Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

OBSERVATóRIO DA IMPRENSA / 20 ANOS > Lições de duas décadas de observação da economia

A informação econômica e os truques do poder

Por Rolf Kuntz em 31/03/2016 na edição 896

depo_rolfA recessão ainda vai infernizar os brasileiros por algum tempo, mas terminará, ninguém sabe quando, e depois? A economia será estabilizada, mas a partir daí deverá crescer muito devagar durante alguns anos. O Brasil, segundo todos os indícios, perdeu potencial de crescimento desde o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Isto define o desafio mais complicado para a fase pós-crise.  A primeira providência é saber onde estamos.

Daí a importância de duas matérias publicadas no último fim de semana de março, uma pelo Estado de S. Paulo, outra pelo Globo. A do Estadão mostrou as dificuldades do governo até para tapar buracos nas estradas – uma   situação desastrosa, num país muito dependente do transporte rodoviário. A outra foi diretamente à questão mais ampla e apresentou estimativas do PIB potencial.  Por essas contas, o Brasil mal terá condições de crescer 1% ao ano, depois da primeira fase de recuperação.

Pautas como essas prestam um serviço especial aos leitores,  porque vão além das informações necessárias – e  sempre muito úteis –ao acompanhamento dos fatos do dia a dia. Saem da rotina, dão um passo além e confirmam a relevância política, no  sentido mais alto,  do esforço jornalístico profissional e organizado.  Informação produzida de forma competente é matéria-prima da cidadania.

A avaliação dessas duas pautas dá uma ideia do critério seguido nestes comentários iniciados há pouco mais de onze anos.  O convite foi formulado por Alberto Dines no começo de 2005.  A ideia era contribuir para o debate profissional da cobertura econômica. Não houve recomendação especial, mas o objetivo parecia claro.  Um jornalista com 45 anos de atividade (naquela época) e cerca de 40 anos de trabalho na área econômica deveria postar  observações profissionais sobre as  seções de economia.

O resultado desse trabalho deveria ser parecido com uma conversa de redação sobre  pautas e coberturas.  Como regra, procurou-se evitar a discussão partidária e ideológica, um detalhe ignorado por alguns leitores.  Os comentários trataram, sim, dos pontos de vista implícitos ou expressos no material publicado, mas a partir de uma perspectiva profissional. O exemplo seguinte poderá tornar mais  claro este ponto.

Há mais de um ano a economia americana vem criando cerca de 200 mil empregos por mês, com alguma variação para cima e para baixo. Detalhe importante: são basicamente vagas abertas no setor privado.  Ocasionalmente as contratações ficam abaixo das estimadas pelos economistas do mercado financeiro e das consultorias. Quando isso ocorre, a palavra decepção pode aparecer em alguns títulos do noticiário, tanto lá quanto no Brasil.  Aí cabe a pergunta: decepção para quem?

A indagação é relevante.  A reação negativa é geralmente observada nos mercados de ações e justificada por fontes do setor financeiro.  Isso nem sempre fica imediatamente claro para o leitor, ouvinte ou telespectador.  Contar a reação dos mercados e a avaliação de seus agentes é parte importante da cobertura e um serviço sem dúvida muito útil.  Mas é preciso esclarecer se a matéria assume a perspectiva do pessoal do mercado. Se esse for o caso, valerá discutir a decisão.

Não há nada ilegítimo em avaliar o mundo pelas lentes de um setor,  mas há riscos inegáveis. Os analistas da área financeira trabalham com modelos tecnicamente respeitáveis, mas o mercado oscila de um dia para outro e as avaliações são formadas, com muita frequência,  com base em objetivos de curto prazo.  A complexidade da economia vai muito além dos indicadores levados em conta, normalmente, pelos operadores das bolsas e de instituições de crédito e de investimento.

Enfrentar essa complexidade é um dos maiores desafios para quem cobre os fatos econômicos e, de modo especial, a formulação e a execução de políticas. Uma dificuldade já é imposta pela  divisão dos jornais e de outros meios de comunicação em áreas especializadas.  Modelos de crescimento incorporaram há muito tempo os chamados fatores imateriais, como a educação, a ciência e a tecnologia.

O binômio economia e educação

Relatórios da Confederação Nacional da Indústria (CNI) muitas vezes têm mencionado a escassez de mão de obra qualificada e, mais que isso, de pessoal em condições de receber algum treinamento na fábrica. As deficiências educacionais são importantes obstáculos ao crescimento e à modernização da economia, no Brasil. Mas os cadernos de economia raramente publicam material sobre o ensino e as editorias de educação e ciência ficam longe, quase sempre, dos temas econômicos – exceto, é claro, quando se denuncia a falta de verbas para a escolas e instituições de pesquisa.

Tentou-se mais de uma vez, nos comentários, estimular a discussão sobre a conveniência de borrar as fronteiras burocráticas, nas redações,  de aumentar a integração e a cooperação entre as seções e de estimular pauteiros e editores a olhar para os assuntos da vizinhança.

O estímulo deve tornar-se quase irresistível,  quando estudos comparativos de competitividade envolvem assuntos como educação, pesquisa, inovação, segurança jurídica e padrões de administração pública. Mas editores e pauteiros normalmente resistem à tentação de se meter em outras áreas – embora nenhuma área seja de fato estranha ao jornalismo eficiente.

As barreiras ficam em pé,  muitas vezes, mesmo quando se cobre a  tramitação, no Congresso,  de uma proposta orçamentária. A mistura entre os temas políticos e econômicos parece inevitável, em situações como essa, mas a divisão entre editorias e entre equipes acaba prevalecendo quase sempre.  Editores podem negar esse fato, mas o efeito da separação acaba aparecendo no material publicado.

Com todas essas limitações, o jornalismo de economia tem marcado alguns pontos notáveis. A cobertura da política fiscal acompanhou com muita eficiência, especialmente a partir de 2012, a sucessão dos truques da contabilidade criativa e da maquiagem das contas.  As mazelas da execução orçamentária foram mostradas, quase sempre, com rapidez e com muita clareza.  Nenhum leitor dos grandes jornais pode falar em surpresa, quando se menciona a deterioração do quadro fiscal brasileiro.

A  evolução dos principais indicadores macroeconômicos também foi acompanhada, de modo geral, com eficiência. Em duas áreas a cobertura regular tem sido menos eficiente, a do comércio exterior e a da agropecuária. Curiosamente,  deveria haver um vínculo muito firme entre os dois temas. Afinal, o agronegócio tem sido há vários anos o principal fator de segurança da balança comercial.  Parece haver sobrado,  nas redações,  pouca gente familiarizada com o agronegócio. A cobertura é escassa, boas histórias são perdidas e  o assunto acaba condenado a aparecer, ocasionalmente, em cadernos especiais.

Os comentários têm sido produzidos principalmente com base nos grandes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, com alguma incursão ocasional pelas revistas e pelos canais de televisão mais importantes.  Não se trata apenas de limitar o acompanhamento e de torná-lo mais cômodo. Essas redações são as mais equipadas, em todos os sentidos, e seu trabalho ­– sem demérito para outros  jornais – pode  servir normalmente como referência para a profissão.  Esse trabalho, vale a pena repetir, continua justificando a leitura dos jornais.

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