Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > A FARRA DA COPA

A bola rende uma bolada

Por lgarcia em 20/06/1998 na edição 47


TT Catalão

 

O

s teóricos da globalização ressaltam sempre a velocidade das Bolsas de Valores, quedas e altas, para exemplificar o mundo unificado. Mas quando o juiz espanhol José Manuel García-Aranda apitou o início do jogo entre Brasil e Escócia, global mesmo era o balé da bola. O mundo vira futebol com muitas outras coisas entrando em campo. Os 5.760 minutos de futebol, durante 33 dias, para uma audiência acumulada de 500 milhões de pessoas é espaço e tempo precioso na mídia. As grandes redes entram em uma espécie de furor mercadológico para morder as fatias de consumidores. Fatia é um jargão publicitário mas bem lembra o esquartejamento da audiência. Claro que Jack, o estripador no comando das redações só pode resultar em prejuízo para a informação.

A crônica esportiva como a política precisa manter alguma aparência para não perder o ganha-pão cotidiano. As vacas magras do quando o Carnaval eufórico da Copa passar. Assim, recomenda-se, muito sutilmente, muito implicitamente não provocar a ira dos poderosos (futebol e política se irmanam). Não irrite as imaculadas fontes. Depois da Copa um repórter “queimado”, mesmo que fale a verdade jamais conseguirá um furo, uma exclusiva, por ser um “criador de caso”. E o veículo de comunicação receberá recadinhos de alerta quanto a “este rapaz inconveniente”. Assim, acumulando pontos negativos em sua imagem, o mau menino fatalmente não contará com generosidades quando um dia cometer algum erro. Gelo nele. Ahhh! e a verdade isenta, liberta e resoluta para servir ao público? Bem, pega leve.

Até mesmo na Imprensa, também corporativa, não é recomendável crítica de trabalho entre jornalistas. Não seria ético. Mesmo quando um jornalista usa sua amizade fraterna (lobbista é pouco) com a fonte para “colocar os pingos nos iiis ” e “enfim dar a versão”. Oficial, é claro.

O poder da Fifa é óbvio. Ela reúne seis confederações regionais – de todos os continentes – e 205 associações nacionais. É maior em representatividade que a Organização das Nações Unidas (ONU), que congrega 186 países-membros. Com a recente entrada da Palestina em seus quadros, a Fifa adquire imensa capacidade motivadora para promover a integração entre as culturas do mundo. O futebol, como esporte puro e simples, torna-se a busca contra as diferenças. Não se aprofunda a proporção do continuismo de Havelange que significou a eleição do executivo Joseph Blatter. Cargo exercido com tanto altruísmo.

 

Chegar lá, a regra

O Financial Times levantou que estimativamente o salário indireto, como verba de representação, ultrapassa a 500 mil dólares. Até aí nada. Méritos para um talentoso administrador que conduziu a Fifa de um casebre, em 1958, que nem auditório tinha, para esta multinacional. Diga-se, sem o menor controle gestor de seus negócios por qualquer governo, representação comunitária ou coisa que o valha. A Fifa deixa em caixa, agora, seguro, US$ 34 milhões, e até 2006 em contartos futuros, mas já assegurados, US$ 4 bi. Ora, no capitalismo ninguém gosta de discutir muito o sucesso. Afinal a regra é chegar lá, no Top Ten, e esmagar opositores. Raciocínio perigoso quando sabemos que tráfico de drogas também é o mais lucrativo negócio do mundo: estimaram um lucro líquido de 1.433% nas malditas operações com drogas.

Claro que a Fifa está fora dessa mas seria um pouco de jornalismo nessa ufana busca desesperada por qualquer notícia (o que vale menos é o jogo em si) para aprofundar um pouco o curiosa relação entre Fifa e sua administradora? Os negócios da organização são conduzidos pela empresa International Sport Leisure Marketing, filial da ILS International, que por sua vez é sócia do magnata alemão Leo Kirch, que, por mera coincidência, acaba de comprar os direitos de transmissão das Copa de 2002 e 2006. Mas é um sucesso espetacular, e é mesmo. E o capital não pune seus heróis. Vide a banca do Bill Gates sobre as pequenas empresas que sonham em ser Bill Gates.

Como não sou um chato analítico nem torcedor do contra creio, romanticamente ainda, na magia do futebol globalizado. Ele pode quebrar isolamentos culturais. No fim das contas, é só um jogo. É só a sublimação de uma disputa e de uma conquista. Por mais que uma derrota seja chorada, não é o fim do mundo. Por mais que uma vitória seja comemorada, não é capitulação humilhante de um povo sobre outro. É apenas a dramaticidade lúdica de um jogo. Acaba tudo em 90 minutos. No entanto, as pessoas sentem-se instigadas a saber um pouco mais sobre aquele país, seu povo, sua história e principalmente sua cultura.

A fraternidade, aos nossos pés. A igualdade, pena, não está em todos os bolsos. E a liberdade pode ser a utopia de um mundo unido, mesmo em diversos 90 minutos de algumas semanas. Mesmo com o jornalismo um tanto distante: no banco e no Banco.

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