Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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A cobrança do patrão

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

IMPRENSA & EMPRESA

Luiz Weis (*)

Na semana passada, sob a rubrica "Entre aspas", este Observatório reproduziu a versão em português de um artigo publicado originalmente no Washington Post em 30/1 e transcrito pelo Estado de S.Paulo, quatro dias depois [veja remissão abaixo].

O artigo, intitulado "The press?s business", tem como gancho o escândalo da Enron ? as fraudes que levaram à garra a maior empresa de energia do mundo, reduzindo a pó as poupanças para a aposentadoria de seus milhares de funcionários, impedidos de resgatar as suas aplicações no fundo de pensão da companhia, enquanto os gatos gordos da diretoria fizeram a festa vendendo as ações em seu poder antes da queda que sabiam inevitável.

Quem leu sabe que o texto é ouro puro ? pelo que nele consta e por quem o escreveu. A idéia central é que a imprensa precisa cobrir as grandes corporações privadas, principalmente aquelas com ações negociadas em bolsa, que nos Estados Unidos são consideradas "propriedade pública" e no Brasil "companhias abertas", com o mesmo apetite com que investiga os malfeitos dos governos.

O autor, para quem ainda não leu, não é nenhum mal-humorado crítico de mídia esquerdista, que abomina o grande capital em geral e os grandes conglomerados do jornalismo & indústria editorial & entretenimento & comunicações & processamento de dados & turismo, em especial. É o avesso disso. Mr. Russ Lewis, o signatário, é ninguém menos do que o presidente e executivo-chefe da companhia que edita o New York Times ? e é precisamente a partir dessa perspectiva que ele solta o verbo.

O CEO acha ao mesmo tempo "impraticável" e "irrealista" que as empresas que nasceram para vender notícias deixem de ser organizações de negócios cada vez amplos e diversificados. Se dependesse do big boss Lewis, mesmo se essa marcha a ré fosse praticável e realista, ele seria contra.

Heróis e vilões

Mas ? é aí que a coisa fica interessante ?, por isso mesmo, argumenta, a imprensa tem de fuçar as chamadas maiores e melhores. Porque os conglomerados de mídia & etc dependem cada vez mais dos ganhos auferidos com a publicidade das corporações de outros ramos e porque eles enfrentam numerosos conflitos potenciais de interesse quanto mais se expandem e se diversificam. Quanto maior também a possibilidade de entrarem numa fria, com resultados desastrosos para a sua contabilidade e para a sua imagem.

Portanto, as organizações noticiosas, se quiserem ser bem-sucedidas, devem equilibrar "continuamente e cuidadosamente" a busca de sucesso financeiro com a busca de sucesso jornalístico. Segue-se, em suma, que o "negócio da imprensa" tem a responsabilidade de exercer um papel significativo como cão de guarda e fiscal do big business: é bom para os negócios da mídia.

Não bastasse esse critério de imaculado caráter capitalista ? e aí entra a visão sociológica ?, hoje em dia o poder das corporações globais pode ser tão preocupante quanto o do governo, por causa do seu crescente impacto sobre o ambiente, o sistema político, a distribuição de riqueza pelo mundo, a segurança dos nossos investimentos, mesmo a nossa saúde. Palavras de Mr. Lewis.

Wow! Será que o presidente da New York Times Co. estava em Porto Alegre e ninguém viu? Olha, vocês eu não sei. Mas eu não me lembro de ter ouvido uma constatação como essa da boca de um empresário de mídia tamanho XL, de país nenhum, ainda por cima para justificar o ponto de vista de que a imprensa deve escarafunchar, com o zelo de um inspetor da Receita, a intimidade das megaempresas a quem vendem espaço publicitário.

O homem até parece lamentar que as leis graças às quais, lá nos Estados Unidos, os jornalistas podem exigir acesso a documentos e atas de reuniões de governo não se apliquem ao mundo privado, onde tudo se passa a portas fechadas, que se abrem apenas quando convém aos donos das chaves.

Parece, vírgula. Ele propõotilde;e com todas as letras que a imprensa reivindique que se criem leis obrigando as sociedades com ações transacionadas nas bolsas a serem mais transparentes e a revelarem decisões e papeladas. Só faltava ele pedir a quebra preventiva do sigilo fiscal, bancário e telefônico de pessoas jurídicas e físicas em nome do direito à informação.

Conhecedor do ofício, o CEO evita a atitude complacente que seria dizer que a imprensa americana não faz mais nesse departamento porque não deixam. Mesmo levando em conta as limitações institucionais ao seu trabalho no mundo empresarial, ela não tem estado à altura de sua responsabilidade, afirma.

Ele não deixa por menos: a mídia não se antecipa aos estragos tipo Enron, que representa a maior bancarrota da história dos Estados Unidos, mas, no quesito roubalheira, é apenas mais uma; puxa o saco dos figurões do tubaronato e personaliza a cobertura dos negócios, retratando como heróis alguns daqueles que irão se revelar vilões; tem poucos repórteres e editores que entendem do riscado para investigar maracutaias empresariais e não lhes dá os recursos necessários; no máximo, irrompe em cena quando o desastre já aconteceu, para "executar os feridos".

Curvas e desvios

Que diria o exigente Mr. Lewis do desempenho do jornalismo brasileiro em matéria de expor os podres das nossas empresas? Quantos dos repórteres e editores de economia sabem ler um balanço? Quantos têm a iniciativa ou recebem a incumbência de ir além dos press releases comemorativos de um grande investimento ou de uma fusão de empresas ? quando esses eventos afetam os direitos dos acionistas e consumidores, ou quando envolvem dinheiro do contribuinte, a exemplo de financiamentos do BNDES?

De vez em quando, justiça se faça, a imprensa dá conta do recado. Foi o que aconteceu na devassa da promiscuidade de aventureiros e funcionários graduados na Sudam e na Sudene. Foi o que aconteceu também ? e que precisa continuar ? no caso da cartolagem da CBF. Mas é pouco. Xeretar o setor bancário pode manter ocupado um punhado de repórteres pelo resto de suas vidas úteis. E haja outros para ficar de olhos permanentemente abertos para as concessionárias de serviços públicos.

Cobrir como se deve o capitalismo brasileiro ? afinal de contas, é disso que se trata ? seria cobrir, necessariamente e em primeiro lugar, o relacionamento empresa-governo: as ligações entre os donos do dinheiro, seus executivos, seus lobistas, "seus" políticos e "seus" administradores, em todas as instâncias do Estado.

Nada melhor, talvez, do que um ano eleitoral para acompanhar a formação desses anéis. Alguém já se preocupou em tentar descobrir, entre outras coisas, o alegado papel de certas agências de publicidade nessa bilionária ourivesaria? Dizem que, em campanha eleitoral, o dinheiro que não pode revelar a sua paternidade percorre uma trilha mais cheia de curvas e desvios do que é capaz de conceber a imaginação do inocente eleitor.

Uma coisa parece indiscutível. O artigo de Russ Lewis é uma pauta de primeira para jornalistas (atuais e futuros) discutirem os meios mais indicados para enveredarem por uma área extraordinariamente rica ? sem jogo de palavras ? de responsabilidade profissional.

Tem só um porém: quantos barões da mídia nacional pensam como o seu contraparte americano?

(*) Jornalista

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