Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / MÁRCIA DENSER

"A covardia é generalizada"

Por Deonísio da Silva em 27/06/2001 na edição 127

ENTREVISTA / MÁRCIA DENSER

Hoje já se pode anunciar uma peça de teatro como Monólogos da Vagina, mas não se pode descuidar de quem precedeu tais ousadias, conquistadas durante embate contra a censura e a repressão nos tormentosos anos pós-64. A mulher, até então mais confinada a ser personagem do que autora, com algumas exceções, teve vez e voz também na literatura. E entre as mais ousadas estava Márcia Denser, que estreou na segunda metade da década de 1970 com o livro de contos Tango Fantasma, em que uma personagem comum a todos os contos, Madalena, servia de referência às outras narrativas.

Nos livros seguintes, como Animal dos Motéis e Diana Caçadora, Márcia consolidava sua contribuição inovadora à literatura brasileira ? seja no léxico, seja nas tramas ? num texto marcado por ousadias temáticas e esmerado cuidado com a linguagem. O crítico Antônio Hohlfeldt, dos mais atentos à geração de contistas que literalmente explodiu depois de célebre encontro no Teatro Casa Grande, no Rio, em 1975, anunciou: "Em construção, ainda, obviamente, a obra de Márcia Denser deverá ocupar futuramente um lugar de destaque em nossa literatura, construindo seu próprio espaço, assumindo seu próprio vocabulário, revertendo ao leitor uma imagem eminentemente antimachista e portanto antidominadora, não apenas da mulher como do próprio homem".

Inconformada com o apagão geral que se seguiu ao novo nas livrarias, na imprensa e na universidade, três instâncias onde mais se têm exercido as exclusões, Márcia Denser expõe suas inquietações nesta entrevista ao Observatório da Imprensa.

Quem fizer um mapa da literatura brasileira contemporânea e deixar de registrar seu nome e seus livros estará cometendo não apenas uma injustiça, mas confessando sua ignorância. Foi difícil sua inclusão no cânone? Quais foram os principais atrapalhos de sua estréia?

? Na realidade não tive quase nada. Acho que era a escritora certa com a mensagem certa, na hora e lugar certo. Certo vírgula, se não fosse a revista Escrita (outra revista certa, etc) que lançou muita gente boa na época, você inclusive, Aguinaldo Silva, Caio Fernando Abreu, Roberto Drummond, Márcio Souza. Sou escritora da geração rigorosamente de 80, a dos roteiros do corpo, como bem disse e escreveu Ítalo Moriconi. E a academia, em fins de 70/80, também estava atenta a nós. Nelly Novaes Coelho sacou logo minha literatura e deu força e ?ousou? manifestar-se muito criativamente a respeito. Mas no fundo são os pares os que realmente nos reconhecem. A comunidade literária, enfim.

Você sempre procurou o novo na literatura brasileira, não apenas para você mesma, mas também o novo que surgia ao lado, de que são exemplos os diversos comentários e registros que fez de livros de novos autores na imprensa. Estou aqui lembrando sua atuação na revista Nova, na década de 1970, chamando atenção para novos escritores. O leitor ainda encontra na imprensa de hoje esses avisos de “romancista ao norte, contista ao sul, poeta a bombordo, ensaísta a estibordo”?

? Sim. Quando escrevia a "Nova lê livros" estava interessada na Grande Arte, na Grande Literatura Experimental que se fazia na época. Você surgiu lá do sul, como do sul vieram Tânia Faillace, Caio Fernando, Moacyr Scliar; a Escrita reabilitou o Dyonélio Machado (lembram-se?) sem contar Lya Luft já entrando os 80. Esstes nomes só da turma do sul, e todos ficaram efetivamente. Ou não?

Ficaram, sim. E os que não morreram, como o nosso querido Caio, estão aí escrevendo. Você renovou nossa prosa com temas tidos por inconvenientes, como as sexualidades, de que são exemplos as narrativas de "Diana Caçadora" e "O animal dos motéis". Nesses livros você buscou intencionalmente espelhar a nova mulher brasileira que surgiu nos anos pós-64 ou tratou-se de graça alcançada?

? Essa mulher era eu mesma porém ? pasmem! ? sem precisa consciência disso, era gás puro! Fui uma espécie de zeitgeinst falante (ou escrevente) que é quando se encarna o "espírito de época", eu e minhas personagens cínicas, debochadas, românticas, malucas. Bons tempos…

Feira vai, feira vem, nossos editores e agentes limitam-se a importar autores, quase sempre das mesmas procedências, com predomínio dos EUA e Europa. Por que não é feito o caminho de mão dupla? Nós não temos uma literatura de exportação? Nós não sabemos escrever? Nós estamos dessintonizados do mundo?

? Claro que sabemos escrever, mas o que faz sucesso aqui e agora não atravessa fronteiras, não resiste à tradução (afinal americanos e europeus são exigentíssimos quanto à qualidade), tipo literatura de baixa qualidade, baixa literatura de auto-ajuda, ensaio de "ocasião", biografia de "encomenda para inglês não ver", são bobagens que de fato nunca serão traduzidas, é óbvio ? mas como a nossa melhor ficção experimental não vende, vende pouco, os agentes internacionais também não compram pois tal ficção "não vende no país de origem". É um círculo vicioso. Nelsinho de Oliveira diz que em 80 nós vendíamos, imagine…

Às vezes chego a pensar que a ditadura militar soube, por ínvios caminhos, reconhecer o autor nacional. Afinal, encontrou tantos para perseguir e proibir, por mais distantes que estivessem dos grandes centros. Por que as instâncias de reconhecimento, como escolas, universidades e crítica demoram tanto a fazer o que a censura fez num átimo?

? Ah, sim a ditadura. Outro dia um colega da pós-graduação perguntou-me (no bom sentido) se eu e o Caio Fernando (se fosse vivo) não nos sentiríamos uns dinossauros, e eu respondi, bom, médio, mas fomos os últimos dragões, certo? Com toda aquela mitologia que povoou a imaginação dos novos autores… O fato é que hoje ninguém polemiza nem põe a cara pra bater. A covardia é generalizada.

O cinema, a televisão, a música e o teatro jamais se arrependeram de recorrer à literatura brasileira. Conseguiram quase sempre, nas raras vezes em que buscaram nossas letras, conciliar sucesso de crítica e público. Até Clarice Lispector, tida por autora difícil e complexa, teve boa adaptação no cinema. Por que, então, bebem tão poucos dessas novas águas?

? Hoje bebem diferente. Há autores advindos mesmo dos veículos, vide Patrícia Melo, Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Roberto Torero (Mário Prata, o pai-de-todos). Não sei até que ponto isso dá certo com a grande ficção, quero dizer, escrever em sentido inverso, da televisão ou do cinema para a literatura. A moçada chega sem humildade nem saco para o árduo aprendizado de dor que é realmente escrever, pois a diferença entre o que está bem escrito e a verdadeira arte é sutil mas imensurável. E tenho dito.

O Brasil tem cerca de 1.200 editoras e 900 pontos de venda de livros. Somos o segundo mercado editorial das Américas, perdendo apenas para os EUA. Já ultrapassamos o México e o Canadá. Por que, então, nossas tiragens hoje têm a metade das tiragens dos anos de 1970? A falha é dos escritores?

? É. Sobretudo dos escritores que aceitam qualquer negócio do editor para publicar e ficar famoso. Falha do escritor e do editor, já deviam ter notado isso. Não aceito ser "monitorada" pelo editor, não escrevo romance de encomenda, pois dá no que dá, não vende. Chuchu é criação de enxerto, não de raiz.

Quais seus temas preferenciais? Você acha que a sua literatura tem ligações perigosas com a sociedade em que você vive? Em que medida você está expressando os grandes dilemas?

? Sempre e sempre só temos dois grandes temas: amor e morte. Segundo Faulkner, se Sheakspeare e Homero fossem continuamente reeditados nada precisaríamos escrever pois tudo foi dito por esses dois. Mas o problema é como fazê-lo ? mudam os tempos, mudam suas formas, mas o que não muda é a virtude imortal do amor e da morte.

Você concorda que o Modernismo é um cadáver insepulto em nossas universidades e só se fala nele? Teses, ensaios, referências… Parece que ninguém escreveu mais nada relevante depois dos anos 20. Não escrevemos ou não estamos sendo lidos? Por quê?

? Sim, o Modernismo é um cadáver insepulto. Por mais que eu adore Oswald, Rosa, CHEGA!!! Recriou-se e redisse-se muita coisa após todos eles, mas os caras insistem em se apegar a idéias mortas, até porque idéias vivas têm valor e substância, de modeo que não é preciso que ninguém se apegue a elas. Uma literatura se faz com sangue e ideais ? duas coisas que hoje os jovens ignoram ?, de forma que uma grande literatura hoje, aqui e agora, não tem condições objetivas de ser feita. Sem utopia, sem ideais, só por autopromoção, só para sair na mídia ninguém vira gênio, prêmio Nobel. Não, jamais, sorry!

    
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