quer saber mais sobre o mundo do que individualmente é possível. Dessa forma, dirige-se ao outro com quem pode conhecer mais. É precisamente isso que o jornalismo executa quando esgota suas possibilidades individuais para entender os acontecimentos. A técnica da entrevista das fontes pode ser usada para complementar a observação rigorosa de como está se dando historicamente a realidade. Contudo, numa perspectiva democrática de se fazer jornalismo, essa técnica deve ser usada cautelosamente, com rigor crítico, contextualização e problematização, a fim de não se configurar como mero instrumento de reprodução dos discursos oficiais. Dessa forma, mais do que ouvir as fontes, é preciso averiguar a finalidade política de seus discursos e se o que elas dizem correspondem à realidade. Em outras palavras, é preciso realizar a checagem, algo difícil de ser feito em um contexto de precarização da profissão e de aceleração temporal. Alguns jornais independentes vêm conseguindo atuar dessa forma porque são regidos por outras lógicas temporais, que estimulam o uso do gênero reportagem, mais propício à investigação, à interpretação e à problematização. Mas mesmo o jornalismo que se pretende factual precisa arranjar maneiras de se aproximar da rigorosidade metódica, sobretudo em tempos de alta propagação de conteúdos fraudulentos nas redes e da necessidade de restabelecimento da confiança com as audiências.

– Escuta. A metodologia de Paulo Freire empreende o processo pedagógico como um processo de construção coletiva do conhecimento – combatendo a ideia de ensino transmissivo de conteúdo, em que cabe ao aluno decorar o que o professor tem a lhe dizer, Paulo Freire fundamenta um método dialógico de ensino e aprendizagem. Isso requer que o educador se coloque aberto a escutar o outro, a respeitar sua cultura e seu local de fala, a entender sua racionalidade, atitudes indispensáveis também à prática jornalística, sobretudo se voltada às camadas populares. É que, como já falado, o processo de feitura do conhecimento jornalístico também ocorre muito de forma dialógica. O próprio processo de apuração e checagem das informações envolve a escuta do outro, das fontes, dos pares, das audiências. Além disso, em última instância, o jornalismo tece em seus textos um diálogo artificialmente criado com diferentes vozes que compõem o debate público sobre determinada questão, segundo Rosiley Maia (2008), inflamando a conversação social. No entanto, para uma dimensão pedagógica da profissão, mais do que a escuta apressada de uma fonte de origem popular, o jornalista precisa qualificar sua sensibilidade para a empatia a fim de compreender a racionalidade de quem lhe fala para compor suas narrativas. Assim agindo, se aproximaria do que o pesquisador Dairan Paul denomina de ética da escuta. Ética essa voltada a não “usar” as vozes das fontes populares para legitimar a racionalidade que o jornalista possui sobre determinada questão, numa lógica de cima para baixo. Mas a de construir e validar junto com quem dialoga, as minorias políticas, novas narrativas sobre o mundo. A série de reportagens Casa Grande e Senzala, escrita pela jornalista Fabiana Moraes no Jornal do Commercio (Recife-PE), sobre o cotidiano de jovens que sofrem exploração sexual desde a infância, é um bom exemplo de como o jornalismo pode denunciar as injustiças do mundo a partir de uma ética da escuta que envolve a validação da racionalidade dos injustiçados.

– Intervenção humana. Outro saber fundamental à prática educativa freireana que poderia beneficiar o jornalismo para enfrentar a crise de profissão é o que se configura como intervenção humana. Como tal, é seu papel se posicionar no mundo eticamente em defesa da constituição de formas de vida mais justas e dignas. Denunciar os abusos de poder e autoridade, desvelar os segredos de interesse público que as fontes oficiais querem esconder, problematizar e questionar as privações sociais vividas pela população são atribuições do jornalismo em qualquer sociedade democrática ocidental, mas nem sempre assim é feito. Atuando numa perspectiva assumidamente progressista, o jornalismo independente brasileiro parece vir conseguindo estabelecer junto com sua audiência relações mais sólidas de confiança do que o jornalismo dito “isento”.

Contudo, o jornalismo independente parece conservar em certa medida do convencional a forma como se comunica, mesmo que se preocupe em produzir narrativas mais humanas nas quais personifica os dilemas enfrentados pela população com histórias das fontes populares. É que, muitas vezes, a linguagem utilizada é rebuscada demais para atingir a população, causando uma espécie de desinteresse social em relação ao jornalismo. Nesse sentido, os influenciadores digitais têm exercido bem a função de tratar didaticamente assuntos pertinentes ao debate social, configurando-se muitas vezes, inclusive, como canais mediadores do acesso dos seus seguidores à notícia. Com isso, não se pretende afirmar que os jornalistas devam utilizar a mesma linguagem dos youtubers, mas que é preciso enxergar neles algumas potencialidades que podem aperfeiçoar sua prática. Talvez falte ao jornalismo, de modo geral, repensar sua forma de comunicação. Relacionar saberes mais abstratos, como economia e política, à prática cotidiana e a uma linguagem mais acessível seria algo que beneficiaria o jornalismo no estabelecimento de uma relação mais próxima com a população e na construção de conhecimentos mais capazes de incitar a transformação social.

Do exposto, é possível observar como o pensamento freireano traz ensinamentos importantes para refletirmos sobre o jornalismo em sua dimensão pedagógica e enquanto forma de conhecimento. Buscar a rigorosidade metódica na construção de conhecimento que gera, regido pelo questionamento crítico acerca do que as fontes oficiais dizem, bem como por uma ética da escuta, direcionada empaticamente aos injustiçados do mundo, parecem ser caminhos por onde jornalismo pode seguir na busca por recuperar a confiança da população e a sua importância social. Para isso, é preciso que o jornalismo se posicione politicamente numa luta popular em defesa da ética universal humana, puxando o cabo de guerra mais para o lado da sua natureza pública do que para a sua natureza mercantil.

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Juliana Freire Bezerra é doutoranda em jornalismo no PPGJOR e pesquisadora do objETHOS.

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