Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > 3)

A CNN paga pelo que não fez

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

ISRAEL vs. TED TURNER

Luiz Weis (*)

Depois do New York Times, do Washington Post e do Los Angeles Times, outra referência mundial da mídia americana acaba de ser bombardeada pelos sharonistas, em Israel e na diáspora, alertas 24 horas por dia para detectar ? e retaliar ? o mais tênue sinal daquilo que, no seu entender, representaria um viés pró-palestino na cobertura de imprensa do conflito no Oriente Médio [ver, a propósito, artigo "Estadão, crítica e autocrítica", OI n? 170, 1/5/02, remissão abaixo].

O mais recente alvo do vigilantismo judaico foi a Cable News Network (CNN). Seria engraçado se não fosse deprimente. Os palestinos e os árabes em geral acham a CNN tão pró-Israel, mas tão pró-Israel, que apelidaram a rede de ZNN (Zionist News Network).

E há três meses, quando o presidente da Autoridade Palestina Yasser
Arafat estava preso, sob a mira dos tanques israelenses, em seu
dilapidado QG em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, tão
fora de si ele ficou com uma pergunta da repórter cinco estrelas
da emissora, a iraniana Cristiane Amampour ("Que provas o senhor
pode dar de que está sendo firme com os terroristas palestinos?"),
que a acusou de proteger "as atividades terroristas da ocupação
israelense, os crimes israelenses", antes de dar a entrevista
por terminada e bater o telefone na sua cara, fulminando: "Cale-se.
Seja justa. Obrigado. Passar bem" [remissão
abaixo
].

Mas há uma diferença notável entre os motivos das represálias judaicas aos citados jornais e à CNN ? o que as torna ainda mais escabrosas.

Naqueles três casos, os sharonistas e seus companheiros de viagem (os quais acreditam, ou agem como se acreditassem, que todo gentio que critica Israel é um anti-semita enrustido e todo judeu que faz o mesmo tem ódio de sua condição) resolveram dar uma lição e fazer uma advertência aos matutinos, boicotando-os temporariamente por aquilo que eles publicaram ou deixaram de publicar em relação à tragédia palestina-israelense e suas repercussões. (Por exemplo, o jejum de compra de exemplares e de espaço publicitário nas páginas do New York Times, incluíndo anúncios fúnebres, foi programado para durar 30 dias).

A "velha dama cinzenta" se retratou de ter dado igual destaque à foto de um manifestante pró-Israel, numa passeata sionista em Nova York, e à foto de um pró-palestino, em manifestação contrária, reconhecendo, para aplacar a ira do leitorado judeu, que a primeira foto deveria ter ocupado mais espaço porque a respectiva passeata tinha mais gente ? um critério que renderia boas discussões em um curso de jornalismo, mas deixa pra lá.

Já o Washington Post teve a ingenuidade de tentar defender o tom geral do seu noticiário sobre o Oriente Médio, colocado no banco dos réus pelo sharonismo, alegando que procura cobrir o assunto "com equilíbrio". Levou uma traulitada de um líder do lobby judaico nos Estados Unidos, que disse algo como "que equilíbrio, que nada; o jornal tem de contar a verdade" ? a verdade do governo de Israel, obviamente, pois, do mesmo modo como a direita sionista se refere a Jerusalém, essa verdade só pode ser "una, eterna e indivisível".

A ordem da casa

Mas que barbaridade anti-semita a CNN terá posto no ar para desatar a fúria sharônica? Nenhuma ? e é isso que acentua as ultrajantes tentativas do oficialismo israelense e dos grupos de pressão que o apoiam no exterior de dobrar a imprensa goy aos seus interesses facciosos.

A CNN entrou na lista negra do governo de Tel-Aviv porque o seu bilionário fundador e vice-presidente da AOL Time Warner, Ted Turner, numa entrevista ao The Guardian, de Londres (terça-feira, 18/6), disse que Israel não é menos terrorista do que os palestinos que cometem atentados indiscriminados no Estado judeu.

"Não estarão os israelenses e os palestinos se aterrorizando uns aos outros?", observou Turner, cujos sentimentos em relação aos problemas mundiais podem ser avaliados por sua doação recorde de 1 bilhão de dólarea às Nações Unidas, em 1997.

"Os palestinos estão lutando com homens-bomba suicidas, é tudo que eles têm", disse Turner ao repórter inglês Oliver Burkeman, em seu escritório em Nova York. "Os israelenses têm uma das mais poderosas máquinas militares do mundo. Os palestinos não têm nada", continuou. "Então, quem são os terroristas? Eu diria que ambos os lados estão envolvidos com o terrorismo".

Ele pode estar absolutamente certo, absolutamente errado, ou qualquer coisa entre esses dois extremos. Mas é a opinião de um homem de bem, que de anti-semita não tem nada ? e muitíssimo mais importante do que isso, as suas idéias em nada influem no modo como a CNN cobre as matanças no Oriente Médio. Não é um caso do tipo "a voz do dono". Turner, por fim, não estava dando uma entrevista para a sua emissora.

Previsivelmente, a Autoridade Palestina gostou e o governo Sharon abominou a entrevista. "Ela reflete uma abordagem mais consistente do problema", comentou Ghassan Khatib, recém-nomeado ministro do Trabalho da AP e ex-diretor do Centro de Comunicação e de Mídia de Jerusalém. "Meu único conselho a Ted Turner é se as pessoas presumem que você é tonto, o melhor que você tem a fazer é calar a boca em vez de abri-la e confirmar o que todo mundo acha", reagiu Daniel Seaman, porta-voz do governo de Israel. E o ministro de Comunicações Reuven Rivlin disse que se Turner tivesse dito o que disse em Israel ele seria considerado persona non grata ? diplomatês para "seria expulso".

Até aí, tudo bem. Um falou, outro elogiou, outro xingou, outro advertiu. Mas os israelenses foram além e decidiram mandar a conta para a CNN. A Yes, uma das maiores receptoras de satélite do país, que capta e repassa o sinal da rede americana para nada menos de 1,4 milhão de assinantes (numa população de 6,4 milhões, dos quais 5,2 milhões judeus), ameaçou tirar a emissora do ar por um tempo.

Mais concretamente, abriu as portas para o sinal da arqui-rival da CNN, a Fox News, do magnata de mídia Robert Murdoch (The Times, New York Post), encarnação globalizada do não menos direitista William Randolph Hearst, de triste memória (com a diferença de que este não morria de amores pelos judeus e aquele é um firme defensor de Israel e do sharonismo).

Os jornalistas da Fox, por exemplo, estão proibidos de usar a expressão "homens-bomba suicidas", para designar os terroristas palestinos. A ordem da casa é chamá-los "homens-bomba homicidas". Diz o vice-presidente internacional da emissora: "Esse é o tipo de ponto de vista que os israelenses querem ouvir".

Consequências:

1) Ted Turner pediu desculpas. "Lamento qualquer implicação de que eu acredito que as ações tomadas por Israel para proteger o seu povo equivalem a terrorismo", disse em nota à imprensa.

2) A CNN dissociou-se das suas declarações, ressaltando que ele já não tem nenhum envolvimento operacional ou editorial com a emissora.

3) A CNN vai mexer na cobertura aos atentados suicidas. "Doravante, não mostraremos nem citaremos os pronunciamentos feitos [em videotape] pelos homens-bomba ou suas famílias, a menos que surja uma razão extraordináriamente obrigatória em contrário", anunciou Eason Jordan, diretor de jornalismo da rede. Dois dias depois da entrevista de Turner, ele viajou a Israel para "consultas" com funcionários do governo sobre a cobertura do conflito.

Depois os judeus se queixam de que são vistos como tendo "influência desproporcional" sobre a mídia americana.

(*) Jornalista

Leia também

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem