Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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85 anos de crítica da mídia

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

17 DE NOVEMBRO, 1917


Alberto Dines

Estranhará o leitor atento à história política. Sabe que a data é o aniversário da derrubada do czar Nicolau II por um conjunto de forças políticas russas (e, dois anos depois, resultou na tomada do poder pelos comunistas ? a mudança política mais importante dos últimos dois séculos).

Perguntará, então ? onde e como entra nesta história a crítica da mídia? Qual a relação entre o fim da autocracia, a tomada do poder pelos revolucionários e o mais importante avanço na democracia da informação desde a Primeira Emenda da Constituição dos EUA?

Nenhuma relação causal e direta. A prisão do czar e de sua família, bem como a subida ao poder do social-democrata Kerensky, deram-se no âmbito da Rússia (embora com drásticas implicações no cenário político internacional). A crítica da mídia é subproduto daquela situação e ocorreu nos antípodas ? os Estados Unidos.

Como manifestação cultural, o media criticism começou no fim do século 19 na Áustria, pela mão de um satirista, debochado e iconoclasta chamado Karl Kraus [veja remissão abaixo].

Como disciplina sistemática, objetiva, técnica e não menos severa, iniciou-se nos EUA a partir da análise da cobertura da Revolução Russa pelo mais importante jornal americano, o New York Times. O media criticism ganhou status, deixou de ser idiossincrático, espasmódico e inflamado graças ao trabalho verdadeiramente científico desenvolvido por dois jornalistas americanos, um deles destinado a tornar-se um dos mais importantes do país: Walter Lippmann, então com 30 anos mas já sazonado politicamente graças ao trabalho que desenvolveu na equipe do presidente Woodrow Wilson. O outro, Charles Mertz, 29 anos, posteriormente também ocupou altas funções. Não foram "queimados", não foram banidos nem embargados em listas negras. Charles Merz chegou a exercer o cargo de editor de Opinião do jornal que criticou. Walter Lippmann (1899-1974) publicou no ano seguinte o seu clássico Public Opinion e foi o principal colunista dos jornais World, Herald Tribune e The Washington Post.

Colaboradores do New Republic, prestigioso semanário político, os dois perceberam a importância dos acontecimentos na Rússia e os sucessivos descuidos da imprensa em cobri-lo ? The New York Times à frente.

Puseram-se a colecionar tudo o que o jornal publicou a respeito da rebelião contra o governo imperial, a partir de março de 1917 até março de 1920, quando o regime soviético foi definitivamente implantado. Recortaram e contaram, examinaram teores e fizeram estatísticas, compararam ? do sentido das manchetes à maneira como "fontes" tornaram-se relevantes, da formulação das legendas das fotos ao destaque das matérias.

Mais importante: Lippmann e Mertz não foram movidos por ideologia ? por isso, puderam constatar que a ideologia não foi o fator que levou o New York Times à desastrosa cobertura. Não escreveram um panfleto indignado, mas um longo ensaio com dimensões e estatura de um livro. Preocupavam-se com a missão da imprensa na sociedade aberta e livre; achavam que, assim como a imprensa investiga as notícias que veicula, também a contestação deveria ser rigorosamente investigada. De olho nos pósteros souberam contextualizar a crítica ao lado dos fatos históricos.

Não se sabe se desejavam criar uma nova disciplina sociológica, uma nova deontologia ou deslanchar o contrapoder ao Quarto Poder. Sabe-se, sim, que estabeleceram paradigmas definitivos e universais para obrigar a imprensa e seus profissionais a admitir a crítica tal como acontece com os demais poderes.

Discussão central

A manipulação do noticiário sobre a Rússia começou porque os EUA finalmente decidiram juntar-se aos aliados (França, Inglaterra e Rússia) na guerra contra os três impérios (alemão, austro-húngaro e otomano). Empenhados em ganhar uma guerra que se desenvolvia em duas frentes, os EUA ? inclusive seus setores mais liberais ? necessitavam manter a pressão na frente oriental onde a Rússia mostrava-se incompetente.

Os americanos queriam entrar na guerra para ganhar, por isso demoraram a decidir-se. Qualquer fissura na frente russa desanimaria a opinião pública americana e daria novo ímpeto à coligação germânica. Este o vetor que levou o grande jornal a aceitar como verdadeiros os comunicados do comando russo dando conta do fim dos motins dos seus soldados e outras inverdades.

Lippmann e Merz indicam que não houve uma conspiração deliberada para distorcer e mentir a respeito dos acontecimentos na Rússia. Houve, sim, um "esforço de guerra" mascarando o que de fato lá acontecia. As elites americanas acreditavam que a "causa justa" era derrotar os autoritários impérios germânicos. Para isso, precisavam da Rússia na outra ponta da Europa.

Importante observar que a causa pacifista ? expressão consagrada naquele conflito ? foi abraçada por uma minoria de intelectuais reunidos principalmente na Suíça. Mesmo os movimentos operários ? depois do assassinato de Jean Jaurés em 1914 e esquecida sua pregação humanitária ? não conseguiram sobrepor-se aos patriotismos locais.

Apenas o grupo de revolucionários russos no exílio, chefiados por Lenin e Trotsky, procuravam uma paz em separado com os alemães (afinal convertida em realidade graças à desastrosa condução da guerra).

A discussão central do trabalho de Lippmann e Merz nada teve a ver com a questão ideológica tal como a conhecemos hoje: esquerda vs. direita. Buscavam a antinomia otimismo vs. pessimismo. A crença ou descrença a respeito do ânimo dos russos em continuar a guerra seria vital para definir o ânimo ou desânimo daqueles que recém-entravam no conflito.

Supervisão dos leitores

Os três blocos revolucionários russos que começaram a disputar o poder não foram avaliados pelo New York Times pelo que representavam no espectro ideológico ou social, mas pela atitude que tomariam no tocante à guerra. Prova disso é a manchete de 6 de novembro de 1918: "Perigo bolchevique; radicais pacifistas devem tomar o poder".

Importante consignar que, apesar das críticas a uma cobertura geralmente enganosa, os autores também registraram a qualidade do trabalho de alguns repórteres.

As deduções dos jornalistas Lippmann e Mertz são atualíssimas. Senão, vejamos:

** "Acreditamos que os padrões profissionais do jornalismo não são suficientemente altos e a disciplina para mantê-los não é suficientemente forte num teste tão importante para a imprensa como a Revolução Russa."

** "A análise mostra como o NYTimes foi enganado por fontes ditas oficiais. Isto indica que declarações emananda de governos, dos círculos próximos aos governos ou de líderes de movimentos políticos não podem ser tomadas por uma imprensa independente como juízos sobre fatos."

** "Por trás de certas afirmações [de caráter semi-oficial] pode estar um pequeno burocrata, uma conversa de jantar, fofoca de lobby de hotel ou um agente pago."

** "A análise também indica que um jornal tão rico e influente não leva muito a sério o equipamento [no sentido de qualidade] dos correspondentes. Para um posto tão difícil em tempos tão extraordinários requer-se algo mais do que correspondentes acostumados com a rotina."

** "A reportagem é uma das profissões mais difíceis porque requer conhecimento e formação. O velho conceito de que profissionais formados de maneira apropriada não têm o ?sentido da notícia? não conseguirá manter-se ante o fato de que jornalistas impropriamente formados enganaram uma nação inteira."

** O trabalho de elaboração das notícias na redação, tanto na questão do destaque como na questão das legendas, foi inspirado por critérios não-profissionais."

** "Onde achar a definição dos padrões jornalísticos e como implementá-los? Primeiramente dentro da própria profissão."

** "Jornais precisam estar preparados para enfrentar a crescente supervisão dos seus leitores. Estes leitores não se contentarão com a publicação das ?cartas à redação? por mais que algumas sejam eficazes. [Os leitores] falarão através de organizações que devem tornar-se o centro da resistência."

** "Uma poderosa máquina crítica está aparecendo na comunidade recusando-se a aceitar candidamente as posições correntes sobre determinados contenciosos. O exercício do jornalismo terá que admitir este fato."

[Publicado na íntegra na edição de 4 de Agosto de 1920 do New Republic com o título "A taste of news" (O sabor das notícias). As deduções foram resumidas de Killing The Messenger, 100 Years of Media Criticism, de Tom Goldstein (org.), Universidade de Columbia, Nova York, 1989]

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