Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ONG PELA JUSTIÇA

A beleza e a fome

Por lgarcia em 20/03/1998 na edição 41

Luiza Nagib Eluf (*)

 

A

beleza é uma arma política, sistematicamente usada para a dominação das mulheres. Como o feminismo alcançou vitórias surpreendentes no mundo todo, nada mais previsível do que o recrudescimento dos padrões estéticos para controlar a população feminina, abalando-a psicologicamente.

Os mitos da maternidade, domesticidade, castidade e passividade já não exercem a mesma coerção social sobre a vida da mulher ocidental e foi preciso substituí-los por um padrão de beleza absolutamente implacável para conseguir anular tantos passos dados no sentido da emancipação. Foi assim que as magras esqueléticas transformaram-se no maior referencial de beleza da atualidade. Há agências de propaganda apresentando, como padrão de beleza, mulheres que, além de esquálidas, têm aparência de dependentes de drogas: todos os ossos à mostra, olheiras profundas, pele cor de cinza, corpo quase desfalecido, em poses que denotam dificuldade de ficar em pé.

A obsessão por emagrecer fez surgir uma grave doença: a anorexia. A imprensa se delicia noticiando “as novas histéricas” (revista da Folha, de 05/10/1997), ou “as inglesas que morreram por excesso de regime” (Jornal da Tarde, 23/10/97). São histórias incompreensíveis de jovens que perderam o apetite de forma irrecuperável e morreram.

Consta do Manual Merck de Medicina que a anorexia nervosa é doença cuja incidência vem aumentando nas sociedades ocidentais. A taxa de mortalidade é de 20% dos atingidos! É aterrador, pois a doença tem um componente suicida. O sistema de rejeição social instituído foi extremamente eficaz.

Antes da morte, porém, há todo um calvário a ser percorrido: dietas, jejuns, ginásticas estafantes, vômitos, laxantes. As gêmeas inglesas Samantha e Michaela Kendall, que acabaram morrendo, submeteram-se ao martírio para que ninguém mais as chamasse de “as elefantas”. Com os homens raramente acontece isso, tanto que não se ouve falar de casos semelhantes com vítima do sexo masculino. Rapazes anoréxicos são apenas 5% do total. As pressões sobre eles são menores, já que são valorizados de outras formas, mas a população masculina padece de “culpa” ao comer. O problema maior é com relação às mulheres, reafirmando-se, mais uma vez, que o único valor social do gênero feminino é a beleza.

O medo mórbido da obesidade gera uma auto-imagem deturpada. Mesmo que já esteja bastante magra, a anoréxica permanece fazendo regime, por enxergar-se eternamente gorda.

Naomi Wolf, em seu livro sobre “o mito da Beleza “, observa que o direito de controlar a reprodução deu à mulher ocidental o domínio sobre seu próprio corpo. Paralelamente, o peso das modelos de moda desceu para 30% abaixo do peso das mulheres normais. Os distúrbios ligados à nutrição aumentaram exponencialmente e foi promovida uma neurose de massa que recorreu aos alimentos para privar as mulheres da sua recém-adquirida sensação de controle do próprio corpo.

A beleza não é universal nem imutável. Há pouco tempo, os padrões estéticos consagrados ligavam-se a corpos e rostos muito queimados de sol. As pessoas esturricaram a epiderme até que começaram a surgir os melanomas. Vieram, então, os filtros solares e o respeito pela pele branca e a morena natural.

Quando a sociedade se curar da insanidade das “dietas de fome”, somente os obesos terão de controlar o peso e, ainda assim, por questões de saúde. O restante da humanidade, esperamos, terá alcançado melhor qualidade de vida.

(*) Promotora de Justiça de São Paulo, foi Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça – governo FHC, é associada do IEDC.

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