Domingo, 18 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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PERSPECTIVAS 2019 > Redes de crítica de mídia

Desafios do jornalismo brasileiro em 2019

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 18/12/2018 na edição 1018

Esta edição do Observatório da Imprensa procura contemplar dois aspectos complementares para melhor nos situarmos diante do desafio da crítica de mídia, considerando não só as especificidades do contexto brasileiro mas também o cenário mundial. O primeiro se refere às perspectivas para o jornalismo brasileiro. O segundo diz respeito à retrospectiva do ano que passou, vista sob o signo da continuidade. Esses dois eixos se encontram, assim, em desafios legados pelo real histórico do ano que termina cujo prosseguimento se dará em 2019.

As contribuições sobre as perspectivas para 2019, aqui reunidas, dizem respeito à aspectos variados. O impacto das novas formas de circulação de conteúdo que trouxe a palavra disrupção para o campo semântico do jornalismo, é um exemplo observado no artigo de Luiz Egypto. “O melhor recurso com que conta a mídia jornalística para arrostar a indústria da mentira que viceja no ambiente da pós-verdade e contamina o debate público é praticar com afinco o que ela sabe fazer de melhor: jornalismo. Em complemento, articular o investimento em qualidade com a aceitação de dois desafios que exigirão doses incomuns de criatividade e de traquejo político. O primeiro, conquistar os jovens para as excelências do bom jornalismo; o segundo, atuar em prol da institucionalização da disciplina de educação para a mídia (media literacy) nos currículos escolares do ensino fundamental.”

O contexto é também de cobrança da sociedade sobre a qualidade do jornalismo, chamado a responder aos desafios que lhe são impostos em tempos de desinformação em rede. O professor da Universidade Federal de Sergipe, Josenildo Guerra, discute o desafio das empresas da grande mídia brasileira em instaurar novas práticas de controle de qualidade editorial, inovação e autocrítica, denominadas por ele metaforicamente como um Comprova Reverso — em referência ao consórcio de veículos para combater a desinformação nas eleições. “O olhar para si mesmas, para seu conteúdo, sua cobertura, e perguntarem-se sobre as limitações, falhas, imprecisões e padrões editoriais existentes que põem em risco a credibilidade tão reivindicada por elas. O Comprova Reverso é uma metáfora para a necessidade de um esforço articulado entre diferentes atores preocupados e empenhados em construir um ambiente jornalístico forte, sustentável e socialmente relevante. Trata-se de um esforço estratégico, de efeito a médio e longo prazo, mas cujo início não pode tardar no Brasil.”

Há um aspecto da ocupação de espaços de trabalho num mercado em transformação também presente em algumas das reflexões desta edição. Bruno Thys e Luiz André Alze pensam em novas possibilidades para o jornalismo numa sociedade com fome de conteúdo. A partir de projetos nascidos no mercado editorial, mas concebidos como expansão transmídia, cresce a demanda pelas histórias que os bons repórteres sabem buscar e contar. “Não é exercício de futurologia, mas uma mensagem que nos é enviada pelo presente: nesses tempos em que a inteligência artificial faz seu debut e se apresenta como a panaceia do mundo, o simples exercício de apurar e contar uma boa história tende a se valorizar cada vez mais.”

O jornalista Sergipano Renato D’Ávila Moura traz uma reflexão sobre um tema que lhe tem sido caro. A dificuldade que os portadores de deficiência têm para encontrar o seu lugar no mercado tradicional e a saída via empreendedorismo digital.“Quase invisíveis diante dos olhos das grandes empresas de comunicação, os jornalistas com deficiência se lançam no mercado de trabalho usando a tecnologia e as redes sociais como ferramentas para conquistar espaços e visibilidade.”

Uma outra pergunta essencial para o ano que começa é sobre o papel do jornalismo no Governo Bolsonaro. O repórter gaúcho Carlos Wagner observa as possibilidades de um cenário aparentemente adverso. Mas elas não virão de mão beijada, adverte: haverá chumbo grosso. “O ano que se inicia não será o da extinção do Jornalismo e das empresas de comunicação. Será o ano em que teremos a chance real de nos superar e garantir a nossa sobrevivência, graças a um cenário inédito na política nacional” – Carlos Wagner.

O professor da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador do ObjETHOSObservatório da Ética Jornalística, Rogério Christofoletti, chama atenção para as bandeiras eleitorais da eleição de Bolsonaro para defender um jornalismo aguerrido desde os primeiros dias de governo. “Jair Bolsonaro se elegeu com promessas messiânicas de moralidade pública e de restauração nacional. Governadores, deputados e senadores também assumiram sedutores compromissos públicos, que não podem ser ignorados agora. É preciso escrutinar seus mandatos, acompanhar de perto seus movimentos, investigar seus passos. Desde o primeiro dia do ano. Se o Brasil tem uma democracia estável e se as instituições estão mesmo funcionando, não há justificativa para esperar um período de lua de mel.”

Diante desses desafios voltamos um pouco nosso olhar ao passado recente com uma breve retrospectiva do ano que passou. Do adeus de Alberto Dines — a quem devemos esse espaço pioneiro de crítica de mídia no Brasil — ao de Otávio Frias, que se distinguiu pela defesa da pluralidade do jornalismo. Trazemos também, entre outros assuntos, dois projetos que se destacaram no ano. O diálogo entre jornalistas na websérie “Cartas na mesa”, parceria com a ESPM e o Atlas da Notícia sobre o tamanho do jornalismo local no Brasil. Na edição de 2018, o projeto somou, aos dados quantitativos, imersões em locais como Mariana-MG e Arapiraca-AL, num exercício de metajornalismo conduzido por Elivira Lobato e Ana Terra Athayde.

O ano de 2018 foi também marcado pela milésima edição do Observatório da Imprensa. Motivados pelo exemplo de Alberto Dines devemos buscar a atualização constante. O mundo contemporâneo demanda a ampliação dos espaços de crítica de mídia e eles só se efetivam com a ideia da ampliação das redes, entre leitores, colaboradores e instituições. A produção de informação, matéria prima do jornalismo, impacta toda a sociedade; por isso o espaço de crítica de mídia só se concretiza se for abrangente e plural. Agradecemos à todos que constituem a rede que justifica este projeto e buscamos avançar no ano que começa, através do conhecimento e reflexão sobre os vários jornalismos que existem e ainda podem ser criados.

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