Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > TEMPOS MODERNOS

A crise tem nome

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

TEMPOS MODERNOS

Luciano Martins Costa (*)

A imprensa sempre teve três funções, sobre as quais se faz modernamente a análise de potenciais e resultados de cada título e das empresas de comunicação, de um modo geral. Em alguns casos, a função utilitária, de divulgação de comunicados de interesse público, editais e guias, deu origem a jornais. Em outros casos, foi a função de entretenimento, por meio das sátiras, que conduziu à popularização e marcou um tipo especial de imprensa. Mas foi sempre na função de educação que se consolidou a credibilidade, fator essencial à permanência da imprensa como instituição.

Os anos 1980 marcaram, no Brasil, o crescimento associado das funções de entretenimento e utilidade dos jornais, principalmente a partir do "Projeto Folha", e esse modelo, copiado por absolutamente toda a imprensa brasileira ? exceção brilhante do Correio Braziliense ?, está na raiz da crise sem fim que enfrentamos. Lembro dos debates intermináveis com os entusiastas do jornalismo fashion, que pressupunha um certo distanciamento apolítico como ângulo de abordagem para todos os temas.

Era tido como obsoleto o jornalismo com preocupação social expressa, qualificado de "impressionista" pela nova visão que se impunha, auto-intitulada "pós-moderna". Lembro-me de uma discussão sobre como quantificar a massa de manifestantes que se reuniria na Praça da Sé naqueles dias. O jornal não poderia ficar à mercê dos militantes ou dos estatísticos da Polícia Militar, e brilhou a proposta de medir a praça, calcular quantas pessoas caberiam em cada metro quadrado e, por aí, chegar-se a um número fiel e inquestionável. Ponderei que as muitas variáveis, como densidades, movimentos de núcleos organizados, ajuntamentos e dispersões, colocariam sob risco a precisão pretendida. E sugeri que, se somássemos o total de orelhas e dividíssemos o resultado por dois, teríamos um número mais próximo da realidade. Era minha homenagem aos impressionistas.

Novos modelos

A negação do teor político dos eventos conduziu a uma geração de cínicos. A obsessão pela precisão em meio à imponderabilidade colocou a imprensa no rumo das manipulações, que se manifestam nos rankings de todo tipo, sempre questionados, na mania dos recordes e no vício sazonal do noticiário eleitoral. A mania dos guias ? sempre úteis ? produziu um efeito colateral: se qualquer pessoa alfabetizada pode digitar o roteiro de filmes, por que pagar salário de jornalista? Daí surgiu o debate sobre a obrigatoriedade do diploma, do qual sempre me neguei a participar por causa da pouca nobreza de suas origens. Trata-se de um problema de custos, nunca de liberdade de expressão, como querem fazer crer e como parecem acreditar alguns juristas.

Em 1995, o modelo já estava esgotado e as empresas de comunicação buscavam nos brindes uma forma de ampliar a base de leitores, manter sua relevância como mídia e adiar a anunciada redução nas margens de lucro. No II Congresso Internacional de Jornalismo em Língua Portuguesa, realizado no Rio, a tese do jornal como instituição híbrida chegou a entusiasmar alguns gestores, pela possibilidade de transferir aos brindes o benefício de isenções de que gozam os periódicos. Num dos grupos de estudo, mostrei uma sacola de supermercado e perguntei: se houvesse aqui uma manchete, duas fotos, e no outro lado o horóscopo e um editorial, isto seria uma sacola ou seria mídia?

A tese não colou, mas persiste ainda hoje a estratégia de buscar proteção nos privilégios fiscais, para suprir as deficiências de gestão que têm sua origem na negação do princípio criador da imprensa. Jornalismo, definitivamente, não é um negócio de comunicação. É um negócio de educação, no sentido que se pode dar a uma instituição que surgiu para orientar o processo civilizatório, para auscultar a sociedade e dar repercussão aos paradigmas fundadores de diversidade, tolerância e desenvolvimento de modelos mentais progressistas e ampliadores de consciência. Ao fugir dessa responsabilidade, a imprensa abdica de sua alma, torna-se refém do mercado e perde progressivamente credibilidade e relevância.

A imprensa precisa ser reinventada a partir de uma nova visão de seu papel social. Precisa se apoiar em outras organizações de negócio e instituições que também perdem com o esboroamento dos paradigmas da sociedade democrática e liderar a busca de novos modelos econômicos, políticos e sociais. Ou a imprensa está na vanguarda desse processo ou é um negócio como qualquer boteco.

(*) Jornalista

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