Domingo, 20 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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OPINIãO > Lições da história

Buarque, Kucinski, literatura e jornalismo: relatos de buscas

Por Juliana Rosas em 16/07/2019 na edição 1046

(Foto: Reprodução)

Publicado originalmente no site objETHOS

K – Relato de uma busca e O irmão alemão, livros de Bernardo Kucinski e Chico Buarque, respectivamente, possuem algumas semelhanças: boa literatura, ficções baseadas na biografia dos seus autores, buscas fraternais envoltas na ditadura militar brasileira. Além de serem dos poucos trabalhos literários que ousam falar deste período do país.

Há alguns anos, tive a sorte de comparecer a um bate-papo de autores numa feira literária. Lá estava, entre outros, Bernardo Kucinski, numa mesa que debatia literatura e ditadura. Ele relançava justamente K – Relato de uma busca, cuja história se passa durante essa sombria época da história brasileira. É uma ficção, mas baseada na vivência do próprio autor. Como consta em sua obra: “Tudo nesse livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”.

Antes disso, havia visto uma apresentação de Kucinski em 2014, na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), com o mesmo livro e numa mesa também sobre a ditadura, numa conversa comovente que contou com a participação de um emocionado Marcelo Rubens Paiva. Algum tempo depois, ao ler O irmão alemão (Companhia das Letras, 2014), não pude deixar de fazer conexão com a obra de Kucinski.

À época, o livro K era um lançamento recente da Cosac Naify, mas tinha tido uma primeira edição em 2011, pela editora Expressão Popular. Quando assisti ao bate-papo com Kucinski, mesmo pela segunda vez, O irmão alemão ainda não havia sido lançado. Digo isso porque uma de suas falas que mais chamou a atenção e gerou debate foi (mais ou menos assim): “Não há literatura sobre a época da ditadura no Brasil. Não foi um tema debatido à exaustão. Não foi algo que gerou uma grande reflexão, como fez o Holocausto. A Alemanha enfrentou esse debate. O Brasil parece querer esconder essa época ainda hoje”.

Com O irmão alemão, à época de seu lançamento, o debate parece ter-se focado na história real do irmão alemão de Chico Buarque. Está aí outra semelhança entre as obras: histórias reais “ficcionalizadas”. Ficção baseada na realidade, ou ainda a chamada ficção autobiográfica. Biografias ficcionalizadas porque foram fatos vividos pelos autores, que afetaram profundamente suas vidas, acrescidos de narração ficcional. O caso do real irmão alemão, quase desconhecido até pelo próprio Chico, ganhou mais atenção. Porém, a obra do cantor/autor também fala da ditadura. É pano de fundo da história, outra parte de uma biografia ficcionalizada, uma vez que o autor também foi acossado pela censura da época e fugiu para a Itália após saber que os militares poderiam persegui-lo.

Que eu me lembre, a palavra ditadura não é mencionada em O irmão alemão. Creio que também não o é em K. Não é escrita, não está dita em potencial. Mas, além de pano de fundo, sua presença é bastante real para os personagens. Por escolha dos autores ou por vivência própria passada à ficção, a ditadura em suas obras transparece como real, porém quase não oficial, não dita, não reclamada, não gritada em voz alta. Assim foi a realidade. O Holocausto é assunto também difícil, mas suas atrocidades são sabidas e, o fato, reconhecido pelos países participantes.

Desconhecimento do passado, desprezo pela verdade

Porém, como brasileiro adora passar vergonha a débito, crédito e em várias vezes sem juros, resolveu, há algum tempo, comentar em páginas da Embaixada Alemã no Brasil que “nazismo era de esquerda”, bem como o era o partido de Hitler. “Nunca tinha visto essa discussão sobre o nazismo ser de esquerda na Alemanha”, afirma o cientista político alemão Kai Michael Kenkel, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e pesquisador associado do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), entrevistado na matéria da Deutsche Welle. “Lá é muito simples: trata-se de extrema direita e pronto. Essa discussão sobre ser de esquerda ou direita parece existir só no Brasil. Se você perguntar para um neonazista na Alemanha se ele é de esquerda, vai levar uma porrada”, continua. “Essa falsa polêmica demonstra que o ensino de história no nível básico é profundamente falho no Brasil. Também mostra uma profunda manipulação dos fatos e um desprezo pela verdade entre alguns setores no Brasil.”

O jornalista e cientista político Thomas Milz sugere que, diante da bagunça no espectro ideológico brasileiro, que ronda o país desde as eleições de 2018, em vez de nazismo e comunismo, falemos dos problemas do Brasil. “Tenho que esfregar os olhos de espanto quando abro a minha conta do Facebook: o nazismo teria sido um movimento de esquerda, postam brasileiros conhecidos meus. Só posso torcer para que eles nunca esbarrem com os cinco neonazistas que me espancaram no início dos anos 1990, na Alemanha, achando que eu fosse um ‘porco esquerdista’. Um encontro com esses caras certamente abriria os olhos desses meus conhecidos. Ou os fecharia de vez.”, escreveu.

Um dos que se deram ao trabalho de falar sobre os problemas do Brasil foi o jornalista Mário Magalhães, em seu mais recente livro, Sobre lutas e lágrimas – Uma biografia de 2018. “O desprezo pelo passado frequentemente nos conduz ao horror e ao sofrimento, fenômeno que se apresenta aos olhos dos historiadores no período entre as duas devastadoras guerras mundiais que marcaram o século XX. No Brasil, há quem ainda não tenha compreendido, por exemplo, a natureza do golpe militar de 1964, que ceifou vidas, esperanças e amores. Pior é a crença patológica em um passado edulcorado, no qual a farda supostamente garantiu aos brasileiros um tempo de ordem, progresso e segurança, de gestores públicos imaculados, jamais envolvidos em casos de corrupção”, escreveu Walter Falceta em uma resenha sobre o livro de Magalhães.

Como relatou Bernardo Kucinski, a ditadura brasileira era um “sorvedouro de pessoas”. Pessoas desapareciam e nada era dito sobre elas. “Até os nazistas que reduziam suas vítimas a cinzas registravam os mortos. Cada um tinha um número, tatuado no braço. A cada morte, davam baixa num livro. (…) Não havia a agonia da incerteza; eram execuções em massa, não um sumidouro de pessoas.” (Em K, p. 23.)

N’O irmão: “Antes da esquina estaca, rodopia, corre de volta pra cá, e é quando a fuzilaria se intensifica. Eu não gostaria de ver sua cara, e de fato não vejo porque explode antes que eu possa fechar os olhos. Quando os reabro vejo o rapaz que ainda foge, mas sem a cabeça, é um corpo sem cabeça que corre uns dez metros, botando sangue pelo pescoço, pela barriga e pelo cu, quando tomba não muito longe do pensionato”. (P. 99.) O irmão alemão nos faz lembrar as atrocidades do Holocausto. O irmão brasileiro, da não dita ditadura. “E eu que nunca morri de amores por aquele irmão, eu que o teria trocado por um irmão alemão sem pestanejar, passei a me inquietar com a ameaça de ficar sem irmão nenhum”. (P. 160.)

E o jornalismo com isso? Vladimir Safatle afirmou: “Quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra”. A repórter Karina Gomes escreveu: “Na escola, alunos aprendem exaustivamente sobre as atrocidades do nazismo. Nas ruas, memoriais e museus não deixam que a verdade histórica seja esquecida. Estratégia é lembrar do passado para que erros não se repitam”. Como mostra esta longa e excelente matéria do NY Times, o antissemitismo ainda vive, apesar das políticas públicas a esse respeito. Ou seja, pode ser difícil mudar certas almas, mas uma nação e seus governantes podem minorar consequências históricas e comportamentos preconceituosos. O jornalismo, em vez de somente reportar comentários racistas de governos ou normalizar comportamentos, pode ajudar a fomentar um debate construtivo.

O Brasil muitas vezes parece não reconhecer oficialmente a ditadura. Pelo menos, não seus atos e atrocidades. O país desejou que a Lei da Anistia absolvesse tudo e todos. Ex-ministro da Defesa e do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim afirmou em entrevista que a Comissão da Verdade do governo de Dilma Rousseff deixou militares ressentidos com setores do PT. Até os protestos recentes, esse era um obscuro período do qual não se ousava falar. De sinistro a vergonhoso, de esquecido a celebrado. Com a decepção com governos de esquerda, o levante direitista quis reerguer até seus mais medonhos atos. A ditadura passou a ser benquista por uma parte. Já imaginaram um alemão querendo a volta do nazismo? Que venha mais literatura sobre isso, pois anistiar não é esquecer. Que o jornalismo não seja mero fantoche nas mãos dos poderosos. Que não nos esqueçamos nunca – dos desaparecimentos, atrocidades e injustiças. Devemos lembrar sempre, para que a história não se repita. “O povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.” (Frase atribuída a autores diversos.)

***

Juliana Rosas é doutoranda no PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS.

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