Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > A GUERRA SANTA NA MÍDIA

Como a Concorrência na TV trouxe a questão da liberdade religiosa

Por Alberto Dines em 01/04/1996 na edição 1

OS FATOS:

·         A agudização da crise começou quando foi anunciado o novo seriado de Dias Gomes, Decadência, na TV Globo, em que um dos personagens menos simpáticos é um pastor sem escrúpulos (fim de Agosto de 9 5).

·         Seguiram-se as retaliações da TV Record, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, no programa 25ª Hora, à TV Globo e seu fundador.

·         A primeira menção à Guerra Santa aparece num anúncio da revista Isto É com evidentes intuitos de "aquecer" um assunto ainda insuficientemente forte.

·         Como sempre acontece, a imprensa instintivamente procura dar cobertura ao grupo evangélico dentro do princípio Se é contra a TV Globo é bom(síndrome simplista que já levou a mídia brasileira a c ometer vários erros graves de avaliação).

·         Ocorre então o incidente na véspera do dia 12 de Outubro de 95, feriado nacional consagrado à N.S. de Aparecida, quando o bispo Von Helde, da Igreja Universal do Rio de Deus, diante das câmaras de TV, ofende grosseiramente a imagem da santa.

COMENTÁRIOS:

·         É obvio que a agressão praticada pelo bispo Von Helde é uma transgressão aos princípios mais elementares de respeito ao próximo. Mas o seu gesto rapidamente deixou de ser considerado como manifestaç&ati lde;o individual, passando a representar a opinião de todo os seus correligionários ( incluindo-se protestantes de outros matizes ( criando-se um clima de ressentimento intolerável numa sociedade democrática.

·         Sabemos que os doutrinadores ligados ao bispo Edir Macedo adotam um flagrante discurso fascista ( como acontece com inúmeras seitas americanas ou coreanas (, mas sabemos também que não podem ser neutralizados com o mesmo fanatismo totalitário, sob pena de estarmos reforçando, ao invés de debelar, a intolerância e a exclusão.

·         É preciso não esquecer que o primeiro caso de agressão à imagem de N.S. de Aparecida ocorreu em 1992, quando um outro pastor protestava contra o decreto oriundo do regime militar convertendo uma data religiosa católi ca, o 12 de outubro, em feriado nacional, e com isso violando o princípio da igualdade de credos. Este pastor encontrava-se preso em outubro de 95 numa cela especial para evitar o linchamento por parte dos demais presidiários. O caso passou despercebido pela mídia.

ANTECEDENTES

·         Aqui somos obrigados a retroceder à ultima temporada constituinte, da qual resultou a Carta de 1988. Aquela que deveria ser a mais liberal das nossas Constituições, porque sucedeu a um negro período de repressão pol& iacute;tica, acabou sendo uma colcha de retalhos de grupos de interesses e corporações.

·         Em matéria de liberdade religiosa representou um grande retrocesso se comparada com a Carta de 1946, no caso, modelar. Os constituintes de 88 cometeram vários pecados contra a liberdade individual em matéria de crença:

1.      No preâmbulo solene menciona-se "a proteção de Deus" que não existe na de 46, desconsiderando-se as convicções dos cidadãos ateus ou seculares que não pertencem a alguma confissão religiosa e recusam-se a misturar religião com Estado. Feriram-se os mais comezinhos princípios de liberdade espiritual.

2.      No artigo 210, parágrafo primeiro, é estipulado que o ensino religioso, embora facultativo, será considerado como disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. É um retorno disfa rçado ao esquema vigente na Europa antes da Revolução Francesa.

3.      Além destas violações à liberdade de crer e não crer voltou-se a considerar como feriado nacional pelo menos duas datas do calendário católico (Corpus Christi e N.S. Aparecida).

4.      A preferência pelo domingo como dia de descanço semanal (expressa na Constituição, artigo 7º, inciso 15) é uma forma velada de consagrar os costumes e ritos das religiões cristãs.

·         Voltando ao caso da Igreja Universal do Reino de Deus: chama a atenção de qualquer observador mais atento o fato de que as autoridades federais ou estaduais, ao se manifestarem sobre as denúncias e escândalos ou quando se em penharam nas investigações que envolveram a alta direção da seita, jamais tiveram o cuidado de ressalvar a imperiosa equidistância religiosa do Estado brasileiro.

·         Honrosa exceção foi a interferência direta e discreta do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que convocou representantes das duas redes conflitantes recomendando-lhes encerrar as retaliações. O episódio foi r elatado pelo pastor Nilson Fanini, Presidente da Aliança Batista Mundial, e publicado às escondidas num único jornal de S. Paulo. A pacificação secreta ressalta o receio de ferir a hegermonia católica.

·         O contrário ocorreu em Portugal, onde a Igreja Universal do Reino de Deus tem grande penetração. Na sua última mensagem de fim de ano como chefe da Nação, o presidente Mário Soares incluiu entre as suas reflexões a proliferação de seitas religosas, mas advertiu para os perigos que ações descabidas poderiam provocar no clima de liberdade religiosa vigente na jovem democracia portuguesa. Ressalte-se que a hegemonia da Ig reja Católica Romana naquele país é ainda maior do que no Brasil.

·         O comportamento da imprensa no caso da Igreja Universal seguiu basicamente os cânones e ritos do novo jornalismo brasileiro:

1.      Dramatização a qualquer preço (veja-se o caso da expressão Guerra Santa quando, na realidade, se tratava de uma Guerra de Audiências).

2.      Desatenção para com as implicações do confronto religioso numa sociedade pretensamente cordial mas profundamente ressentida, insuficientemente aclimatada no regime democrático. Ao que consta, nenhum editorial foi esc rito sobre esta matéria apesar das óbvias semelhanças com outras intolerâncias, passadas ou presentes.

·         Não poderia ser diferente porque a nossa Grande Imprensa, assim como os governantes, a classe política e os magistrados há muito capitularam ao conceito da "religião majoritária", admitindo como fato consum ado a camuflada a fusão Igreja-Estado.

·         Apenas como curiosidade, repare-se no simplismo com que a imprensa conceitua a sociedade civil: uma reunião de siglas (ao meu ver hoje meramente corporativas), e entre as quais figura a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e n unca as entidades religiosas não-católicas. Não ignoramos tratar-se de uma tradição oriunda dos tempos da resistência ao regime militar e da defesa dos direitos humanos e uma homenagem ao papel então assumid o por alguns corajosos prelados.

·         Tradição e homenagem à parte, esta conceituação de sociedade civil deveria ser rexaminada à luz do que hoje se entende como espaço social, participação, comunidade e cidadania.

·         Ainda no campo da curiosidade, não deixa de ser significativa a forma nada sutil com que os quatro grandes jornais nacionais relacionam-se com o alto clero católico. Todos, sem exceção, oferecem um espaço cativo a al gum ilustre membro do colégio episcopal, sendo que no caso do Rio, apesar da acirrada concorrência, o Globo e o JB publicam o mesmo artigo, no mesmo dia, do mesmo autor, no caso o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eug&ec irc;nio Salles.

·         Em São Paulo, a Folha fica com D. Luciano Mendes de Almeida, ex-presidente da CNBB, arcebispo de Mariana, e o Estado de S. Paulo opta pelo cardeal-primaz, D. Lucas Moreira das Neves.

·         Ressalte-se que as três ilustres figuras já passaram pela área da comunicação social nas respectivas carreiras eclesiásticas, o que confere aos seus escritos um caráter claramente proselitista, em detrim ento dos demais cultos e crenças professadas pelo povo brasileiro.

·         O quadro hoje apenas reproduz em grande escala o que se passou em 1985 (no momento em que se iniciava a reconstrução democrática), por ocasião do debate entre os candidatos a prefeito de S.Paulo: o jornalista Boris Casoy di sparou contra Fernando Henrique Cardoso a inquirição inquisitorial ( Você acredita em Deus? O titubeio do candidato, evidentemente despreparado para uma pergunta tão discriminatória, contribuiu decisivamente para a sua de rrota.

·         No momento em que se intensifica em todos os quadrantes o fundamentalismo religioso e este associa-se (como no passado) às opções políticas de extrema direita, no momento em que o milenarismo dos fins-de-século e dos fins de milênio assume um caráter carismático, fanático e ensandecido, seria extremamente útil que a nossa imprensa deixasse de lado, por alguns momentos, o seu culto ao marketing e a sua obsessiva devoção pelo estrepitoso e estridente para preocupar-se um pouco mais com a substância e valores de uma instituição cuja decadência põe em risco a própria democracia.


– (Manifestação que antecedeu as participações de Elias Boaventura, evangélico, e Roberto Romano, católico, no debate A Guerra Santa na Mídia, realizado na Unicamp em 14 de março de 1996)

Nestas últimas duas semanas foi batido o recorde de matérias ou emissões sobre o desempenho da mídia:

·         O Roda Viva da TV Cultura, de São Paulo, em 26 de Fevereiro, quando foi entrevistado o diretor de Redação da Folha de S. Paulo, de São Paulo.

·         O grande artigo do prof. José Arthur Gianotti, da Universidade de São Paulo, ocupando a página 3 da mesma Folha(5/3).

·         A resposta do diretor de Redação da Folha no dia 7/3.

·         A crítica do presidente Fernando Henrique Cardoso à imprensa em sua conferência em Stanford (publicada em todos os jornais do dia 11/3).

·         Artigo de Fritz Utzeri em O Globo, do Rio de Janeiro, sobre o comportamento da mídia na cobertura da tragédia que envolveu a morte dos Mamonas Assassinas(11/3).

·         A crítica do Cardeal-Arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, à matéria da Folha sobre as terras da Igreja (dia 12/3).

·         Série de três documentários na TV Cultura, de São Paulo, com as críticas de Noam Chomsky sobre a manipulação mídia em geral (início em 12/3).

·         Crítica e ironias do ministro brasileiro das Comunicacões, Sérgio Motta, à aliança estratégica da Folha de S. Paulo com os grupos empresariais Odebrecht-Unibanco-Air-Touch para explorar a telefonia cel ular (13/3).

·         Crítica destemperada e grosseira do Senador José Sarney, ex-jornalista, à pessoa do Presidente da Editora Abril, Roberto Civita, relacionada com uma das matérias de capa da edição da revista Veja de 13 /3.

·         Artigo de Gilberto Dimenstein na Folha de S. Paulo comentando as observações de Fernando Henrique Cardoso sobre a imprensa (13/3).

Não se incluem nesta relação os articulistas que se ocupam regularmente da mídia, formal ou informalmente.

Convém acrescentar que, embora grande parte destas matérias sejam motivadas por desempenhos específicos da Folha de S. Paulo, elas têm embutidas uma queixa generalizada da atuação da imprensa. Seja porqu e coube a este jornal a primazia de inaugurar e difundir um estilo jornalístico diferente daquele que se praticava no país antes, durante e imediatamente depois do regime militar, seja porque é o diário de maior circulaç ão no país.

O longo verão brasileiro produz, em geral, uma epidemia de de frivolidades (exemplificado pela temporada carioca de Michael Jackson para filmar um videoclipe numa favela), mas o recente surto não se enquadra na temática estival.

A ênfase, duração e qualidade dos intervenientes estas manifestações refletem claramente uma situação sistêmica. Razão extra a justificar o lançamento deste OBSERVATÓRIO.

 

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