Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > DIA DA IMPRENSA

A mídia assume a sua função e enquadra a baixaria da TV

Por Alberto Dines em 20/09/1996 na edição 6

Um domingo para não esquecer: 8 de setembro, logo depois do Dia da Pátria, a TV Globo coloca no ar a mais completa coleção de baixarias televisivas dos últimos tempos. Começa às 15h30 no Domingão do Faustão e estende-se até as 23h com o Sai de Baixo.

Segunda-feira pela manhã, reunião de pauta do Caderno B do Jornal do Brasil, jornalistas indignados. O resultado: veemente matéria (com chamada forte na 1ª página) condenando a programação de sarjeta.

Melhor maneira não podia haver para se comemorar o Dia da Imprensa (188º aniversário de fundação da Gazeta do Rio de Janeiro, nosso primeiro diário oficial), deixando de lado a vergonhosa submissão da mídia impressa ao circo televisivo. Pela primeira vez em muitos anos um veículo assume a defesa da sociedade contra os abusos praticados por outro meio de comunicação.

Na edição de quarta-feira, o mesmo JB publica com igual destaque a repercussão do episódio dentro da TV Globo com os memoranda internos da alta direção aos produtores dos dois programas.

O tradicional jornalão carioca demarca-se assim de uma fase em que, por desespero (com alguma dose da indefectível vocação carioca para o populismo), tentava concorrer na mesma faixa de O Dia, espécie de símbolo do jornalismo sensacionalista.

O caso poderia ter se encerrado naquele momento não fosse a capa de Veja (edição 1462) sobre o mundo cão da TV publicada no domingo seguinte. Este segundo libelo, de âmbito nacional, cuidadosamente investigado e escrito, respaldado no milhão de exemplares do semanário, é também revelador de alguns vícios tradicionais do jornalismo brasileiro – a volumosa matéria de capa ignora totalmente o trabalho precursor do JB. Não se trata de exigência protocolar e mundana, mas de atender às normas mínimas de rigor jornalístico que incluem a nomeação de precedências e a identificação das primazias.

Outro escorregão: escolhido para opinar como autoridade, um professor de ética sem cátedra, representante no Brasil da Universidade de Navarra, que, como se sabe, tem sido o principal baluarte da fase tecnocrática do jornalismo brasileiro da qual resultou justamente este gigantesco desvio da nossa imprensa em relação a suas finalidades sócio-políticas.

Logo na edição em que estreava o novo media-critic da revista, que, assim, foi privado de um substancioso prato e obrigou-se a repisar o mesmo assunto da matéria política (marketing eleitoral).

Da baixaria televisiva, e das duas vigorosas denúncias para corrigi-la, podem ser extraídas algumas lições:

# Graças à omissão da imprensa (e à ausência de outras instituições para contrabalançá-la), a televisão brasileira consagrou padrões e paradigmas que em muito contribuíram para o estado moral da nação.

# Ao secundarizar-se diante da TV (aberta ou dirigida), a imprensa reforça as deficiências e precariedades da mídia eletrônica ao invés de corrigi-las.

# Quando se trata de atalhar abusos e infrações, a imprensa não deve confundir entretenimento e informação, sob pena de comprometer a legitimidade da sua pregação pela liberdade de expressão. Informação é serviço público que não pode estar sujeito a constrangimento algum. Entretenimento deve ser enquadrado dentro das normas que regem todos os espetáculos.

# Na medida em que a imprensa absorve, assume e mimetiza a confusão entre entretenimento e informação, perde sua capacidade de julgar e prevenir as infrações. Quando despertar, pode ser tarde.

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