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Quando a experiência é um ativo altamente valorizado

Por Carlos Castilho em 20/03/2012

Na semana passada, o post  Redações tem a chave do relacionamento com o público  recebeu um único e lacônico comentário: Castilho, não ajuda né!  O texto foi interpretado, talvez por mais de um leitor, como uma dica para as direções de jornais lucrarem com um conhecimentoque estão jogando fora,  por ignorância e despreocupação.

Esta pode ser uma leitura do texto, mas a que me moveu a escrevê-lo é uma outra percepção, baseada em alguns fatos vividos por mim e por outros profissionais do jornalismo. No sábado (17/3), eu dei a segunda das duas aulas sobre "Contexto Jornalístico Atual" num curso de Gestão Editorial oferecido pelo ISCOM e, nela, os 40 alunos narraram a experiência mais impactante de contato com o público (leitores, ouvintes, telespectadores e internautas) .

Poucos dias antes, li o artigo "The Constant Gardner" no qual Sean Roach  fez para a Columbia Journalism Review  um relato detalhado dos seus dois anos como editor responsável por um projeto jornalístico hiperlocal, integrado ao projeto Patch.  Quase ao mesmo tempo, descobri a experiência do antropólogo e jornalista holandês Joris Luyendijk, autor de um blog que observa o sistema financeiro inglês.

Tanto o depoimento dos alunos como o texto de Sean Roach e a vivência de Joris Luyendijk têm em comum o fato de serem relatos sobre experiências sem a preocupação de criar teorias ou defender teses. São depoimentos diretos que nos permitem entrar em contato com realidades que ignoramos e que nos oferecem a chance de refletir sobre a nossa própria experiência.

No caso dos  alunos, foi possível abrir um debate sobre por que os jornalistas conseguem uma interação profunda com as pessoas afetadas por grandes tragédias — como é o caso das crônicas enchentes nas cidades localizadas no vale do rio Itajaí, região de Blumenau, em Santa Catarina —, mas perdem esse contato em tempos menos traumáticos. 

Também foi possível identificar como os profissionais são pressionados pelo público para que a imprensa resolva problemas que, na verdade, são de responsabilidade das prefeituras, governos estaduais e federal.  Sem contato com as autoridades, as pessoas pedem a jornais, rádios, TVs e sites para que procurem os responsáveis e cobrem soluções. Isso coloca nas mãos de repórteres e editores um problema que para as empresas é uma mera questão de marketing quando na verdade é muito mais complexa.

A relação com a comunidade é o tema da experiência de Roach num relato cheio de perplexidades, frustrações e algumas esperanças.  Ao longo de dois anos ele foi editor do único jornal online das minúsculas cidades de Tarrytown e Sleepy Hollow (população somada de 21 mil pessoas), ao norte de Nova York. Viveu a experiência de jornalismo de imersão numa comunidade social e seu depoimento mostra as agruras de um tipo de jornalismo que começa a ganhar espaço. Roach trabalhava sete dias da semana, fazia de tudo na redação, desde sair à rua até participar de assembleias comunitárias, gastava em média 60 horas semanais de sola de sapato nas ruas.  

Assumiu o cargo com a responsabilidade de buscar em cinco anos o retorno do investimento de 50 mil dólares, mas o site nunca conseguiu ter mais de três banners pagos, o que mal chegava aos 5 mil dólares, insuficiente para pagar a folha salarial. Mas, se por um lado, o projeto foi um fracasso financeiro, por outro, ele despertou a comunidade para a participação na produção e no consumo de informações, o que provocou uma demanda extra sobre os jornalistas. Também aqui, o relacionamento com a comunidade gerou uma experiência inédita entre os profissionais, obrigando-os a repensar sua atividade.

A historia de Roach mostra que o jornalismo comunitário é viável, mas está longe de ser uma iniciativa sem riscos e sem sacrifícios.

Já o holandês Joris Luyendijk decidiu usar sua expertise antropológica e jornalística para investigar como é a comunidade financeira por dentro. Em vez de fazer um trabalho acadêmico, ele enveredou para  o lado jornalístico criando um blog por meio do qual passou a se relacionar com suas fontes e com o público voyeur interessado em saber como o seu dinheiro é administrado. Joris pede aos operadores de mesas de câmbio e agentes da bolsa de valores que contem suas histórias. Ele os provoca com uma pergunta direta: “Todo mundo odeia vocês. Vocês não se odeiam, não é? Então, por que não me contam suas vidas?”

As histórias recolhidas estão sendo publicadas no blog do projeto, que é patrocinado pelo jornal inglês The Guardian e serão posteriormente transformadas em livro, aí sim mais analítico. A principal filosofia do trabalho é a de que o mercado financeiro se tornou importante demais para ser deixado apenas para os agentes financeiros.

Estes três casos mostram como a experiência direta está servindo como motor principal de reflexões e projetos jornalísticos que podem alterar o padrão tradicional da atividade jornalística.  A preocupação em registrar experiências, que sempre foi um dos apanágios da profissão, tende agora a ganhar uma nova relevância na medida em que ela não está apenas voltada para o ineditismo e para o furo de reportagem, mas passa a ser orientada para a conversão de conhecimento bruto em conhecimento transmissível (publicado).  Este pode ser um dos nichos do jornalismo que está surgindo da crise do modelo atual.

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Carlos Castilho

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