Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

OI OITO ANOS > 1994, 1996, 1998

História de sucessos, cenário de fracassos

Por Alberto Dines em 04/05/2004 na edição 275

A bolha estava enchendo, euforia geral, ninguém queria enxergar problemas nem reparar nas armadilhas. Todos apostavam na tecnologia e nos mercados. A qualidade não preocupava, bastava importar algumas consultorias internacionais e os jornalistas rapidamente reaprenderiam a fazer jornalismo.

Empresas de mídia descapitalizadas, sem projetos estratégicos e quadros experientes, mesmo assim investiram pesadamente. Quem não crescesse, ficaria no meio do caminho. Nada poderia deter aquela imprensa viril, recém-saída da censura e que, mesmo assim, conseguira derrubar um presidente.

Abril de 1994, campus da Universidade Estadual de Campinas, de 12 a 14, realiza-se o seminário "A Imprensa em Questão" patrocinado pela IBM. Uma rápida pesquisa nos anais do encontro revelará que, a despeito da euforia, os jornalistas mais experientes, treinados antes de 1964, preocupavam-se com a excitação desmedida. [Veja, nesta rubrica, os textos introdutórios do livro "A Imprensa em Questão", que publicou os anais do seminário do mesmo nome.]

Nascia o Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo), graças ao empenho do então reitor da Unicamp, Carlos Vogt (até hoje o seu coordenador). Pretendia ser um centro de estudos interdisciplinares e, ao mesmo tempo, um projeto de conscientização social. A imprensa precisava ser discutida em todas as esferas, inclusive pela sociedade à qual deveria servir.

Durante dois anos o Labjor fez seminários interdisciplinares, cursos de extensão, colóquios (dentro e fora da academia) e um programa de atualização pedagógica para professores de Jornalismo do país inteiro. Um destes eventos, o Seminário de Comunicação do Banco Brasil, neste 2004 completará a sua 10ª edição; e o mestrado em Jornalismo Científico (lato sensu) breve formará a sua terceira turma. [Veja, nesta rubrica, o texto "Labjor: memória do primeiro biênio.]

No segundo seminário "A Imprensa em Questão", realizado com a FIESP, foi discutida pela primeira vez por empresários, economistas e lideranças sindicais a necessidade de alterar o artigo 222 da Constituição. Empregos evaporavam, empresas de mídia sufocavam sem acesso ao mercado de capitais, e estava claro que os truques de marketing, promoções e brindes não poderiam dar à mídia brasileira a sustentação e a escala para um salto à frente. Indispensável atualizar a Carta Magna para que as empresas mudassem a sua estrutura acionária – sem isso a quebradeira seria geral.

Naquele mês de abril de 1996, numa reunião do Labjor reconhecemos que as questões levantadas nos diferentes eventos precisavam ser oxigenadas e legitimadas pelo debate público. O jornalista Mauro Malin, recém-incorporado ao grupo fundador, sugeriu um boletim na internet. Lançado em seguida, inicialmente sem periodicidade, depois quinzenal e, finalmente, semanal – com o nome Observatório da Imprensa (emprestado da entidade portuguesa, co-irmã). [A partir de abril de 2002, o Observatório da Imprensa passou a fazer parte do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo.]

Em fins de 1997, o jornalista Alexandre Machado, então diretor de jornalismo da TV Educativa, no Rio de Janeiro, sugeriu um programa de TV nos mesmos padrões abertos e contundentes do site. Estava criada a versão televisiva do Observatório da Imprensa, lançada no ano seguinte. (Só não foi ao ar no mesmo mês de abril por razões técnicas: a primeira emissão deu-se em 5 de maio de 1998). Semanas depois, o programa incorporava-se à grade da TV Cultura, de São Paulo.

Na primeira edição deste Observatório, apenas uma denúncia – contra o presidente do Senado, José Sarney que engavetara o projeto de criação do Conselho de Comunicação Social. Oito anos e 275 edições depois, o leitor tem condições de avaliar o caminho que juntos percorremos. E, também, de lamentar a pobreza do nosso elenco político com o mesmo José Sarney agarrado às galas e vantagens do posto de eminência parda [leia a primeira edição online do Observatório da Imprensa em (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/edition_section/1)].

Até o momento, a nossa parece ser uma história de sucessos. Corolário inevitável: sucesso dos críticos significa o fracasso dos criticados. Quanto mais desvendam-se as mazelas de uma mídia arrogante e claudicante, maior o fosso entre ela e o seu público.

Espelho fiel?

O país vive um enorme mal-entendido: a imprensa imagina-se competente ao informar, o governo imagina-se competente ao truncar as informações e os governados imaginam que poderão continuar abastecendo-se indefinidamente com as abobrinhas que ambos lhe impingem como realidade. Em cada uma das crises concêntricas que ora atravessamos, o volume de fatos omitidos ou distorcidos é infinitamente superior ao dos reconhecidos como verdadeiros. Em plena era da informação, isto é trágico.

A sociedade americana foi enganada por seus líderes com a cumplicidade da mídia mas, aos poucos, graças aos bolsões de integridade jornalística, começa a enxergar a verdade. Entre nós, apesar de divergências e competições, parece haver um complô pequeno-burguês entre noticiadores e noticiados para camuflar as coisas incômodas e, em seu lugar, oferecer amenidades.

Um grande pool jornalístico parece controlar a intensidade e duração das coberturas. Tudo acaba de supetão, raramente atravessa um fim de semana. Impera no cenário político-institucional o estilo Caras de jornalismo – na próxima edição, tudo outra vez.

Como trabalho investigativo, e como retrato da corrupção entranhada nos governos, as façanhas jornalísticas do Diário de S.Paulo e da Folha de S.Paulo ao denunciarem as escandalosas licitações do lixo no município de São Paulo são muito mais graves do que o grampo produzido por um delinqüente (Carlinhos Cachoeira) incriminando outro (Waldomiro Diniz). E, no entanto, por ser mais complicado, demandar mais espaço e mais competência para cobrir, será rapidamente jogado no lixão dos escândalos esquecidos.

Do massacre dos garimpeiros à sentença judicial inocentando ACM no megagrampo da Bahia, do guarda-roupa de Rosinha Matheus na reunião dos governadores ao jantar de desagravo dos intelectuais a José Dirceu organizado por uma empresa de eventos, dos murros na mesa em Brasília ao brunch de 1º de Maio oferecido na Casa Fasano às elites sindicais, em São Paulo – tudo lembra Marie Antoinette, a doidivanas que perdeu a cabeça. Só que no fim do século 18 circulavam em Paris apenas os pasquins satíricos e neste princípio do século 21 convencionou-se que a imprensa seria o espelho fiel do que acontece.

As marcas

A troca de sopapos entre as protagonistas da telenovela Celebridades e a heróica escalada das socialites nas ladeiras da Rocinha no Dia do Carinho são dois flagrantes de uma sociedade que entrega-se à banalização com imenso prazer. Este convívio com a violência não é culpa da polícia mas da ausência de valores morais aos quais a imprensa costumava honrar. O ágil jornalismo carioca reinventou o colunismo social nos anos 1950 e o colunismo social está reinventando o jornalismo carioca meio século depois.

Tantos são os escroques que rondam a mídia que em breve teremos que fazer uma revisão e considerar Assis Chateaubriand como lorde e o velho Geraldo Rocha como gentleman. Ratinho já foi branqueado, logo virão outras reabilitações inspiradas pelo comissário Duda Mendonça.

Gramática assassinada, arquivado o compromisso com a exatidão, aviltada a ética pelo número abusivo de seminários para estudá-la, só restou o álibi ideológico. "Sou de esquerda" – então vale tudo, inclusive escancaradas jogadas em favor da direita.

Neste quadro de deficiências sobrepostas, entende-se porque a mídia não consegue cobrir com clareza os desdobramentos das notícias a seu respeito. Enganou os leitores na época da bolha e continua a ludibriá-los na hora de pagar a conta com a ajuda do BNDES.

Têm algo de penoso os triunfos colhidos ao longo desta década no projeto Labjor-Observatório da Imprensa. Não por que a observação esteja incorreta ou os observadores, enganados.

O microscópio do logotipo do Labjor e olho da marca Observatório estão em perfeitas condições. O problema está com os observados. É mais confortável manter o olho crítico fechado.

[O logotipo do Labjor foi criado pela designer Ana Waldman Vogt (1976-1995); o do Observatório da Imprensa é de autoria de Fernanda Leonardo.]

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