Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CONCILIAÇÃO NACIONAL

RESCALDO DAS URNAS

Por Alberto Dines em 02/11/2010 | Programa número 570 | comentários

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Se a política é a arte do possível, conciliar adversários depois de um confronto eleitoral deveria ser tarefa fácil. Não é. Em primeiro lugar porque o confronto foi incomum, violento. Em segundo lugar, porque a política, sobretudo nas democracias, é um processo contínuo, dinâmico, veloz. O discurso de hoje precisa ser reafirmado amanhã, caso contrário, desgasta-se e fica esquecido.

Um complicador no nosso caso é que a imprensa foi empurrada para o palanque e agora precisará de algum tempo para desencarnar do papel de beligerante. Ameaçada, viu-se forçada a revidar e ao revidar, perdeu o senso de equilíbrio e esqueceu alguns de seus deveres.

A presidente eleita, Dilma Rousseff, garantiu na comemoração da vitória que não permitirá ameaças à liberdade de expressão. Foi uma manifestação importante destinada a desarmar os espíritos. Hoje alguns jornais confirmavam o que foi dito neste Observatório há três semanas: o governo vai estimular a sua base de apoio no Legislativo e apressar a reanimação do Conselho de Comunicação Social, órgão auxiliar do Congresso, previsto na Constituição e que já funcionou durante um mandato com alguma desenvoltura. O renascimento deste Conselho tem caráter simbólico mas política faz-se também com símbolos.

Outra protagonista do embate eleitoral e igualmente involuntária foi a questão religiosa. O Estado brasileiro laicizou-se formalmente no texto da primeira Constituição republicana mas nunca foi para valer. A introdução artificial do tema do aborto na disputa eleitoral e, depois, a indevida intromissão do Vaticano em assuntos internos de um Estado soberano, exigirá habilidade e paciência. A questão está posta, dificilmente será esquecida. A imprensa não pode ignorá-la como sempre fez.

Tema que incendiou a campanha e que também não poderá manter-se engavetado é o da corrupção. Conciliar aqui significa repetir o formidável sucesso da campanha da ficha limpa que empolgou todos os segmentos, partidos, facções e poderes. O envolvimento integral da sociedade brasileira numa cruzada para estabelecer padrões mínimos de moralidade servirá como um tônico para cicatrizar as feridas eleitorais. Esta é uma reconciliação que precisa ser tocada com empenho e velocidade no resto deste mandato para que não se torne uma herança maldita. Também aqui a imprensa desempenhará um papel crucial para despolitizar a busca da decência.

Ao conciliar correm-se riscos, sem correr riscos não se fazem avanços. Conciliar exige coragem, boas intenções não são suficientes para unir um país que nesta refrega eleitoral, ao contrário das anteriores, saiu dividido e machucado.

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