Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > A DITADURA DERROTADA

A brasa que (ainda) cega

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

A DITADURA DERROTADA

Luiz Cláudio Cunha (*)

A ditadura derrotada, de Elio Gaspari, 538 pp., terceiro volume da série "As ilusões armadas", Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2003; www.companhiadaletras.com.br


O ex-senador Jarbas Passarinho jogou às favas todos os seus escrúpulos de consciência e confessou, em artigo no Correio Braziliense (16/12/03, pág. 15), que não tem lido os livros da coleção "As ilusões armadas", do jornalista Elio Gaspari, sobre o golpe de 1964 ? série cujo volume A ditadura derrotada, o terceiro dos cinco previstos, chegou às livrarias em novembro passado.

O senador não sabe o que está perdendo. É simplesmente o melhor, mais revelador e mais legível trabalho sobre o longo atropelo de 21 anos dos militares sobre a democracia brasileira. A base da pesquisa de Gaspari são as entrevistas, as gravações e os arquivos pessoais de três personagens centrais do regime militar ? os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva e o capitão Heitor Ferreira.

Nunca se mergulhou tão fundo nas entranhas e nas manhas do processo de decisão, pessoal e autoritário, que é comum às ditaduras. O que é incomum, num país semi-alfabetizado e tão pouco afeito à cultura do letramento, é a disciplina dos poderosos no registro, na organização e na preservação documental da história secreta que habita os gabinetes e ante-salas do poder. Winston Churchill tinha este saudável hábito: mesmo sob a chuva de bombas que a Luftwaffe jogava dia e noite sobre Londres, espalhava suas ordens por escrito e nunca dormia sem antes registrar, num memorando, os fatos importantes do dia. Ali nasceu a magistral História da Segunda Guerra Mundial, em seis volumes, que lhe garantiu o Prêmio Nobel de Literatura de 1953.

Zelo semelhante do general Golbery e do capitão Heitor produziram a matéria-prima que permitiu iluminar os porões do regime militar, apoiado no brilho e no esforço de Gaspari, que passou os últimos 18 anos entrevistando centenas de personagens e garimpando cinco mil documentos inéditos que atravessam e dissecam a ditadura por dentro. Apesar disso, o senador Passarinho não gosta do trabalho que, confessa, não leu. "É a história pela ótica da animosidade", critica, condenando Gaspari por falta de isenção, irritado com a intimidade que levou os generais, arredios por natureza, a repassar a um jornalista os papéis, as fitas e as versões que reescrevem o Brasil.

Virtude duvidosa

Passarinho, um militar culto de sólida forma&cccedil;ão intelectual, sabe que a história não tem um único lado. Ela se constrói pelo embate de vários testemunhos, que se confrontam e se complementam. "Na verdade não existe história, apenas biografia", ensinava o pensador Ralph Waldo Emerson (1803-1882). Faltava a biografia de Geisel e Golbery para entender melhor a encalacrada em que os militares, ombro a ombro com Passarinho, afundaram o país.

Passarinho pia contra o jornalista, mas não canta sua própria parcialidade, calando sobre o ressentimento que dividia a tropa entre costistas (do grupo de Costa e Silva) e castelistas (do grupo de Castelo Branco). O senador, então coronel, era do primeiro grupo, e trai um certo rancor pelo trânsito que Gaspari tem entre os castelistas Geisel e Golbery. E aplica um golpe baixo ao reduzir o trabalho do jornalista, nascido em Nápoles, a "uma espécie de vendetta que lembra a terra natal" por ter sido preso pela Aeronáutica, quando redator de um jornal do Partido Comunista.

Passarinho condena Gaspari como "crítico feroz do regime de 64", que ele gostaria de ver tratado sem parcialidade, apesar da prática parcial de encarcerar jornalistas que divergissem dele. A história, apesar da santa ira do senador, tem lado. O senador, como o jornalista, escolheu o seu. Tanto que o Brasil ainda hoje se divide entre dois lados, ou partes, que classificam o movimento militar de 64 como "golpe" ou "contra-golpe", como quer o isento Passarinho. A imparcialidade nem sempre é uma virtude. G.K.Chesterton (1874-1936) dizia que "a imparcialidade pode ser simplesmente indiferença, e a parcialidade pode ser simplesmente atividade mental".

Liberdade esturricada

O senador se escora na historiadora Barbara Tuchman para duvidar da história escrita quando ainda fumega. Tudo o que Gaspari conta, inclusive a inesperada simpatia de Geisel à tortura e ao assassinato de dissidentes como política de Estado, seriam "cinzas sobre brasas fumegantes". Por este estranho calendário, o senador considera prematuro avaliar em 2003 fatos históricos que incendiaram o país nos anos 60 e 70.

Não se sabe, ao certo, quanto tempo de embargo o senador recomenda para esfriar as cinzas da República. Considerando que ainda é cedo para avaliar e revelar, "com isenção", detalhes do que aconteceu há 40 anos, seria curioso ver um sobrevôo de Passarinho sobre outros eventos históricos. O suicídio de Getúlio Vargas, de 1954, seria coisa para estudar só no governo FHC, a partir de 1994. O escândalo de Watergate, de 1972, só queimaria a mão da Casa Branca a partir de 2012 ? e o isento Nixon teria com certeza sobrevivido até o fim do mandato.

Até a sinistra reunião do Conselho de Segurança Nacional de dezembro de 1968, que esturricou a liberdade com o lança-chamas do AI-5, ficaria adormecida sob cinzas até 2008 ? e o país ainda não saberia, como sabe hoje, que o coronel Passarinho, então ministro do Trabalho de Costa e Silva, mandou brasa na reunião porque mandou às favas seus escrúpulos de consciência. Eis como abriu sua intervenção na reunião de 12/12/1968, que decidiu pelo ato institucional que seria baixado no dia seguinte:


"Senhor presidente, sei que a Vossa Excelência repugna, como a mim e creio que a todos os membros deste conselho, enveredar pelo caminho da ditadura pura e simples. Mas me parece que claramente é esta que está diante de nós. Eu seria menos cauteloso que o próprio ministro das Relações Exteriores quando diz que não sabe se o que restou caracterizaria nossa ordem jurídica como não sendo ditatorial. Eu admitiria que ela é ditatorial, mas às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência. Quando nós encontramos a necessidade de tomar uma decisão fundamental, tudo aquilo que fundamental é em condições normais passa a ser secundário em condições anormais. Eu creio que nós estamos aqui pagando uma penitência, que foi a penitência da autolimitação que a revolução de março de 64 se impôs." 


Ali ele subscreveu o ato de força que afundou o "contragolpe" de 64 na fase mais sangrenta da ditadura militar.

Sem animosidade, claro.

(*) Jornalista, parcial, que tem o movimento de 1964 como golpe

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