Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA ELEITORAL

A cibereleição e os ciberjornalistas

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

COBERTURA ELEITORAL

Nilson Lage (*)

Vinte anos depois do escândalo da Proconsult, denunciado por um jornalista caprichoso que contou votos, urna por urna, na eleição para governador do Rio de Janeiro, e provou que o programa de totalização do Tribunal Regional Eleitoral estava fraudado, chegamos, enfim, ao momento em que isso é impossível: não há como nem por que fazer apuração paralela. Os únicos números que importam são os oficiais, que pingam muito rápido dos disquetes para os cabos e chips das máquinas totalizadoras.

Isso tem algumas conseqüências importantes. A primeira delas é que o monumental sistema eletrônico montado pelo TSE passou a dispor do monopólio da verdade eleitoral, e isso impõe que se fiscalize o processo passo a passo, prestando atenção nos mecanismos de segurança que já não dependem mais de tropas do Exército nem da honestidade dos mesários, mas de técnicas (e de empresas detentoras dessas técnicas) sobre as quais políticos e jornalistas sabem muito pouco.

Com a novidade eletrônica ? única no mundo ?, o jornalismo sai do centro do palco e ocupa os cantos da cena, onde cabem os registros de onde votou fulano ou beltrano, o que disse o candidato A ou B, o que vai ser feito da sujeira habitual nas cidades e nos parlamentos. Além disso, antecipa-se a análise dos resultados, indicando composições políticas prováveis, num mundo em que os governos nacionais, em si, têm poderes limitados pelo império do mercado e da superpotência que pretende representá-lo. Isso geralmente é o não-dito, o que está implícito, para quem sabe das coisas.

O desempenho da web ? a nova mídia ? nessas eleições reafirma o que já se vinha constatando há algum tempo: ao contrário do que pensavam os ideólogos da “era da informação”, a existência de uma infinidade de canais não significa a conviv&ecircecirc;ncia de uma infinidade de mensagens, simplesmente porque a imensa maioria da humanidade não tem nada a dizer. Fatos e versões consistentes circulam na internet por uns poucos canais que adquirem confiabilidade, associados, em geral, a veículos ou fontes tradicionais.

O clima na véspera da eleição no primeiro turno pode ser resumido em três sentenças. A primeira, uma construção frasal confusa de Fátima Pacheco Jordão, no site do jornal O Estado de S.Paulo: “É possível que não se possa ter certeza se haverá segundo turno”; expressava-se, assim, a dúvida da dúvida. A segunda, uma intervenção de Armínio Fraga, presidente do Banco Central, citado no site globo.com: cobrava do eventual eleito que “se manifestasse” (isto é, dissesse o que ele, Fraga, queria ou julgava necessário) para “acalmar o mercado”. A terceira, uma análise da CNN.com, segundo a qual o Brasil iria votar “profundamente dividido pela raça e pelas rendas pessoais (incomes)” e sob a ameaça (originalmente feita por um falcão americano no Washington Times) de vir a constituir um “eixo do mal” latino-americano, unindo Lula, o velho Fidel Castro e o bolivariano Hugo Chávez, da Venezuela.

Informação limitada

Ao lado de muitas vantagens operacionais (imediatismo, custos baixos, recursos multimídia), a web enfrenta limitações que deverão diminuir com o tempo. No momento, não pode incorporar toda a tecnologia mais recente porque não apenas os computadores pessoais são, na maioria, de modelo antigo, com pouca velocidade de processamento (a antigüidade, aí, se mede em semestres ou mesmo em meses), mas também a velocidade de acesso varia de 14 kbps, nas piores ligações discadas, a 50 ou 300 vezes isso, quando se dispõe de conexões via ADSL. É a velocidade que determina, neste caso, a possibilidade de se veicular imagens com maior definição, som contínuo com boa fidelidade e imagens gravadas em vídeo ? a multimídia plena.

A essas restrições soma-se a necessidade de tomar, rapidamente, decisões que envolvem, em última análise, inteligência no trato do idioma, da imagem e do objeto gráfico. Combinar textos curtos, para leitura rápida na tela brilhante, e longos, para aprofundamento e eventual download; articular em sentenças breves proposições complicadas, cheias de ressalvas e circunstâncias ? como costumam ser as de análise política ?; saber usar o som sem redundância e a imagem como ilustração, não como narrativa, é bem mais complicado do que obedecer aos modelos canônicos do jornalismo impresso ou audiovisual: lead-documentação, cabeça-narrativa etc.

Pequenos fatores adquirem papel de diferenciais na web. A confusão visual de portais como globo.com, Terra ou iG não beneficia em nada a informação jornalística, que se mistura a apelos comerciais, chamadas para fotos de mulheres nuas, páginas infantis, receitas de cozinha, salas de bate-papo, almanaques com pretensão enciclopédica etc.

Soluções rotineiras, do tipo “façam, não pensem”, também não colaboram. Nessa eleição, por exemplo, o JBOnline, abrigado no portal Terra, saiu-se bem, embora com estrutura de captação de informação mais limitada, pela simples razão de, em lugar de pedir ao internauta que escrevesse ou escolhesse o nome do estado de seu interesse na tripa vertical do pop-up, simplesmente convida-o a clicar com o mouse no mapa do Brasil. Detalhe besta, certamente, mas faz diferença na internet. Tanto que logo apareceram imitadores.

Não-notícia

Quanto a conteúdos, a compreensão mais ou menos adequada da realidade pode distinguir a rotina da descoberta. Analistas perderam tempo compondo as sopinhas de letras dos partidos brasileiros, em lugar de cuidar do que efetivamente importa, quando se trata do poder real ? coisas como quantos o Executivo pode comprar e quantos não pode, quantos são os ruralistas, os evangélicos, os reformistas agrários, os sindicalistas (e, dentre esses, os do setor público e militares), os representantes de escolas particulares, do crime organizado etc.

A experiência recente mostra que o jornalismo não pode dispensar o suporte de especialistas de informática. Isso é tão verdadeiro que se pode prever uma fusão das duas profissões, ou a incorporação das habilidades em um mesmo profissional. A previsão baseia-se no fato de que toda produção jornalística ? de impressos (incluindo imagem), som, vídeo e internet (se não houver fusão desses dois últimos) ? será feita em computadores, e mesmo a apuração de informações dependerá, em boa parte, dos bancos de dados e instrumentos de comunicação acessados via rede.

Problemas como a recente veiculação pela Agência Estado, ligada ao jornal O Estado de S.Paulo, de uma matéria pré-produzida (para ser atualizada e modificada) em lugar da cobertura real de um fato que acabou não ocorrendo (a ida de José Serra a Palmas, no Tocantins) [veja remissão abaixo], podem ser evitados por mecanismos de segurança incluídos nos sistemas eletrônicos. Uma hipótese, por exemplo, no caso, seria a exigência de liberação do arquivo, mediante senha, pelo repórter incumbido da cobertura.

O grande tema

Alguns fatos jornalísticos foram percebidos logo: o nada surpreendente retorno de Jader e ACM, o nada lamentável fim de Fernando Collor e Newton Cardoso, a explosão de votos do Enéas (que, enfim, poderá dizer ao grande público algo além do próprio nome, e provavelmente não dirá grande coisa), a maré moralizadora da juíza Denise Frossard. Mas outras coisas interessantes, e igualmente óbvias, escaparam ao destaque merecido: a derrota das candidaturas do líder do governo no Senado, Artur da Távola, traído pelos astros embora tenha proposto a regulamentação da profissão de astrólogo, e de Paulinho Bornhausen, filhote travesso do líder pefelista, figura de proa em qualquer “centrão” que se preze. Ou a eleição com número recorde de votos da senadora mulata Ideli Salvati, com amplo apoio nas áreas de colonização européia da alvíssima Santa Catarina (8% de não-brancos).

No que se refere ao “fenômeno” Enéas ? resultado da exposição continuada em anteriores campanhas eleitorais, tanto quanto do desencanto dos eleitores com os políticos em geral ?, a reação menos adequada foi a de caracterizá-lo como “nacionalista”, atribuindo à palavra tom pejorativo ou odioso. Não se deve, efetivamente, fazer isso. A palavra “nacionalismo” é ambígua: pode ser vista como pregação de intolerância étnica, como ocorreu na Alemanha nazista (o partido chamava-se “nacional socialista”), mas, no sentido em que se vem materializando na política latino-americana, é progressista. Representa não uma “raça” ou “etnia” superior, mas o conjunto país-povo-território. Foi assim nas guerras de independência e, depois, na longa luta pelo desenvolvimento econômico, em que freqüentemente travaram-se e travam-se combates com o imperialismo. Enéas é uma incógnita, dessa perspectiva; não chegaria a incluí-lo no nacionalismo do primeiro sentido nem o beneficiaria com a inclusão no segundo.

Mas o grande tema que fica para jornais e revistas é o estudo da composição e manufatura do elixir demagógico Anthony Garotinho, que, espalhando restaurantes populares e hotéis a um real, catapultou para o primeiro plano na vida nacional a jovem dona Rosinha, seus onze ou doze filhinhos e, principalmente, o espertíssimo ex-prefeito de Campos e ex-governador do Rio de Janeiro. Os imitadores (como o governador-candidato Esperidião Amim) já surgiram no segundo turno. E serão dezenas, centenas, nas futuras eleições. Quem comer e dormir, verá.

(*) Professor do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

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