Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > SÃO PAULO, 450 ANOS

A cidade e os homens

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

SÃO PAULO, 450 ANOS

Ulisses Capozzoli

Astronautas voando sobre o lado noturno da Terra, ou o olho eletrônico de satélites, distinguem o perfil de continentes inteiros pela iluminação das cidades.

O Japão, a Europa, as costas Leste e Oeste dos Estados Unidos, o Sudeste do Brasil são linhas luminosas perfurando a escuridão da noite.

Marcus Terentius Varro, sábio romano e autor prolífico, escreveu no primeiro século desta era que "a natureza divina nos deu esta terra e a habilidade humana construiu as cidades".

Aristóteles ficaria escandalizado com o gigantismo das cidades capazes de ser vistas da Lua, contra o disco pálido da Terra na fase nova.

A cidade ideal, na concepção aristotélica, deveria reunir no máximo 5 mil cidadãos, sem contar mulheres, alforriados e escravos ? ainda que, na opinião de alguns, Aristóteles apenas criticasse indiretamente Atenas que, à sua época, no século 4 a.C., deveria reunir 40 mil cidadãos.

Roma, no seu apogeu, chegou a 1 milhão de habitantes, reduzindo-se a 10% disso durante parte da Idade Média.

Caminho para a libertação

Num período castigado por pestes avassaladoras, 100 mil era um número enorme. Na Alemanha medieval, segundo Witold Rybczynski, urbanista da Universidade da Pensilvânia, lugarejos com 3 mil almas recebiam o nome de cidade.

Na França medieval, comunidades muradas, com no máximo 300 habitações, eram, da mesma forma, cidades. Como nas localidades pequenas, ainda hoje, todos se conheciam e se chamavam pelo nome.

As cidades de hoje resolveriam um problema de comunicação entre prováveis civilizações interplanetárias, ao menos no conceito do astrônomo austríaco Joseph Johann Littrow (1781-1840). A certa altura da vida, quando já era bem conhecido, Littrow sugeriu a escavação de canais onde flutuariam formas preenchidas com querosene, representando símbolos matemáticos, onde deveria ser ateado fogo, à noite.

Numa interpretação que agora faria sorrir uma criança de ensino básico, Littrow considerou que esta seria uma maneira eficiente de atrair a atenção de extraterrestres, especialmente marcianos.

As cidades foram uma conquista da Idade Média o que levou o historiador holandês Jan Huizinga a uma reavaliação desse período ? ao menos a partir do século 14, que Huizinga chamou de "outono da Idade Média". A expressão foi ampliada por Philippe Wolff , no título de um de seus livros, para Outono da Idade Média ou primavera dos tempos modernos?

As cidades, especialmente as grandes cidades, são, apesar de tudo em contrário, um caminho para a libertação.

Nas cidades grandes somos desconhecidos e gozamos da identidade forjada por nosso próprio julgamento. Estamos livres, ao menos em países como o Brasil, da influência da família poderosa, a insensível oligarquia rural que, no campo, ainda tange gente como gado. Ou como escravos puros e simples, segundo denúncias veiculadas na mídia nestes dias pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Conceitos e representações

Uma das evocações mais profundas da cidade e do significado delas na história do Ocidente está no belíssimo clássico de Jacques Le Goff, Os intelectuais na Idade Média, obra de 1957 que a José Olympio Editora relançou no fim do ano passado.

Todo editor, secretário e diretor de redação; todo proprietário de algum veículo de comunicação social que se pretenda contemporâneo, no sentido de veicular informações de interesse público para a época que vivemos, deveria ler o trabalho desse historiador francês. Não só por obrigação profissional. Também por prazer intelectual.

Intelectuais são um produto direto das cidades e os jornalistas são, ou deveriam se considerar, trabalhadores intelectuais ? no sentido de manipuladores de idéias, matéria-prima tão fundamental como a madeira, a cola e o prego do marceneiro.

Pode parecer exagero, mas frente à futilidade, quando não o puro terrorismo cultural de boa parte dos meios de comunicação social, seria uma contribuição considerável.

O século 12, época em que viveram Abelardo (o amante de Heloísa, castrado pelo tio dela, o cônego Fulbert) e o reacionaríssimo São Bernardo, foi, mesmo observado por olhos de hoje, de uma impressionante modernidade.

Essa é a época-berço do nascimento dos intelectuais, humanistas e da universidade, período em que as pessoas começam a se interessar pelos acontecimentos do céus, no sentido astronômico, pelos fluxo dos ventos e por uma explicação racional para as tempestades, entre outros fenômenos da Natureza.

Aprendemos na escola que a Idade Média foi a noite mais longa e escura da história do Ocidente. Mas a emergência das cidades, que nessa época tomaram a forma moderna, é a melhor prova de que estudamos em livros de historiografia superada.

No século 12 as mulheres se libertam por uma forte corrente antimatrimonial. No exato momento em que a mulher se liberta, avalia Le Goff:


"(…) quando não é mais considerada uma propriedade do homem, ou uma máquina de fazer filhos, em que não se pergunta mais se ela tem alma ? é o século de rápido desenvolvimento marital no Ocidente ?, o casamento é objeto de descrédito, tanto nos meios nobres (o amor nas cortes, carnal ou espiritual, só existe fora do casamento: encarna-se em Tristão e Isolda, Lancelot e Genoveva) como nos meios dos colégios, onde se cria uma autêntica teoria do amor natural, que poderá ser encontrado novamente no Romance da Rosa, de Jean de Meung, no século seguinte".


Por trás dessa libertação feminina está a cidade.

Mesmo um ritual repetido ainda hoje nas universidades, ainda que desprovido de conexão histórica, reflete uma ruptura só permitida pela cidade. Certamente vale a pena reproduzir um pequeno trecho de Le Goff a propósito do trote:


"A iniciação de um novato é descrita como uma cerimônia de ?purgação?, destinada a despojar o adolescente do seu jeito rústico, até mesmo xucro. Ironizam-se seu cheiro de animal selvagem, seu olhar desvairado, suas orelhas compridas, seus dentes parecidos com presas. Arrancam-lhe chifres e excrescências imaginárias. Lavam-no, dão-lhe um polimento nos dentes. Numa paródia de confissão, ele revela, por fim, seus vícios extraordinários. Desse modo o futuro intelectual abandona sua condição original, que se parece muito à do camponês, do rústico da literatura satírica da época. Da animalidade à humanidade, da rusticidade à urbanidade, essas cerimônias em que o velho fundo primitivo aparece deturpado e quase esvaziado de seu conteúdo original lembram que o intelectual foi arrancado do clima rural, da civilização agrária, do mundo selvagem da terra".


Aí está a metamorfose social que permite a emergência de um novo tipo de trabalhador, aquele que manipula as idéias, os conceitos e as representações. Ele é, inteiramente, fruto da cidade.

Energia urbana

A imprensa paulistana, até finais dos anos 1970, abrigava nas redações editorias de cidades com repórteres bem formados em assuntos urbanos.

Esse tipo de cuidado, evidentemente, não impediu obras estúpidas e violentadoras de São Paulo como o "Minhocão", concebido e erigido pela lógica fácil de Paulo Salim Maluf. Mas o Maluf dessa época é um interventor. Um prefeito nomeado, um representante dos generais que pouco antes haviam se apoderado do poder pela boca dos fuzis. Não havia como enfrentar a decisão, mesmo as mais estúpidas, desses pequenos déspotas.

A cidade estava sitiada em sua essência.

Neste 450? aniversário de São Paulo, os generais se recolheram aos seus quartéis e esse recuo dos homens das armas foi uma conquista da cidade.

Foi o resultado de marchas pacíficas, protestos determinados, aspirações profundas por um tempo novo.

A polis, como poderia sustentar Aristóteles, se fez ouvir em suas profundezas, mesmo que cada um dos protestos contra a força bruta reunisse mais de 5 mil cidadãos, o limite máximo estabelecido como ouvintes pelo filósofo.

Nem tudo caminhou como se sonhou.

A cidade ainda tem seus espaços abertos aos que chegam em busca de oportunidade. E eles são numerosos.

O país mudou, mas não se transformou estruturalmente como seria desejável e aqui a cidade ainda é a melhor evidência disso: homens tristemente puxando carroças, tarefa que uma legislação formal veta a animais; sem-tetos, catadores de latas e outros restos, ocupam abrigos de papel que se desmancham com as chuvas de verão; jovens adolescentes cospem fogo nas esquinas. Tudo por uns poucos trocados…

A cidade foi parcialmente tomada pela especulação imobiliária.

Bandidos utilizando como armas os meandros da lei se apossaram de vantagens e transferiram as perdas para seus clientes indefesos. Com páginas inteiras de anúncio na imprensa, calaram fundo a boca crítica…

Mas a cidade não está morta. Está ferida, sangra e muitas vezes cheira mal. Mas está viva. E, nesta reflexão de seu aniversário, talvez recupere parte de suas energias. A mesma energia urbana que fez do século 12 um tempo de surpreendente modernidade.

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