Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

MARIA RITA KEHL

Censura, modos de usar

Por Alberto Dines em 12/10/2010 | Programa número 567 | comentários

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Numa avaliação que já se tornou clássica (embora feita há apenas duas semanas), o jornalista Franklin Martins disse que a imprensa brasileira é livre mas não é boa. Este binômio liberdade-qualidade merece uma discussão demorada. Hoje vamos discutir apenas sua premissa inicial: a imprensa brasileira é livre.

É livre? Mas quem se beneficia desta liberdade – os veículos jornalísticos ou aqueles que neles escrevem? Esta é uma questão antiga mantida em segredo e até hoje irresolvida. Por força das circunstâncias fortuitas, esta liberdade foi questionada dias depois quando a psicanalista Maria Rita Kehl, que colaborava há oito meses no Segundo Caderno do Estado de S. Paulo, foi afastada do quadro de articulistas por causa de um artigo que publicou no seu espaço semanal.

O caso não repercutiu na mídia impressa, exceto no semanário Carta Capital, e mereceu uma nota na seção de cartas do Estadão. Mas teve amplo destaque no ciber-espaço, principalmente no portal Terra. Este silêncio constrangido exemplifica o que afirmamos há mais de uma década: se a mídia olha para o lado quando devia tratar dela própria, suas escolhas tornam-se suspeitas.

Este Observatório não poderia ignorar o episódio. A psicanalista Maria Rita Kehl prontamente aceitou nosso convite e participa dos nossos estúdios no Rio de Janeiro.

Ao jornalista Ricardo Gandour, diretor de conteúdo do Grupo Estado, foram oferecidas várias alternativas: participar ao vivo dos estúdios em São Paulo ou gravar um depoimento que seria transmitido na íntegra sem cortes. Infelizmente este que é o diretor de jornal mais acessível e o mais assíduo neste Observatório, declinou. Apresentaremos a sua argumentação extraída da entrevista que concedeu ao jornalista Bob Fernandes, editor-chefe do portal do Terra.

A psicanalista Maria Rita Kehl formou-se na USP em 1980 mas escreve em jornais desde 1974. É autora de vários livros sobre psicanálise e cultura. Com o seu último livro "O tempo e o cão, a atualidade das depressões" ganhou o prêmio Jabuti deste ano na categoria psicanálise.

Aqui no estúdio está também o jornalista e professor Muniz Sodré, mestre em sociologia da informação e da comunicação pela universidade de Paris-IV e doutor em letras. Presidente da Fundação Biblioteca Nacional é autor de 30 livros na área da comunicação.

Além de apresentador e mediador, hoje sou também testemunha, testemunha de acusação. No final de fevereiro deste ano o meu artigo semanal publicado no portal do Último Segundo há seis anos foi censurado e eu demitido na mesma hora. O portal do Último Segundo pertence a uma operadora de telefonia privada mas segue uma linha política oposta à do Estadão. Este tipo de violência não é episódico. É sistêmico e está embutido insidiosamente na liberdade da nossa imprensa qualquer que seja o seu matiz político.

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