Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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A comunicação decepcionante

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

ENSINO DE JORNALISMO

Nilson Lage (*)

Jussara Resende Araújo, doutora em ciências da comunicação pela Escola de Comunicação e Artes de São Paulo, escreveu a este Observatório [veja remissão abaixo] dizendo-se "decepcionada" com a sugestão que fiz de suprimir os estudos de teoria da comunicação ? como eles são presentemente ministrados ? dos currículos de jornalismo, em benefício de outras visões teóricas mais pertinentes, como as que situam em perspectiva, com a correção possível, os fatos e idéias da última metade de século, com cujos desdobramentos os jornalistas sempre terão que lidar.

Como em geral acontece com os comunicólogos em qualquer nível, a missivista mostra-se incapaz de expor suas idéias já não diria com clareza ? porque talvez seja fácil para o prezado leitor, embora não para mim, saber exatamente o que significa "eles conhecem (…) as teorias ao longo da história e o correlato com o grau epistêmico em outros campos" ? mas, pelo menos, obedecendo a normas de educação que mandam não desqualificar o pensador divergente ou, pelo menos, não tomar a iniciativa disso.

A Dr? Araújo, diante da colocação que fiz, poderia cogitar algo como: "Por que será que esse senhor, que há tanto tempo leciona e é conhecido na área, considera comunicação algo irrelevante para o jornalismo?" Seria educado e iniciaria troca de opiniões provavelmente proveitosa. Mas, sendo o que é, torna-se inevitável o argumento ad hominem: (contra a pessoa): "Enfim, é muito chato esse tipo de reducionismo, pois parece que só o professor conhece os assuntos Pelo que vi, na verdade, [ele, ou seja, eu] não domina a extensão dos problemas tratados pela disciplina".

Ah, domino sim, mais do que a senhora pensa. E é por dominar que considero a matéria, tal como ela é ensinada no Brasil, o irrelevante do irrelevante do irrelevante do irrelevante para a formação de jornalistas em nível de graduação. Senão, vejamos:

** Parte dos cursos básicos de Teoria da Comunicação é consumida com a crítica do modelo formulado por Shannon e Weaver em seu livro Mathematical Theory of Communication, de 1949. Os críticos queixam-se de que ele não considera fatores culturais ou o contexto social. Nem poderia: foi desenvolvido por engenheiros para dar conta do funcionamento de sistemas de rádios e telefonia. A crítica deveria visar não os autores, mas os comunicólogos que se apropriaram do modelo para extrair conclusões absurdas ? as que sustentam, por exemplo, o domínio do emissor sobre o receptor e, a partir daí, consideram que toda mensagem objetiva o convencimento.

** Essas duas questões ? "domínio de quem produz a mensagem sobre a audiência" e "finalidade única de convencimento" ? são cláusulas pétreas das teorias formuladas no século 20 a partir dos textos seminais do sociólogo Scipio Sighele ? A multidão criminosa (1891) ? e do médico francês Gustave Le Bon, Psicologia das Massas (1895). Essas obras, que qualquer pessoa neutra diria se situarem na extrema direita do pensamento político, foram reeditadas, traduzidas e repercutiram amplamente. Na sua biografia de Goebbels, Ralf Georg Reuth relata a influência da versão alemã do livro de Le Bon, editada em 1911, sobre o jovem estudante que se doutoraria no final de 1921 na prestigiosa universidade de Heidelberg para tornar-se, anos depois, militante nacional-socialista e, finalmente, ministro da Informação do governo de Hitler, com ingerência na mídia, no ensino e nas artes.

** A teoria sustentada por Sighele e Le Bon ? o primeiro acusando o segundo de plágio ? influenciou, também, o pensamento dos teóricos americanos que, na década de 1920, inspirados pela volúpia do crescimento econômico e da especulação financeira (a bolha estouraria em 1929) e orientados pelo Conselho de Relações Exteriores (1921), que reunia as grandes corporações do país, pretendiam usar a coordenação das mídias (desde o sistema escolar até o jornalismo de notícias, que confundiam com o texto opinativo da revista Time, criada em 1922) para "fabricar o consentimento" (manufacture consent, a expressão é de Walter Lippman); ou, como escreveria Harold Laswell, em 1927 (Propaganda Technics in the Wold War), para a "gestão governamental de opiniões".

** "Os meios de comunicação injetam nas pessoas um veneno contra o qual elas não têm defesa." Essa metáfora é chamada de "teoria hipodérmica", somando pedantismo à banalidade. A proposição estava tão difundida na década de 1930 e parecia tão evidente que motivou uma pesquisa por amostragem estatística, conduzida durante décadas por Paul Lazarsfeld e sua equipe nos Estados Unidos e que resultou (a) no aperfeiçoamento do método; e (b) no desmentido formal à atribuição de poder nessa medida à mídia, pelo menos à mídia eletrônica, se comparada às mídias presenciais. Como os dados são irrespondíveis, a forma de combatê-los foi desqualificá-los: por terem resultado de pesquisa funcionalista, não poderiam ser levados em conta. Quem se opõe aos comunicólogos ou é "positivista" ou "funcionalista".

** A "teoria hipodérmica", "a gestão governamental de opiniões", a "engenharia social" (Zbigniew Brzezinski, 1971) ou que outro nome se dê ? contestada, seja pela pesquisa empírica, seja pela conjectura teórica de pensadores da estatura de Sigmund Freud (1921) ? foi incorporada por outra corrente de presença constante nos cursos de teoria da comunicação: a Escola de Frankfurt. Trata-se de um grupo de filósofos alemães que se declaram marxistas mas que, por várias circunstâncias, terminaram somando interessantes contradições: (a) substituem o conceito de "classe operária" (dotada de "consciência espontânea" e papel histórico definido) pela noção de "massa", que surgiu no império romano ? ?manipulável como o gesso?, escreveu Le Bon (pobre Marx 1!) ? daí a palavra ?manipulação?, uma das mais comuns no dicionário comuniquês; (b) à medida que iam se refugiando nos Estados Unidos (antes, durante e no pós Segunda Guerra Mundial), foram trocando "capitalismo" por "sociedade industrial" (pobre Marx 2!); e, finalmente, em oposição à projetada sociedade sem classes, utopia que remonta, na essência, a Thomas Morus, propuseram pessimismo negativista e desestimulante (pobre Marx 3!).

** As obras mais difundidas da Escola de Frankfurt nos cursos de graduação são a Dialética do iluminismo (ou "do esclarecimento", de Theodor Adorno e Max Horkheimer, depende da tradução), libelo de texto elegante escrito por ocasião da ascensão do nazismo mas que ataca, via ideologia iluminista (século 18), o que, na essência, é o pensamento clássico grego (pobre Marx 4!); e dois textos de Walter Benjamim, em que esse autor de destino trágico (suicidou-se ao constatar a inviabilidade de escapar aos longos braços do nazismo) (a) discorre sobre a narrativa e (b) atribui à obra de arte uma ?aura? . O texto (a), interessante do ponto de vista da arqueologia do saber, atende a outra das cláusulas pétreas da comunicologia, a desqualificação da profissão de jornalista (pobre Marx 5: ele era jornalista!); o texto (b) incorpora, na leitura mais comum, algo misterioso, imaterial e místico na apreciação das obras de arte, degradando sua reprodução, o que significaria, na prática, privar o povo de usufruí-las plenamente (pobre Marx 6!).

** Da Escola de Frankfurt podemos dar um salto para Louis Althusser. Trata-se, aí, de construir uma ponte para a introdução nesse imbróglio da psicanálise, que chega ao primeiro plano nas ciências humanas justamente quando a medicina, graças aos avanços da neurofisiologia, a faz recuar à condição de coadjuvante na terapia de doenças mentais. Althusser era comunista; quando Stalin foi acusado de muitos crimes, em 1956, resolveu fazer um exercício mental, abordando a obra de Marx da perspectiva do filósofo idealista português Spinoza. Produziu Para ler Marx. Pressionado pelo Partido, saiu-se com os Elementos de autocrítica. Sua obra mais citada, no entanto, é Sobre a reprodução ou, mais precisamente, o capítulo em que enuncia a teoria dos "aparelhos ideológicos de Estado", publicado originalmente na revista Pensées, de 1971. Habilmente, os comunicólogos suprimem os mais relevantes desses "aparelhos" (o Judiciário, que o próprio Althusseer riscou na edição original, provavelmente porque não interessava ao Partido brigar com os juízes; e a escola) e batem firme no terceiro, os meios de comunicação. Não se costuma discutir, também, que coisa é esse Estado althusseriano e que coisa ele seria, em nossos tempos de globalização e poder unilateral.

** De Althusser (que matou a mulher e enlouqueceu, não sei se nessa ordem), os programas, quando chegam lá, partem para Michel Pêcheux (Les vérités de la Palisse) e sucessores. Quanto a Pêcheux, por ser eu modesto mas esforçado estudante, fiz a análise sintática de alguns parágrafos barrocos do capítulo que trata de "a forma-sujeito do discurso na apropriação subjetiva dos conhecimentos científicos e da política do proletariado" (ufa!): engulo meu diploma de doutor em Lingüística se eles significarem alguma coisa. O que se segue a Pêcheux, na França, às vezes aparece em currículos ou leituras recomendadas: apropriações de conceitos das ciências exatas (listadas por Sokal & Bricmont em Imposturas intelectuais), discursos de sujeitos espertos como Michel Maffesoli que, segundo me contou um professor português, confessa gostar de orientar pós-graduandos brasileiros porque "têm bolsas excelentes e nada pedem", e "trazem as teses prontas e não dão trabalho"; o irracionalismo de Paul Virilio (que, para variar, odeia jornalismo e também as ciências mais formalizadas); a literatice de Jean Baudrillard (ah, que saudade do texto brilhante e das abordagens rigorosas de Roland Barthes!); a psicanálise de Jacques Lacan; e até o menos bizarro Pierre Levy, com a comparação entre a rede internet e uma rede neural(!), entre outras metáforas esquisitas.

Vida real

Acho que cobri os conteúdos mais comuns nesses cursos.

Poderiam ser diferentes? Claro. Destacaria como indispensáveis (porque farão parte cada vez mais do ambiente cultural contemporâneo) os avanços dos últimos 40 anos na área de cognição: as teorias dos protótipos, de Eleanor Rosch; da conversação (de Paul Grice e Gordon Pask); dos modelos, de Jonhson-Laïrd; da relevância, de Dan Sperber e Dreirde Wilson; e os estudos que relacionam o processamento de informações na mente e a realidade, como os que atualmente simulam comportamentos humanos em sociedades artificiais povoadas por agentes inteligentes etc.

Mas poderiam ser incluídas as análises de Serge Tchakhotine e de Jean Marie Domenach sobre propaganda nazista (seriam muito úteis nesta era Bush); as críticas de Herbert Schiller e Noam Chomsky à sociedade americana e às relações entre empresas de informação e entretenimento e os grandes grupos econômicos, incluindo as discordâncias do último desses pensadores com Jean Piaget; o confronto entre o "direito de informar" e o "direito de ser informado", que transparece no Relatório MacBride, da Unesco ("Um mundo, várias vozes"), na década de 1970; os enfoques de Gramsci sobre hegemonia e a inserção do pensamento contestador no universo católico, dominante na Itália e no Brasil; textos básicos de Paulo Freire; as Mitologias de Roland Barthes e seu estudo sobre fait-divers publicado originalmente em Essais critiques (embora coubessem melhor em uma disciplina especifica de estudos de linguagem jornalística).

Mas, para isso, seria preciso mudar o enfoque.

Deixar de fingir certeza no que se tem meras hipóteses e assumir a humildade que é própria da ciência; avançar e não ficar andando de lado, com dissertações e teses que são aplicações repetitivas de teorias não confirmadas. Parar de explorar o espanto das pessoas diante de coisas novas (fenômenos!) e buscar sinceramente entender essas coisas novas.

A petulância e a entronização de hipóteses leva o sujeito que se considera "intelectual" a cometer crimes como o de Regis Debray, que propalou sua "teoria dos focos insurrecionais" afirmando que, na América Latina, o surgimento de uma atividade guerrilheira enraizada espalharia a revolução como fogo em palha: acreditando nisso, morreram centenas ou milhares de jovens, na Bolívia, no Peru, no Araguaia…

Acho muito difícil que tal mudança de abordagem aconteça.

Por quê?

** Porque seria preciso não fazer da "carreira", apoiada em elogios mútuos, a razão de vida. Quem gosta de criticar precisa, antes, criticar-se e aceitar críticas.

** Porque não se pode dar trânsito livre à ideologia ? ao Estado "bonzinho" (para que teria ele então o monopólio da força?); à preservação do mico-leão, da jararaca, do javali, da onça pintada, da baleia e de outros bichos, excluído o bicho-homem; à cultura natureba; aos jardins zoológicos humanos povoados por bons selvagens, e a outros arroubos pós-modernos que desviam nossa atenção dos papéis que efetivamente nos cabem no tempo histórico.

** Porque, do ponto de vista epistemológico, já que a Dr? Araújo gosta da palavra, comunicação não é ciência já que não tem objeto nem métodos definidos. É uma área inventada por estratégia (no caso da América Latina, para conter a militância dos jornalistas, que tanto ajudou a revolução cubana), uma teoria de dominação como qualquer outra.

** Porque um conhecimento que sustenta algumas hipóteses e nenhuma certeza, aceita a especulação mas não admite erro, caberá talvez na pós-graduação, em que se pode especular partindo do abstrato para outro abstrato. Na graduação, o destino inevitável é a concretude da vida real, das paixões humanas e do mercado que, no caso do jornalismo, vai do sindicato à empresa, da comunidade à pátria, do boletim destinado aos excluídos sociais até o documentário institucional que será exibido aos acionistas do conglomerado financeiro.

Fico por aqui. Se quero ser lido por alguém, não devo ser copioso. No entanto, Dr? Araújo (não sei sua idade; não fui educado para perguntar isso às damas ? admitirei que é uma acadêmica jovem, portanto recuperável): peço-lhe encarecidamente ? já que não é possível fazer o mesmo com a signatária da outra carta ao OI, um criança iludida ? , que não me ofenda nem avance juízos a meu respeito sem conhecimento de causa.

Se houver tréplica, não haverá "quadréplica". Falta-me tempo e disposição para bate-boca.

(*) Jornalista, professor-titular da Universidade Federal de Santa Catarina

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