Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > PODER E LOBBY

A corda e a caçamba

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

PODER E LOBBY

Chico Bruno (*)

Existem dois assuntos que têm correlação entre si, estão escancarados aos nossos olhos e são pouco explorados pela imprensa. Trata-se do domínio dos meios de comunicação pelos políticos, principalmente no Norte/Nordeste, e a convivência promíscua entre lobistas e os poderes públicos de todas as esferas. Um é a corda, o outro é a caçamba.

Já tratei de ambos, aqui no Observatório da Imprensa [ver remissão abaixo]. Na época perguntei por que esses assuntos não despertam o interesse da mídia. Seriamente tratados, podem apontar os caminhos da corrupção, os ralos por onde escorre o dinheiro do contribuinte brasileiro. No caso dos políticos proprietários de meios de comunicação, basta procurar saber como conseguem recursos para lançar jornais, emissoras de televisão ou rádio, até redes e sistemas de comunicação que hoje possuem. Os Mesquita, os Frias, os Marinho e outros empresários da mídia podem informar os custos de tais empreendimentos, prestando um grande serviço ao jornalismo e ao povo brasileiro, pois a partir daí poderíamos saber quem tinha cacife para tais empreitadas num passado não muito distante.

A Veja, por sinal, há um ano e meio iniciou a campanha Jader afirmando que o senador construiu um império jornalístico no Pará. Infelizmente não avançou, não procurou saber como isso foi possível e quanto custou ao senador. No caso da concessão fornecida pelo governo para a instalação de emissoras de rádio e televisão, temos consciência de que é o mais fácil e barato de todo o processo. O difícil é arranjar o dinheiro para colocar em funcionamento as emissoras. No caso dos jornais diários o problema é o grande investimento de longo prazo do retorno do dinheiro empregado.


Império do troco

Como se explica que políticos que não nasceram em berço de ouro tenham cacife para construir grandes impérios regionais de comunicação? Afinal, esses políticos sempre exerceram cargos públicos com salários transparentes que, sabemos, não permitem nem comprar o terreno onde estão implantados os jornais ou as emissoras de rádio e TV. Vale lembrar que Roberto Marinho, ao conseguir a concessão da TV Globo, nos anos 60, precisou se aliar ao grupo americano Time-Life para inaugurar a emissora carioca.

A Folha de S. Paulo, na edição de 6 de agosto, publicou reportagem de Elvira Lobato que constata: 24% das emissoras de televisão aberta do país estão em poder de políticos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. No dia seguinte publicou editorial sobre o assunto, mas se deteve apenas no clientelismo das concessões, não tocou nos investimentos necessários, que a meu ver são o calcanhar de aquiles da questão. É certo que a publicação da matéria já é um avanço, mas é preciso aprofundar mais ainda a questão.

No primeiro parágrafo disse que os assuntos têm correlação. Se a imprensa mergulhar nas investigações vai com certeza chegar aos lobistas que pululam em torno do poder em todos os níveis governamentais, e confirmar o que a grande maioria dos jornalistas desconfia ou tem certeza: esses impérios de comunicação são erguidos a partir dos trocos que alguns políticos recebem em troca dos favores que praticam com o dinheiro do contribuinte.

Aliás, no mesmo dia 6 de agosto, o JB publicou matéria assinada por Gustavo Krieger e André Barreto, com colaboração de Luciano Pires, sobre os lobistas brasilienses. Uma matéria que poderia ser mais didática, para que o leitor do JB soubesse com clareza o que é e o que faz um lobista. A matéria acentua o folclore que existe e esconde os verdadeiros objetivos dessas figurinhas carimbadas, como o personagem que abre a matéria, jornalista alagoano que durante muitos anos militou na imprensa pernambucana e ocupou vários cargos públicos no Nordeste, um deles como presidente da Comissão de Turismo Integrado do Nordeste, que congrega as empresas públicas de turismo da região.


Dois afluentes

Na verdade, o que eles mais fazem é intermediar verbas públicas, conhecidas como "verbas carimbadas", em troca de comissões que variam, conforme o montante do convênio. Na verdade, não existe muita diferença entre os lobistas e o falecido Paulo César Farias. Aliás, desde a CPI do Collor que nos ficaram devendo os nomes dos corruptores daquele episódio, até hoje cobrados, de vez em quando, pelo Boris Casoy.

Quem também tocou na questão dos lobistas foi Alexandre Garcia, no Bom Dia Brasil. Comentando o calvário de Jader Barbalho, encerrou: "Os comedores de propinas e de gordas comissões não perdem por esperar, afinal Jader esperou 17 anos, a vez deles está próxima." Ao que parece, finalmente, a imprensa vai pegar no pé do maior cancro que existe na política, a intermediação de verbas públicas.

Os políticos e os lobistas estão um para o outro como a corda está para a caçamba. Os dois são afluentes e deságuam num mesmo estuário, como o Negro e o Solimões deságuam no Amazonas. Se a grande imprensa tiver determinação, teremos, finalmente, desvendado dois mistérios que intrigam a opinião pública brasileira: como políticos que não nasceram em berço de ouro conseguem construir impérios de comunicação e quem são os grandes corruptores da política brasileira.

(*) Jornalista




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