Código Aberto

O filme sobre Maomé e a sociedade digital em xeque

Por Carlos Castilho em 17/09/2012

O episódio do filme sobre o profeta Maomé que desatou uma onda de protestos no mundo árabe mostrou a intensidade latente de ressentimentos culturais, mas também a gravidade de uma questão tecnológica que pode afetar o planeta inteiro.

A empresa Google, controladora do site YouTube onde foi postado um trailer do polêmico filme,  decidiu banir a sua exibição em vários países árabes para evitar o agravamento dos protestos. 

A preocupação com a violência é mais do que justificável e compreensível, mas o fato de uma empresa com sede nos Estados Unidos ter o poder de decidir o que outros países podem ou não ter acesso é da maior relevância para todos nós.

A tão decantada autonomia e independência da internet ficou seriamente abalada, e num momento em que a rede mundial de computadores passa a influenciar a vida de cada vez mais pessoas, empresas e governos. Todo o arcabouço da nova sociedade digital foi colocado em questão.

Isto nos preocupa — e muito — porque ficou claro o poder de uma empresa em influenciar eventos noutros países. A autodeterminação nacional, uma das bases da existência das Nações Unidas, pode estar ameaçada na medida em que nosso futuro não está mais dependente de fronteiras,  mas do fluxo transnacional de informações.

O jornal norte-americano The Washington Post, num artigo publicado na sexta-feira (14/9), afirmou que o episódio mostra como algumas empresas norte-americanas podem se transformar em “árbitros da liberdade de expressão no resto do mundo” , ao substituir tribunais e foros internacionais.

A Google e outras empresas com grande poder na internet têm feito uso intensivo da retórica da liberdade de expressão na rede mundial de computadores, mas o episódio do malfadado filme sobre o profeta Maomé mostrou a complexidade da questão do livre fluxo de informações no mundo digital.

O filme foi um caso grosseiro, e ainda não plenamente esclarecido,  de manipulação intencional de preconceitos culturais e religiosos.  Por isso, a suspensão de sua exibição não provocou protestos imediatos dos defensores da liberdade de expressão na Web, como é o caso de organizações como a Electronic Frontier Foundation, dos Estados Unidos.

Mas a brecha foi aberta e mostrou uma fissura na arquitetura jurídica do mundo  digital, capaz de gerar gravíssimos problemas políticos no futuro. A questão é complexa e a discussão não será fácil, mas é inevitável, porque nossas vidas estão cada vez mais condicionadas pela internet.

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 Ibsen Marques
 Enviado em: 17/09/2012 13:54:41
Eu diria que quando a coisa esbarra no direito a vida, a liberdade de expressão pode ser dirigida a um segundo plano, quer dizer, o vídeo foi postado e mortes aconteceram por conta de sua exibição. O que é primordial na composição de um Estado não é a liberdade de expressão, mas a garantia da vida de seus súditos ou cidadãos. O problema aqui é que essa decisão coube a uma empresa Multinacional, mas convenhamos, nós já sabemos de há muito que são as grandes corporações quem ditam as regras. Também precisamos convir que quando se tem esse poder e a empresa é tomada de assalto pelos acontecimentos - mortes e invasões e depredações em embaixadas nesse caso - uma ação imediata precisa ser tomada. Essa decisão deve, posteriormente, ser confirmada ou negada pelas instituições que compõem o Estado de Direito, se é que Ele realmente existe. A situação é complexa, pois se a Google não tomasse nenhuma ação, poderia ser acusada de omissão diante de um problema que envolvia a vida de centenas de pessoas.
 Paulo Sérgio Pires
 Enviado em: 17/09/2012 15:09:52
A liberdade de expressão deve levar em consideração bastante as questões ligadas à blasfêmias, heresias, sacrilégios e profanações. Por causa disso, já houve guerras e muitas mortes. É preciso repensar os limites da expressão do pensamento, mesmo que às vezes eles possam parecer precisos, corretos e íntegros.
 Jose de Almeida Bispo
 Enviado em: 17/09/2012 20:48:49
"(...) mas o fato de uma empresa com sede nos Estados Unidos ter o poder de decidir o que outros países podem ou não ter acesso é da maior relevância para todos nós." B em como o fato desta mesma empresa "candidamente" fotografar o mundo todo(Google view) e mostrar a casa de todo o mundo, a rua, o acesso... tudo sobre o sujeito, sem que o mesmo tenha direito a dizer "não quero".
 Augusto Cézar Contreiras de Almeida
 Enviado em: 17/09/2012 22:03:05
OK, querer controlar o conteúdo da internet é impossível. Mas fica a dúvida: o postador deste vídeo não sabia das possíveis consequências? O mundo ocidental (entenda-se EUA)está pagando por um erro de um "irresponsável". O debate está aberto.
 Uilson Noel
 Enviado em: 18/09/2012 18:16:35
Para mim isso não é novidade. Tente inserir nos comentários a notícias veiculadas em famoso portal de internet aqui no Brasil, mas de empresa norteamericana, algo que fuja da linha de pensamento DELES. Seu comentário com certeza não será publicado. Vi isso ano passado ao ler comentários sobre uma notícia, com gente "esperneando" pelo fato do seu não aparecer, então fiz de propósito comentário indo contra o que a notícia abordava, que não foi publicado e, só para implicar, fiz outro comentário reclamando da não inclusão do meu e do desrespeito à nossa Constituição, e eles, sei lá por qual motivo, publicaram esse último comentário!Enfim, isso não é de hoje...
 Antonio dos Santos
 Enviado em: 18/09/2012 22:05:38
Os muçulmanos nunca vão entender o que é liberdade de pensamento, por isso mesmo são escravos do governos e das empresas. A reação violenta só prova que eles são violentos, hipócritas, falsos e imbecis.
 Filipe Faleiro
 Enviado em: 20/09/2012 00:23:36
Interessante observação em um assunto que diversos ângulos podem ser tema de análise. A segurança pública, por exemplo, como em países como a França, que tem a maior comunidade islâmica da Europa, faz o governo repensar a liberdade de expressão. Mas a censura da própria empresa, a escolha do público... isso soa, no mínimo, esquisito
 Felipe Antunes
 Enviado em: 25/09/2012 21:16:49
Se fala de censura,mas alguém ja analisou que o YouTube é uma empresa privada e não um orgão publico ou um recurso natural? Acho que existe uma confusão entre um serviço gratuito com um serviço publico. O Youtube não é de todos nós, é uma empresa e ponto, e diferente de um jornal ou revista não tem como principio a divulgação de informação,liberdade ou isenção (grandes mentirinhas, mas vá lá)

Carlos Castilho

cacastilho@brturbo.com.br

CASTILHO