Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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OPINIãO > Liberdades

Os trinta anos da queda do Muro de Berlim, o nazismo e a libertação de Lula

Por Ricardo Kotscho em 12/11/2019 na edição 1063

(Foto: Jim Garamone)

Publicado originalmente no site Balaio do Kotscho

Por acaso, se é que acasos existem, liguei a televisão na hora em que estava passando a reprise do primoroso programa do Pedro Bial sobre os trinta anos da queda do Muro de Berlim.

Impossível não se emocionar novamente com aquelas imagens e as entradas ao vivo do próprio Bial e de Sílio Boccanera nas primeiras horas da derrubada dos portões que separavam dois mundos.

Foram muitas emoções nas últimas horas, desde que um juiz mandou abrir as portas da prisão em Curitiba onde Lula passou os últimos meses.

Era como se aquele pessoal da Vigília Lula Livre, que resistiu bravamente durante 580 dias à espera da libertação de seu líder, tivesse derrubado, no fim da tarde de sexta-feira, os muros do prédio da Polícia Federal que separavam o ex-presidente dos brasileiros.

No mesmo horário, trinta anos atrás, a invasão dos alemães orientais à Alemanha Ocidental marcava o fim da Guerra Fria e o mundo voltava a respirar com mais liberdade.

Um dia antes, eu tinha entrevistado o senhor Andor Stern, único brasileiro ainda vivo que escapou do Holocausto, depois de passar treze meses no campo de concentração de Auschwitz, na Alemanha.

É incrível a alegria de viver deste homem de 91 anos, que preza a liberdade acima de tudo, ainda trabalha e viaja pelo mundo, saboreando cada dia como se fosse o último.

A matéria sobre Stern foi publicada segunda-feira, na Folha, dia em que ele seria homenageado no Memorial do Holocausto, no Bom Retiro.

E o que tem a ver o Muro de Berlim, a libertação de Lula e o milagre da sobrevivência do judeu que foi jogado no vagão de carga de um trem e ficou uma semana sem comer até que as portas fossem abertas?

O que une esses três episódios é o próprio sentido da vida e a certeza de que nunca se pode perder a esperança.

Quando trabalhei como correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha Ocidental, no final da década de 70 do século passado, ninguém poderia imaginar que, dez anos depois, não haveria mais Muro de Berlim e a Alemanha voltaria a ser uma só.

Até outro dia, parecia impossível que a Justiça fosse libertar Lula em respeito à Constituição e me acharam ingênuo por prever que o STF tomaria esta decisão com o voto de minerva de Dias Toffoli.

Depois de ver parte de sua família desaparecer pelas chaminés das câmaras de gás do campo de concentração, o jovem Stern, de 17 anos, precisava ter um fio de esperança para não enlouquecer, como aconteceu com tantos outros prisioneiros.

E hoje ele continua dirigindo seu carro por onde quer, sem pedir licença a ninguém, de vidros abertos, com a alegria de um jovem de 18 anos que acabou de tirar a carteira, saboreando a liberdade.

Só quem já perdeu a liberdade, nem que fosse por um único dia, e passou fome por dias seguidos, como aconteceu com tantos alemães na Segunda Guerra, com Stern em Auschwitz e depois com Lula, primeiro na ditadura e agora no Brasil quase democrático, sabe dar mais valor aos pequenos prazeres da vida – sentar com os amigos no boteco da esquina para tomar uma cervejinha com calma, por exemplo.

Foi o que fiz na noite de sábado, para celebrar a liberdade de um amigo injustamente condenado e preso, que agora podia de novo estar com a sua família e a nova namorada.

Fui logo dando um abraço no dono do bar, o seu Zé, cearense de boa cepa:

“Não te falei que o Lula iria sair da cadeia? Você duvidou…”

No que eu falei, dois sujeitos mal encarados, que tinham vindo do protesto da avenida Paulista, onde xingaram o STF por libertar Lula, não se conformaram com minha alegria.

Comentaram alguma coisa sobre Lula, que eu não entendi, e foi melhor assim. Eu não queria brigar com ninguém, só encontrar os amigos e o garçom, depois do ano terrível que passamos.

Logo eles foram embora e eu fiquei pensando como é muito louco esse mundo. Ainda bem que eu não estava de camiseta vermelha.

Os alemães orientais arriscaram suas vidas para escapar do comunismo, Andor Stern sobreviveu ao nazismo e, por aqui, aprendizes de bolsonazis chamam de comunistas os que lutam por justiça, democracia e liberdade, três décadas após o fim da Guerra Fria. Dá para entender?

Vai começar o futebol.

Vida que segue.

***

Ricardo Kotscho é jornalista.

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