Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

O ESTADO É LAICO. E A MÍDIA, É LAICA?

A urgência de uma radiodifusão leiga

Por Alberto Dines em 22/05/2007 | Programa número 417 | comentários

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Estamos novamente submetidos ao vexame da corrupção e da fraude nos mais altos escalões da república. Desta vez, as denúncias não partiram da imprensa mas vieram do próprio Governo, através da Polícia Federal. Nesta operação navalha, a imprensa não deve resignar-se a um papel passivo. Se não pode investigar com a mesma eficácia dos federais, cabe a ela pressionar o Legislativo para abandonar a atitude fisiológica e corporativa para empenhar-se urgentemente no debate sobre a reforma política. Alguém precisa dar um murro na mesa e dizer basta! E este alguém deve ser a imprensa.


O presidente Lula foi enfático: o Estado brasileiro é um Estado laico. A proclamação foi elogiada pela situação e pela oposição. Mas não é bem assim: num estado efetivamente laico nossos tribunais não deveriam exibir símbolos religiosos, eles denotam preferências em matéria de fé, incompatíveis com a independência da magistratura.


Dias depois, o presidente Lula retomou a questão do laicismo do estado brasileiro ao afirmar que a futura rede pública de tevê será leiga, secular. É também uma boa notícia e uma admirável intenção. Mas não basta que a futura rede pública seja laica. É preciso não esquecer que todo o sistema de radiodifusão no Brasil é teoricamente público, já que as emissoras funcionam no sistema de concessões do Estado a empresas privadas ou entidades.


Se a futura tevê pública vai ser leiga, por que razão não devemos estender o conceito de secularismo a todas as concessões para radiodifusão? As trinta e quatro emissoras de tevê reconhecidamente religiosas – protestantes ou católicas – por acaso, não confrontam o laicismo preconizado em tão boa hora pelo presidente da República?


Há alguns anos tivemos uma guerra santa na tevê brasileira quando um pastor da rede Record ofendeu as devoções dos telespectadores católicos. A Rede Globo reagiu e, de repente, quase voltamos aos tempos das cruzadas. Agora, em função da cobertura da visita de Bento XVI, esboça-se uma nova guerrilha religiosa entre os mesmos cruzados: a Globo e a Record, sendo que desta vez a Igreja Universal do Reino de Deus vai contar com a ajuda da TV Guaíba do Rio Grande do Sul e provavelmente da TV Alterosa de Minas Gerais.


A questão do laicismo do Estado brasileiro ganha agora um sentido de urgência. Deixou a esfera da ciência política e da teoria democrática para converter-se numa convocação contra cisões fratricidas que, alimentadas pelas religiões, só tendem a agravar-se. É preciso não esquecer o potencial de destruição dos modernos arsenais da comunicação de massa.


Assista ao compacto desse programa em:
www.tvebrasil.com.br/observatorio/videos.htm

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