Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > ÉTICA

A constante moralista

Por Bárbara Andrade em 13/06/2001 na edição 125

ÉTICA

Numa crônica recente (O Globo, 30/5/2001), Luis Fernando Verissimo refere-se com muita propriedade ao que poderíamos chamar de constante do moralismo ? um estranho moralismo, na verdade ? presente na consciência coletiva do eleitorado brasileiro. Apesar de todas as transformações e do aparente progresso social, existiria em estado larvar, ou em latência, uma zona de anômala moralidade: "Jânio e Collor seriam assomos do moralista fanático que cada brasileiro tem dentro de si, esperando o momento de romper a superfície e emergir, com o olhar furioso, para nos redimir da complacência".

Esta crônica interessa-nos principalmente como ponto de partida para uma reflexão sobre a natureza dessa moralidade. Para nós, não seria tanto nenhuma essência moralista presente em "cada" brasileiro, mas um predomínio particular do juízo moral abstrato na vida pública, no vazio de uma concreta centralidade da política representativa no espaço social.

Na Antiguidade, a ética dizia respeito à virtude regida pela Polis, portanto, aos padrões coletivos de excelência humana (o "Bem") necessários à boa cidadania. Ética é aí algo concreto, comprometido com idéias e fins ? diferente, portanto, do que está implicado na abstração do juízo moral na Modernidade.

Desde Kant, eixo teórico da ética moderna, sabemos que ao juízo moral interessa tão-só a conduta socialmente apropriada, no limite indiferente às idéias, aos fins, à política. Os valores de natureza política têm a ver com a esfera do que é público ou comum a todos, enquanto que os valores definidos pelos juízos morais dizem respeito à esfera da consciência e das relações privadas. Assim é que, na modernidade, a subjetividade moral corresponde historicamente a um novo modo de vinculação humana, baseado no atomismo dos direitos e na sua reunificação pela vontade política.

Esse tipo de juízo tem prevalência sobre qualquer outro horizonte ético-político, o que explica em parte a sua adequação à ordem social contemporânea, regida pelo universalismo dos direitos individuais e pelo imperativo de se otimizar a produção e o consumo em detrimento de outros fins humanos.

De fato, a sociedade contemporânea determina e integra a sua prática relacional por meio da escolha individualista quanto a comportamentos e modos de pensar. Moral é um nome historicamente consolidado para a expressão básica e determinante do julgamento sobre o que, em ações e pensamentos, é bom ou mau. Apresenta-se, assim, como um paradigma de regras e pontos de vista ou como um conjunto sistemático de normas do foro interior, com o qual se identificam grupos e indivíduos em seus diversos processos de socialização.

O que há mesmo na vida prática, porém, é uma diversidade de "morais" ou moralidades, isto é, de conjuntos de regras de ação e conduta assumidos por diferentes estratos sociais, ou então de códigos deontológicos atuantes no âmbito corporativo/empresarial. Em termos mais claros, na diferenciação típica da moderna sociedade secular, um grupo específico pode ter como base de sua identificação qualitativa um paradigma de valores rejeitado por outro grupo. Como não existe consenso absoluto sobre o julgamento moral, impõe-se (apesar da discordância de Kant quanto a este ponto) o direito ou a legalidade.

Mas a obrigação moral permanece latente, representando uma interpelação anônima ou coletiva à consciência do sujeito social. É sempre a palavra de um outro que se impõe. Pode ser veiculada por qualquer instância, mas sua força costuma partir, na modernidade, da institucionalização da experiência religiosa (ainda quando esta se apresenta podada de vínculos com o sagrado) ou mesmo da palavra daqueles que se autorizam como porta-vozes de estruturas imutáveis e intemporais.

A força do profético ou do pára-institucional ? presente nesses discursos, que pretendem refletir a vontade de Deus ou de um Absoluto ? está sempre ligada a uma moral. Calvino, o reformador, impunha-se moralmente como "a boca de Deus" e competia em influência político-social com os poderes institucionais.

O discurso profético-religioso com força moral transmuta-se eventualmente em revolta, política e, na contemporaneidade, em ethos ou atmosfera emocional dos meios de comunicação. A midiatização da sociedade propicia uma circularidade de natureza moral, fundamentada pela tecnologia e pelo mercado.

Nesta configuração circular, encontra-se a diferença entre a profecia antiga e a nova, midiática: enquanto a antiga referia-se a uma "outra" coisa, a exemplo do vaticínio de um evento futuro, a midiática fala autoprofeticamente de si mesma, procurando deixar claro que o futuro já chegou e que o reino dos céus está ao alcance do desejo de qualquer consumidor. Consumo e moralidade passam a equivaler-se.

Não se trata mais, portanto, da moral repressiva que impunha, nos termos freudianos, "grandes sacrifícios" à sexualidade e aos anseios de liberdade individual, e sim, agora, de uma moralidade adulatória, exaltiva do desejo individual, para capturá-lo em nome da qualificação existencial orientada pelo mercado. Chamar a atenção, atrair e manter sobre si mesmo o olhar do outro converte-se em valor moral.

Em suma, a mídia é hoje, apesar de todos os seus pesares, produtora de juízos morais. Uma sociedade, como a nossa, que vive uma profunda crise ética ? crise de valores, decorrente da ausência de projeto político nacional ou de pacto coletivo ?, e que não conta com fortes mediações sociais, é terreno propício para o florescimento perverso de "moralidades". Mídia, evangelismo e retornos do recalcado aproveitam para dar-se as mãos.

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ.

    
    
                     

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