Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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PAUTAS CONTEMPORâNEAS > Modelo alemão

Não só de bacharéis se faz uma nação próspera e desenvolvida

Por Vanete Santana Dezmann em 05/02/2019 na edição 1023

Imagem: Joachim Müllerchen/Creative Commons

A Alemanha normalmente é lembrada quando se trata de excelência de formação e pesquisa de ponta, sendo destacada como modelo a se seguir. O que se ignora no Brasil, por falta de informação ou premeditação, é que, na Alemanha, a universidade não é para todos. Primeiro, por se reconhecer que nem todos têm vontade de frequentar uma universidade; depois, por se reconhecer que nem todos têm capacidade para acompanhar um curso de nível superior e, finalmente, por se reconhecer que o Governo não tem o direito de usar verba pública (dinheiro de todos) para manter universidades para quem não quer estar lá ou não tem competência para tanto.

Também se ignora no Brasil que a seleção de quem poderá frequentar a universidade na Alemanha é feita quando a pessoa se aproxima dos dez anos de idade e está terminando o quarto ano do Primário. As crianças consideradas aptas a frequentar a universidade podem ser matriculadas no ginásio (Gymnasium). Às consideradas inaptas, restam a Realschule — que lhes franqueará o acesso a cursos técnicos — e a Hauptschule — que lhes possibilitará aprender um ofício em uma escola profissionalizante. Talvez o reconhecimento de que dez anos seja idade tenra demais para se ter o futuro definido tenha norteado a criação relativamente recente da Gesamtschule — uma escola que mantém aberta uma fresta da porta das universidades para os alunos que, ao final deste ciclo — cuja duração varia entre 9 e 10 anos, dependendo do estado — manifestarem real interesse e capacidade, ainda que tardia, para o estudo de nível superior.

O lado positivo desse sistema é o reconhecimento de que não só de bacharéis se faz uma nação, o que permite se respeitar as tendências e aptidões inatas e, ao mesmo tempo, preservar os direitos individuais — se o cidadão não se dispõe a dedicar quatro anos de sua vida ao estudo em tempo integral de uma ciência, ainda assim poderá ter uma profissão e contribuir para a economia de seu país. Além disso, há a garantia de que todos os profissionais são devidamente habilitados — do atendente da farmácia ao professor universitário, todos passaram por cursos de formação.

Conforme a tabela abaixo reproduzida, na Alemanha, do total de 82.9 milhões de habitantes,
30,4% se formaram na Hauptschule (ao final do Ensino Fundamental, só poderiam ter acesso a cursos profissionalizantes);
23,1% se formaram na Realschule (ao final do Ensino Fundamental, só poderiam ter acesso ao curso técnico) e
31,9% se formaram no Ensino Médio (frequentaram, portanto, o Gymnasium e poderiam ter acesso ao Ensino Superior). Dos 31,9% que tiveram acesso ao Ensino Médio, dentre os que prosseguiram os estudos no nível universitário (Ensino Superior),
47,5% frequentou um curso de licenciatura;
2,2% frequentou um curso de bacharelado;
1,4% frequentou um curso de mestrado;
12,9% frequentou um curso com graduação e mestrado conjugado e
1,2% frequentou um curso de doutorado.

Fonte: DESTATIS – Statistisches Bundesamt (dados de 2018).

Nota: o site do Conselho de Cidadãos de Berlim apresenta um resumo claro e em português do sistema educacional alemão.

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Vanete Santana-Dezmann é formada em Letras com mestrado e doutorado em Teorias de Tradução (Universidade Estadual de Campinas) e pós-doutorado em Tradução (Universidade de São Paulo). É professora de Tradução, Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha.

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