Sábado, 27 de Maio de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº943

POLíTICA INTERNACIONAL > Trump,Berlusconi,Bolsonaro

A ascensão do populismo conservador

Por Rui Martins em 15/11/2016 na edição 926
Publicado originalmente no site Correio do Brasil, 13/11/2016

O choque causado pela vitória de Trump foi internacional e só agora começamos a nos recuperar. Mas não foi uma vitória inédita de um demagogo sintetizando sexismo, machismo, falcatruas, mentiras e muita cara de pau.

O italiano Silvio Berlusconi era tudo isso e reunia a maioria da população com seu movimento populista Força Itália. Berlusconi era o deboche dos princípios éticos e atraía pobres e classe média apesar de milionário, sonegador e corrupto.

No Brasil, já houve precursores populistas de Trump, criadores e aplicadores do lema “rouba mas faz”, como Adhemar de Barros e Paulo Maluf, capazes de ganhar eleições e existe um candidato a Trump brasileiro, cujas declarações vão bem além das proferidas pelo americano Trump na campanha eleitoral.

Representante da extrema-direita brasileira, Jair Bolsonaro é homofóbico, machista, arruaceiro, antidemocrático, racista, para citar apenas algumas de suas “qualidades” e, mesmo assim ou por isso mesmo, vem sendo considerado um sério candidato à presidência.

Entre nós brasileiros, as revelações do processo Lava Jato criaram a descrença geral nos políticos e nos pretensos líderes da esquerda, abrindo caminho para líderes de linguagem populista nazifascista.

A falta de uma autocrítica do PT, preferindo continuar a utilizar a mentira de uma pretensa inocência diante das acusações de corrupção contra seus líderes, reforça a imagem popular de serem falsos e ladrões todos os políticos, num enorme desserviço à democracia, do qual participam, infelizmente, numeroso ditos “intelectuais”.

A vitória de Trump reforça, na Europa, os movimentos nacionalistas contrários à União Européia, principalmente na França, onde a candidatura da extremista de direita Marine Le Pen, passou a ser considerada como capaz de chegar facilmente ao segundo-turno das eleições presidenciais, dentro de alguns meses, e se aproximar perigosamente de uma vitória.

A título de ilustração do risco e penetração de Jair Bolsonaro junto aos eleitores conservadores e decepcionados, reproduzo uma coletânea de suas frases compiladas pelos estudantes Fernando Paladini e Guilherme Eufrasio, ambos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Essas frases refletem o pensamento escondido de muitos brasileiros, ainda racistas, homofóbicos, sexistas machistas, militaristas e mesmo nazifascistas:

1. “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (Jair Bolsonaro, em discussão com manifestantes)

2. “Pinochet devia ter matado mais gente.” (Bolsonaro sobre a ditadura chilena de Augusto Pinochet. Disponível na revista Veja, edição 1575, de 2 de Dezembro de 1998 – Página 39)

3. “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” (Jair Bolsonaro em entrevista sobre homossexualidade na revista Playboy)

4. “Não te estupro porque você não merece.” (Jair Messias Bolsonaro, para a deputada federal Maria do Rosário)

5. “Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados” (Bolsonaro para Preta Gil, sobre o que faria se seus filhos se relacionassem com uma mulher negra ou com homossexuais)

6. “A PM devia ter matado 1.000 e não 111 presos.” (Bolsonaro, sobre o Massacre do Carandiru)

7. “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” (Afirmação de Jair Bolsonaro após caçoar de FHC sobre este segurar uma bandeira com as cores do arco-íris)

8. “Você é uma idiota. Você é uma analfabeta. Está censurada!”. (Declaração irritada de Jair Bolsonaro ao ser entrevistado pela repórter Manuela Borges, da Rede TV. A jornalista decidiu processar o deputado após os ataques)

9. “Parlamentar não deve andar de ônibus”. (Declaração publicada pelo jornal O Dia em 2013)

0. “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida” (Bolsonaro justificou a frase: “quando ela voltar [da licença-maternidade], vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano”).

***
Rui Martins é jornalista e escritor. Vive na Suiça.

 

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