|
PRÊMIO NOBEL
E Deus criou a ressonância magnética...
José Colucci Jr. (*)
Na segunda-feira (6/10), a comissão do prêmio Nobel anunciou que o americano Paul C. Lauterbur e o britânico Sir Peter Mansfield dividiriam o Nobel de Medicina 2003 pelas descobertas que levaram ao desenvolvimento do método de IRM – Imagem por Ressonância Magnética. Na mesma semana, um anúncio de página inteira protestando contra a injustiça na atribuição do prêmio apareceu no Washington Post e no New York Times, na quinta e na sexta, respectivamente.
O anúncio trazia a imagem da medalha do Nobel de cabeça para baixo e o título "Prêmio Nobel de Medicina deste ano: um erro vergonhoso que deve ser reparado". Segundo o anúncio, as pesquisas chaves em IMR foram feitas pelo Dr. Raymond Damadian. Lauterbur e Mansfield apenas aperfeiçoaram a técnica. O anúncio pedia aos leitores que protestassem por escrito e, para facilitar-lhes o trabalho, trazia um cupom para ser recortado e enviado ao comitê do Nobel, solicitando que o prêmio fosse dividido entre os dois ganhadores e o Dr. Damadian.
O primeiro anúncio, da quinta (9/10), no Washington Post, não era assinado. Trazia apenas um número de telefone. Descobriu-se rapidamente que o telefone era da Fonar, uma empresa do estado de Nova York que fabrica equipamentos para IRM. O CEO da Fonar – também não foi difícil descobrir – é Raymond Damadian. O anúncio da sexta, no New York Times, já trazia a assinatura da empresa. Em matérias publicadas no mesmo dia do anúncio, os jornais informaram ao leitor que a Fonar – o que vale dizer Damadian – desembolsou 80 mil dólares pela página do Washington Post e 122 mil dólares pela do New York Times.
A controvérsia em torno da paternidade da IRM não é nova, nem são novos os protestos de preteridos pelo prêmio. A história de como Damadian não ganhou o prêmio Nobel, no entanto, apresenta contornos que a tornam material jornalístico quentíssimo. Espanta que a grande imprensa, incluindo aí os dois jornais americanos citados e a Folha de S.Paulo, que no sábado (11/10) publicou excerto da matéria do New York Times, não tenha explorado os detalhes mais interessantes do caso.
Reconhecimento da paternidade
A disputa pela paternidade da IRM já se arrasta por alguns anos, centrada principalmente nos nomes de Lauterbur, um dos dois ganhadores o prêmio, e Damadian, que ficou de fora. Em reportagem de junho de 2002, o Wall Street Journal sugere que a IRM, mesmo sendo a candidata perfeito ao Nobel, ainda não tinha sido reconhecida pelo prêmio devido à rivalidade entre seus inventores presumidos.
De fato, os avanços no diagnóstico e pesquisa médica proporcionados pela IRM são inegáveis. A imagem por ressonância magnética permite examinar o interior do corpo humano de maneira não-invasiva, sem cirurgia, sem corantes potencialmente nocivos ou radiação ionizante. O fenômeno físico envolvido no processo – a emissão de fracos sinais de rádio quando átomos sofrem a ação de um campo magnético fortíssimo – foi descoberto na década de 1930. Pela descoberta, Felix Bloch e Ed Purcell ganharam o prêmio Nobel em 1952. Na década de 1940, descobriu-se que o tempo de resposta dos átomos excitados pelo campo magnético varia bastante dependendo da material que estiver sendo examinado. Em 1970, Damadian, médico e pesquisador, descobriu que a ressonância magnética poderia ser usada como instrumento diagnóstico. Damadian descobriu também que tecidos cancerosos exibem sinais mais longos do que os de tecidos sadios e as diversas patologias afetam a duração dos sinais de maneiras diversas.
Com Damadian já no palco, entra em cena Lauterbur, mas não muito depois daquele. Em 1971, Lauterbur, que é químico, concluiu, após observar o colega Leon Saryan repetir o experimento de Damadian, que a técnica não gerava informação suficiente para permitir a localização e o diagnóstico de tumores. Pôs-se a trabalhar e desenvolveu a técnica dos gradientes que é usada hoje. Mais tarde o outro laureado, o físico britânico Peter Mansfield mostrou como os sinais da IRM poderiam ser processados matematicamente para a geração de uma imagem tridimensional. Resumindo, Damadian foi um dos primeiros a reconhecer a aplicabilidade da ressonância magnética no diagnóstico médico, enquanto Lauterbur e Mansfield foram responsáveis pela implementação funcional da mesma. Segundo os especialistas, a técnica de Damadian era um beco sem saída, e mesmo a sua própria empresa – a Fonar – utiliza hoje o método de Lauterbur e Mansfield.
Com exceção da comissão do prêmio Nobel, Damadian não se pode queixar de ter sido ignorado pela comunidade. Ganhou, juntamente com Lauterbur, a Medalha Nacional de Tecnologia, concedida pelo presidente dos Estados Unidos. É citado em livros como sendo o inventor ou um dos inventores da IRM. Sua primeira máquina de IRM, batizada por ele de "Indomitable" (indomável, ou invencível), talvez em auto-homenagem do inventor à própria tenacidade, está na coleção do Museu de História Americana do Smithsonian Institute. Foi esse, aliás, o protótipo que Damadian apresentou à imprensa em julho de 1977, afirmando que "uma nova técnica de detecção não-cirúrgica de câncer no corpo humano foi desenvolvida". Ocorre que, quatro anos antes, em 1973, Lauterbur havia apresentado ao mundo a primeira imagem por ressonância magnética de um organismo vivo – um molusco coletado por sua filha nas praias de Nova York.
A questão da autoria
Quem conhece o meio acadêmico sabe que a disputa pela autoria das idéias em ciência daria uma novela que, em mãos competentes, não faria feio no horário nobre. Desde as desavenças entre o aluno de pós-graduação e seu orientador por causa de um trabalho enviado para publicação às disputas entre cientistas pela primazia em certos campos, a questão da autoria é cercada de mentiras, intrigas, sabotagens e, não raro, baixarias. Isso se torna ainda mais espantoso quando se considera que no meio científico as idéias são fruto mais do conhecimento compartilhado entre os especialistas do que do brilhantismo de um único cientista. Quando se compartilham dados e opiniões é por vezes difícil traçar a origem de uma idéia ou determinar o momento preciso de sua criação.
Damadian não pode ser acusado de esperar passivamente que o mundo lhe reconheça o brilhantismo. Na entrevista de 2002 ao Wall Street Journal, Damadian declarou que o crédito pela invenção do IRM deveria ir para ele próprio e, em segundo lugar, para Lauterbur. Disse mais: "Se eu não tivesse nascido existiria a IRM? Eu acho que não. E se Lauterbur não tivesse nascido? Eu acabaria chegando lá". Como prova de seu pioneirismo, Damadian cita o processo vitorioso da Fonar contra a rival General Electric por infringir a sua patente de 1974. No acordo a Fonar recebeu 128 milhões de dólares.
A motivação de Damadian
É claro que a motivação de Damadian, um empresário bem sucedido, não é dinheiro. Pelas regras do Nobel, quando o prêmio tem dois ganhadores, a quantia de aproximadamente 1,3 milhões de dólares é dividida igualmente. Quando os ganhadores são três, o número máximo, a comissão pode optar entre dividir o prêmio igualmente entre os três ou conferir a metade do dinheiro a um dos pesquisadores e dividir a outra metade entre os ganhadores secundários.
Damadian gastou 202 mil dólares só em veiculação, sem contar os outros custos do anúncio. Sabe que a possibilidade de fazer a comissão do Nobel mudar de idéia não existe. Ele declarou ao New York Times que "não há chance de que eles mudem de idéia. Mas quero que o público saiba que essa é uma entidade que opera acima da lei e não responde a ninguém. Eles não deveriam ter liberdade para serem os árbitros últimos da história da ciência." Disse ainda que se sente roubado dos últimos trinta anos de sua carreira científica.
As razões da comissão do Nobel
As razões da comissão do Nobel para não incluir Damadian entre os premiados e a documentação usada para respaldar a escolha de Lauterbur e Mansfield permanecerão secretas por 50 anos, como ditam as regras do prêmio. A comissão é soberana e a crítica de Damadian, de que opera acima da lei e não responde a ninguém, é uma obviedade. O Nobel é uma entidade privada que não está sujeita à fiscalização do público.
No caso do Nobel de Medicina, a comissão convida de 2.500 a 3.000 pesquisadores de universidades e centros de pesquisa médica fora da Escandinávia, de acordo com um sistema de rotação, a apresentar confidencialmente os seus candidatos ao prêmio. Ganhadores do Nobel de Fisiologia ou Medicina de anos anteriores, bem como professores de escolas médicas de países nórdicos, têm o direito de indicar candidatos todos os anos. A comissão não aceita a candidaturas informais.
O prêmio Nobel, segundo o testamento de Alfred Nobel, deve ser outorgado às descobertas que mais beneficiaram a humanidade. No caso do prêmio Nobel de Física ou de Química, a ênfase tem sido em "descobertas". No prêmio de Medicina, a ênfase tem sido em "que mais beneficiaram a humanidade". Sob essa óptica, a escolha de Lauterbur e Mansfield pode ser justificada. Foram eles que transformaram a IRM em tecnologia útil. Não seria descabido, por outro lado, incluir Damadian, já que foi dele a idéia de usar o princípio da ressonância magnética para o diagnóstico de doenças.
A comissão do prêmio pode ter outra razão, e essa, surpreendentemente, não foi explorada pela imprensa. Não foi explorada sequer por Damadian, por razões que exporei a seguir.
Prêmio Nobel de comportamento
Em prestígio para os ganhadores, nada se compara ao Nobel. Fazer parte de uma lista ao lado de Pavlov, Frederick Banting, Marie Curie, Watson, Crick, Einstein, Heisenberg, Marconi, John Bardeen, Richard Feynman e Linus Pauling, para citar aleatoriamente uns poucos, é a coroação da carreira de qualquer pesquisador.
Uns poucos laureados, porém, deslustraram o prêmio com opiniões e atitudes questionáveis no campo moral ou científico. O professor William Shockley, por exemplo, que ganhou o Nobel por sua participação na invenção do transistor, propôs que pessoas com QI inferior a 100 fossem esterilizadas, ganhando um bônus por isso. Shockley também afirmou que algumas raças eram geneticamente inferiores, o que lhe valeu o ostracismo do meio acadêmico durante o resto da vida. O brilhantismo de Shockley sempre foi reconhecido por seus pares, e também a sua tendência a apossar-se de idéias – as suas e as dos outros.
O cientista Kary Mullis, ganhador do Nobel de Química pela invenção do PCR – um método para a multiplicação de amostras de DNA – foi marginalizado após declarar, contra todas as evidências, que o HIV não é a causa da AIDS. Mullis afirmou que os pacientes de AIDS estariam morrendo por causa do AZT usado para tratar a doença.
James Watson, um dos descobridores da espiral dupla do DNA, provocou controvérsia ao sugerir que existem relações bioquímicas entre a cor da pele e a atividade sexual, e entre a magreza e a ambição. Pela hipótese, pessoas de pele escura seriam sexualmente mais ativas e os magros mais ambiciosos e, portanto, mais bem sucedidos. Watson não apresentou evidências plausíveis para a afirmação. Também não explicou o que acontece com os magros que também são negros.
Assim, a respeitabilidade outorgada pelo prêmio Nobel pode ser usada pelos ganhadores para propagar idéias que não tenham respaldo científico algum. Uns poucos tiram vantagem disso. A suspeita é que Damadian seria um deles, pois Damadian é um fanático religioso.
A "ciência" da criação
O leitor que se der ao trabalho de dar uma busca pela internet usando as palavras-chaves adequadas, irá encontrar o nome de Raymond Damadian associado ao movimento religioso chamado "ciência" da criação. Para o leitor brasileiro, distante dessa polêmica que existe nos EUA, e só nos EUA, a associação parece sem conseqüências para a candidatura de Damadian ao Nobel. Mas podemos especular que não foi. É possível que, para os cientistas que indicaram candidatos e para a comissão do Nobel, a premiação de um criacionista traria dificuldades futuras.
Os criacionistas crêem que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. E não no sentido figurado. Acreditam que o Criador interferiu pessoalmente e, por processos que não podem ser explicados pela ciência, criou o mundo e tudo o que nele existe. O Institute for Creation Research, do qual Damadian faz parte como consultor do conselho técnico, tem por objetivo fazer a "ciência retornar à sua devida posição de prestar glórias a Deus, e ver a criação reconhecida como força pelo corpo de Cristo (...) removendo obstáculos ao Evangelho". Essa crença não pode coexistir com as pesquisas de boa parte dos ganhadores do prêmio, que vão da moderna teoria da evolução às teorias em astrofísica sobre a origem do universo.
Em suas tentativas de forçar as escolas públicas americanas a ensinar religião ao lado da teoria da evolução de Darwin, os criacionistas vêm colecionando uma série de derrotas legais. Comentando o artigo de um criacionista aqui mesmo neste Observatório, eu disse que "o criacionismo virou nome feio não apenas no meio científico, mas também na mídia. Sua menção conjura a imagem de sectários fundamentalistas brandindo a Bíblia contra o avanço materialista da ciência".
Damadian sabe disso, e por essa razão não levanta a bandeira do criacionismo. Pelo menos não antes de receber o Nobel. Sabe que a associação com um movimento sectário só lhe traria prejuízos para a imagem e dificultar-lhe-ia a tarefa de conquistar simpatizantes entre o grande público. A comunidade científica, por sua vez, não tomará as dores de Damadian. Entre os cientistas de elite, a crença num Deus personalizado e capaz de intervir nos afazeres humanos é baixa, e vem diminuindo. Segundo pesquisa da revista Nature de 1998, apenas 7% dos 517 membros da National Academy of Sciences acredita no Deus personalizado das religiões. Essa porcentagem atinge o máximo entre os matemáticos (14,3%) e o mínimo entre os pesquisadores das ciências médicas e biológicas (5,5%).
Não há, entre a maioria dos cientistas, animosidade contra a religião, apenas indiferença. Já a relação com o criacionismo é outra. Enquanto a igreja católica e as correntes fundamentais do protestantismo e judaísmo já transferiram para a ciência a missão de explicar o universo material, o mesmo não se dá com o criacionismo. Para os adeptos dessa corrente religiosa, a única autoridade competente na questão das origens é a bíblia sagrada.
A decisão da comissão do Nobel
Se for plausível a tese apresentada aqui, a decisão da comissão do prêmio Nobel apresentou dificuldades. Incluir Damadian entre os vencedores do Nobel seria o seu justo reconhecimento como um dos inventores da IRM. Por outro lado, incluí-lo significaria também premiar um inimigo do espírito humano que guiou o estabelecimento do prêmio. Protegida pelo sigilo, a comissão do Nobel, numa jogada de impacto calculado, resolveu ser fiel à intenção de Alfred Nobel de buscar "o máximo benefício para a humanidade". Por ironia, as pesquisas atuais do ganhador, Paul Lauterbur, são sobre a química das origens da vida.
(*) Engenheiro, vive em Boston (EUA); e-mail <j.colucci@rcn.com>>
|