Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES

Pesquisas, prévias e a esparrela dos percentuais

Por Alberto Dines em 05/10/1996 na edição 7

O brasileiro gosta de votar. A imprensa gosta de eleições e precisa dessa disputa prolongada que rende circulação e poder. O que distancia este casamento da verdadeira democracia são as pesquisas de opinião, convertidas pela mídia em substituto do debate político.

As sondagens de intenção de voto – esse é o nome técnico – foram convertidas em prévias eleitorais e, por mais que os donos das empresas especializadas tentem mostrar alterações na evolução do quadro ao longo da campanha, a verdade é que quatro semanas antes de abertas as urnas (quando o interesse está plenamente despertado), o pleito já está praticamente decidido.

Este sistema de eleição instantânea, tipo nescafé, é uma tenaz perversa que reduz e elimina o debate de idéias e o confronto de propostas enquanto magnifica a prestidigitação marqueteira e publicitária no horário eleitoral gratuito.

Ilusão da infalibilidade numerológica, entronização mítica do placar esportivo, vocação para o lúdico – esta singular combinação lotérica faz do ibope um substantivo comum que entrou na língua falada e dicionarizada significando aceitação e sucesso.

A imprensa brasileira não inventou a pesquisa mas a imprensa brasileira idolatra a pesquisa. Substituiu-se à reportagem, é o prato forte das frias edições dominicais, secundarizou o debate de idéias porque dramatiza e simplifica qualquer questão com o "cala a boca" dos algarismos.

Foram as pesquisas quantitativas, com perguntas fechadas (necessariamente redutoras), que levaram nossos grandes e médios jornais a um estado de pauperismo que já dura uma década e pode ter reflexos perigosíssimos na formação das futuras gerações. Além de entortar perigosamente os próprios méritos do sistema democrático.

(Para uma avaliação conceitual da perigosa hegemonia das pesquisas veja o artigo do jornalista Luiz Weiss reproduzido na edição do OBSERVATÓRIO de 20 de agosto de 1996.)

Algumas evidências mais recentes:

# A cidade de São Paulo ficou submersa pela inundação causada pelas chuvas que caíram na madrugada do dia 3 de outubro. Em qualquer cidade minimamente preocupada com os problemas básicos, a providencial mensagem pluvial de São Pedro seria entendida como demonstração da falência da atual administração. Mas não em São Paulo, onde os eleitores foram votar a nado, mas diante das urnas esqueceram-se de punir os responsáveis pela falência do programa contra as cheias. Em janeiro, fevereiro e março, quando estas chuvas repetirem-se todos os dias, o eleitor já não poderá mudar o voto. Os jornais paulistanos da 6ª feira, 4/10, cobriram a inundação mas não a relacionaram com a administração do atual prefeito.

# O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Marco Aurélio de Mello, afirmou categoricamente – O Globo (edição de 2/10) – que grande contingente de eleitores escolhe seu candidato com base no resultado das prévias eleitorais. E para reforçar sua argumentação a favor da regulamentação das pesquisas, devido à perigosa indução que exercem sobre o eleitorado, caiu na mesma esparrela dos percentuais:

"…imagino uns 30% a 40% (de votos induzidos) repercutindo no resultado.."

# A dramatização das subidas e descidas das prévias (tratada na edição do OBSERVATÓRIO de 5 de setembro de 1996) foi expressivamente comprovada na véspera do pleito no Jornal Nacional, da TV Globo (que vive um de seus melhores momentos), quando um dos âncoras apresentou como grande virada a subida de 1% de um candidato, sem mencionar as margens de erro usuais – 2% a 3%.

Se a imprensa brasileira acredita no processo democrático, terá que comandar um grande debate nacional para a reforma dos procedimentos eleitorais. A atual legislação coloca-nos num arremedo de democracia onde o negócio das pesquisas de opinião comanda os destinos da sociedade.

A imprensa não contou os 8 minutos de Pitta sozinho na véspera

A única matéria jornalística nesta temporada eleitoral efetivamente investigada foi do repórter Rogério Pacheco Jordão, do Jornal da Tarde (São Paulo), sobre supostas irregularidades cometidas por Celso Pitta quando estava à frente da Secretaria Municipal de Finanças de São Paulo.

A denúncia foi fartamente utilizada pelos adversários de Pitta no debate televisivo na noite de 30 de setembro (Rede Bandeirantes). O fato do Banco Central ter confirmado a existência de irregularidades levou alguns opinionistas a deblaterar contra o governo federal por interferir no pleito paulistano.

Nenhum deles entrou no mérito dos fatos levantados pela reportagem. A esfera do interesse dos opinionistas situa-se no âmbito federal, infrações de ordem municipal não merecem subir às suas olímpicas considerações.

A assessoria legal do candidato Pitta entrou com recurso na Justiça Eleitoral pedindo direito de resposta. Negado, e justamente, porque o debate foi travado fora do âmbito do horário eleitoral (quando o acusado teve tempo suficiente para defender-se).

Maluf contratou o advogado Saulo Ramos (um dos braços mais ativos na ressurreição do ex-presidente Sarney, hoje na oposição), que arrancou do TSE a incrível decisão: o candidato Pitta ficou 8 minutos sozinho, na véspera da eleição, falando sobre sua plataforma, quando deveria, no máximo, ater-se à sua defesa.

A TV Globo, líder de audiência e, por isso, encarregada pelo TRE de emitir o horário eleitoral das capitais, teve o ônus de inserir essa resposta no meio do seu Jornal Nacional (edição de São Paulo apenas). O âncora do SBT, maldosamente, anunciou que a sua rede não transmitiria a réplica de Pitta, insinuando assim que o problema era com a Globo.

A imprensa de São Paulo não publicou uma linha sobre o incidente e seus desdobramentos na edição pós-eleitoral da sexta-feira, 4/10. Não é de estranhar: estava embasbacada com o novo game tecnológico – a urna eletrônica. O jornalismo hoje praticado no Brasil é o das declarações e dos números. Saber efetivamente o que aconteceu fica por conta da curiosidade dos leitores.

Se estes fatos não contam, o comportamento eleitoral da grande imprensa foi irrepreensível.

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