Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Bandeirantes armou palanque giratório

Por Mauro Malin em 20/10/1996 na edição 8

No caderno de televisão da Folha de S. Paulo (13/10/96) critica-se a imprensa por não ter estabelecido relação entre o direito de resposta dado em São Paulo à campanha de Celso Pitta na véspera do primeiro turno, em horário "nobre", e a suspensão da Rede Bandeirantes de Televisão, no dia da eleição, por três horas. Ambas teriam sido decisões da Justiça Eleitoral paulista favoráveis à candidatura malufista e, ipso facto, suspeitas. 

As repercussões da primeira decisão já foram abordadas neste OBSERVATÓRIO (edição de 5 de outubro). 

Quanto à suspensão da Rede Bandeirantes, impossível dizer a favor de qual dos candidatos pesou mais a balança da tendenciosidade. A Bandeirantes, sem poder se manter por tanto tempo no ar de outra forma, repetiu o que já se cansara de fazer em outras ocasiões: chamou para "debater" pessoas comprometidas até a medula com os candidatos. 

Às nove da manhã, mal tinham sido abertas as seções eleitorais, a deputada Marta Suplicy aparecia no vídeo investindo contra o candidato Pitta com retórica da mais serôdia safra, na qual brilhava o argumento que é (quase) o mais baixo de todos, o fato de ele ser carioca. O âncora, incomodado, lembrou à deputada que a candidata do PT, Luíza Erundina, nasceu na Paraíba, e que, portanto, era melhor não insistir em tão fina argumentação. 

No módulo seguinte, mais duas figuras isentas: Duda Mendonça, a quem Maluf já delegou publicamente a condução de suas campanhas, e Miguel Reali Jr., prócer do tucanato paulista. Tiroteio. Qual poderia ser a margem de descortino de pessoas como essas no dia da eleição? 

Enquanto isso, flashes da votação. Na cobertura do momento em que um dos candidatos votou, o tropel produzido pela comitiva e pela imprensa obrigou o presidente da seção eleitoral a relembrar que dar entrevista dentro do recinto era proibido por lei, e a enxotar a turbulenta grei. Mais uma vez constrangido, agora em face do comportamento de sua própria corporação de ofício, o âncora da Bandeirantes reconheceu o inconveniente, mas resignou-se: "É a festa da democracia". 

Que festa! Era apenas a algazarra da imprensa e das campanhas, num dia de cobertura chatíssima, em que o assunto relevante, a chuvarada medonha, foi negligenciado. 

Por sinal, alguém já se perguntou a quem serve, a não ser aos próprios candidatos, transmitir o momento exato em que o ilustre varão, ou a ilustre varoa, exerce seu dever de votar? (Até 1996, o gestual óbvio era exibir a cédula, beijá-la, etc. Agora, diante da frieza da urna eletrônica, veremos a que arroubos de criatividade serão levados esses atores.) 

O reiterado erro de pauta, de produção, fez da programação da Bandeirantes o contrário do bom jornalismo. Facciosismo puro. A favor de quem, dependia do momento em que o telespectador sintonizava seu aparelho. São coisas que acontecem quando se tem da eleição a imagem de uma "festa", como se vivêssemos em plenas trevas de 1974 e das urnas estivesse brotando a esperança de acabar com a ditadura. 

Alguns cidadãos sentiram-se reconfortados com a decisão da Justiça, sobretudo sabendo-se que não foi selvagem, mas subseqüente a dois timoratos pedidos, ignorados pela emissora, para que parasse com aquilo.

***

[Mauro Malin, jornalista]

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