Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > BOXE

Bandidos, guerreiros, primitivismo

Por Mauro Malin em 20/09/1996 na edição 6

Material para refletir, em adendo ao que escreveu Juca Kfouri: no precioso O Tesouro da Enciclopédia Britânica (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994, págs. 323/6), encontra-se o verbete "Boxe", escrito por Gene Tunney para a 14ª edição da Britânica, a de 1929. Circunstância singularíssima: Gene Tunney foi campeão mundial dos pesos pesados de 1926 a 1928, após ter derrotado o mitológico Jack Dempsey.

Em estilo brilhante, Tunney explica que o boxe nos Estados Unidos era assunto de bandidos até que as autoridades militares americanas viram nele um meio de preparação de recrutas para lutar na Primeira Guerra Mundial.

"Em geral [antes de 1917], tanto lutadores como associados eram pessoas sinistras, de poucos escrúpulos, acentuadamente vulgares e brutais. O populacho percebia isso e estigmatizava como marginais todos os que estavam ligados de algum modo a esse 'esporte'."

A guerra, evidentemente, não baniu do boxe as "pessoas sinistras".

Tunney usa sempre entre aspas a palavra "esporte". Ainda quando o defenda, esse praticante apaixonado cujos neurônios sobreviventes continuaram funcionando muito bem não deixa de dar razão aos que pensam como Juca Kfouri: "Que a luta exerce um apelo sobre o que há de mais natural e primitivo no homem, nem os mais implacáveis inimigos do boxe podem negar".

Sem dúvida. E o fato de ter sido considerado socialmente útil como preparação para a guerra não melhora as coisas. Guerra é barbárie institucionalizada, ou, como escreveu o padre Vieira (citado por Paulo Rónai), "aquela calamidade composta de todas as calamidades".

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