Domingo, 17 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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OBSERVATóRIO DA PROPAGANDA > DROGAS & DROGAS

Prescrições dos ‘doutores’ Faustão, Gugu e Malu

Por Marcos Valério Mannarino Loures em 09/05/2006 na edição 317

A lei que proíbe a veiculação de propaganda de cigarros é extremamente justa; realmente, o cigarro é uma droga, altamente letal e prejudicial tanto à saúde individual quanto à saúde da economia. Isso é ponto pacífico, não cabendo discussão sobre o tema, quase uma unanimidade. Os males do tabaco são intensos e variados, podendo causar desde queda de dentes até câncer e infarto agudo do miocárdio, passando por insuficiência respiratória, enfisema pulmonar etc.

Isso é colocado de forma clara nas relações entre escola e criança e entre sociedade e tabagistas, passando por todas as maneiras de publicidade negativas quanto a esse hábito e vício. Porém, o mesmo não ocorre com relação a outras drogas, principalmente o álcool e os medicamentos. A propaganda de bebidas alcoólicas, além de liberada, é associada à saúde, prazer e desportos, tendo entre os veiculadores do estímulo ao hábito do etilismo, entre outros, artistas famosos, mulheres bonitas e até atletas de elite, como jogador Ronaldo Fenômeno, por exemplo.

Se observarmos a extrema associação entre o etilismo e a violência das ruas e do trânsito, para início de conversa, será fácil constatar o quanto o consumo dessa droga é danoso para a sociedade. Em minha experiência de médico de pronto-socorro há 22 anos, noto que na maioria dos acidentes letais, assassinatos ou tentativas de homicídio, rixas, lesões corporais temos o álcool como freqüente associação. Isso é tão ou mais danoso do que o consumo de tabaco, já que o álcool ceifa muito mais precocemente vidas e futuros.

Até quando?

Esse aspecto, por si só, já é muito preocupante; há, porém, o aspecto social do alcoolismo enquanto doença, criador e mantenedor de desajustes sociais e fator de multiplicação das mazelas da miséria e pobreza, destruidor de células familiares e de relações humanas. A liberação da propaganda de bebidas alcoólicas, portanto, é tão ou mais prejudicial do que a de cigarros. Ou alguém tem dúvida disso?

Além disso temos também a propaganda não-ética de medicamentos na mídia. O risco da automedicação é enorme, com complicações várias para a saúde por ação e/ou omissão, atrapalhando o tratamento, adiando-o e muitas vezes criando sérios problemas para as pessoas. Muitas vezes, o ‘resfriado’ tratado com os medicamentos prescritos pelo Dr. Faustão, pelo Dr. Gugu, pela Dra. Malu Mader, entre outros ‘especialistas’, pode ser uma tuberculose, uma pneumonia ou um câncer de pulmão, e o adiamento de diagnóstico e tratamento pode ser letal.

A colocação do aviso ‘na persistência dos sintomas o consumidor deve procurar o médico’ de nada adianta num país de tantos analfabetos reais e funcionais. Fora isso, temos os riscos de efeitos colaterais e reações alérgicas – que deveriam ser tratados pelos mesmos que ‘prescreveram’ tal medicação.

A justa proibição do tabaco e da incoerente liberação da propaganda de outras drogas tão ou mais danosas que o cigarro deve ser tema de discussão para o aprimoramento da verdadeira liberdade da publicidade, sendo matéria pertinente à saúde pública. Até quando teremos dois pesos e duas medidas nesse tema?

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Médico, Alegre, ES

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