Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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A Bolsa e a Mídia: fabricação do pânico

Por lgarcia em 05/09/1998 na edição 52

Alberto Dines

 

N

o terreno financeiro os prognósticos tendem sempre a confirmar-se – desde que apresentados com intensidade e alguma verosimilhança. Se um jornalista afirma que as ações de Wall Street vão cair porque os juros americanos vão subir, há 90% de chance disto acontecer ainda que por alguns momentos.

Se um comentarista respeitável revelar que o consultor de um grande banco internacional acredita que o Brasil é a “bola da vez” e se o editor do jornal colocar esta notícia na primeira página será inevitável uma corrida para vender os papeis brasileiros. É por essa razão que os comentaristas e editores respeitáveis e responsáveis não se aventuram neste tipo de previsão. Sobretudo em momentos de nervosismo. Sobretudo em ambientes de alta volatilidade.

A queda espetacular das bolsas do mundo inteiro noticiada nos jornais brasileiros de sexta-feira, 28/8/98, foi conseqüência de uma formidável “barriga” da CBS (rede aberta de TV), que anunciou a renúncia de Yeltsin. A notícia foi magnificada pelos canais de cabo, impregnou os serviços especializados da Internet e antes de ser desmentida com violência (a demissão foi de Anatoli Chubais) provocou um dos maiores desastres do mercado de capitais de todos os tempos.

As manchetes dos principais jornais brasileiros e os destaques dos apresentadores dos telejornais da noite foram alucinadas. O escarcéu do noticiário acabou por forçar tendências que, em condições normais de mercado, já poderiam estar revertidas.

O jornal que trabalhou com a maior contenção foi aquele que, pela natureza, deve ser o mais bem informado – a Gazeta Mercantil. O que pode produzir um axioma: o grau de sensacionalismo é diretamente proporcional ao grau de desinformação.

Explica-se, assim, a severidade do visual das publicações tradicionais de economia e finanças (caso do Wall Street Journal, The Economist e o Financial Times antes das sucessivas reformas no início dos anos 90). Quando Henry Luce, nos anos 30, lançou Fortune e criou o jornalismo de negócios, iniciou um gênero de apresentação e de teor mais “humanizado” e vivo. No meio da Grande Depressão, os americanos queriam inebriar-se com histórias e fórmulas de sucesso.

Já os leitores de Economia & Finanças querem números, cotações, preços, índices, informações de conjuntura, movimentos de bastidores. Dispensam as manchetes porque são eles que fazem as manchetes ao tomarem suas decisões de compra e venda.

Este jornalismo é imperiosamente mais sisudo, menos ostensivo. O sobe-desce das cotações, para o bom conhecedor, não carece de verbos fortes como “despenca” e “dispara”. As hierarquizações estão nas entrelinhas, subjacentes. Mesmo porque os especialistas e investidores estão, pelo menos, 12 horas mais adiantados do que o leitor comum: quando saiu na TV ou no jornal eles já sabem o quanto perderam ou ganharam.

Mesmo os cadernos de economia dos grandes jornais generalistas do mundo costumam adotar posturas mais clássicas e menos trepidantes.

Não é o que está acontecendo na imprensa brasileira. Aqui, estamos assistindo a uma sucessão de cruzamentos entre gêneros de jornalismo diferentes. Adota-se para finanças um tratamento que se usa nas páginas de polícia e nas de política, ênfases que ficariam melhor nos cadernos de esporte.

Resultado: a cobertura reforça o desastre. Não se consegue distinguir o fato da repercussão do fato. A crise virtual está se sobrepondo à crise real e isso de tal modo que hoje é impossível dizer se o problema está no movimento dos pregões ou se foi acionado pelas manchetes do dia seguinte.

 

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