Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURAS DE VEJA

A dama da sucessão e o astro da largada

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

LEITURAS DE VEJA

Alexander Goulart (*)

O título deste artigo é a junção de dois outros títulos editados pela revista Veja em anos diferentes. O primeiro refere-se à edição de 14 de novembro de 2001, cuja capa foi dedicada ao "Fenômeno Roseana ? os bastidores da campanha que levou a governadora do Maranhão ao segundo lugar nas pesquisas"; já o segundo é da edição de 17 de maio de 1989, cuja capa trazia as seguintes indagações: "Collor, quem é, o que quer e por que está agitando a sucessão".

As aberturas das matérias de capa também são muito parecidas. A edição sobre Roseana diz: "A dama da sucessão ? Filha de ex-presidente, com saúde frágil e um governo bem avaliado, Roseana Sarney vira a estrela da corrida para o Planalto ao assumir o segundo lugar nas pesquisas eleitorais." A edição sobre Collor diz: "O astro da largada ? com a popularidade de caçador de marajás e o prestígio de inimigo do presidente Sarney, Fernando Collor dispara nas pesquisas de opinião." Se quisermos voltar um pouco mais no tempo, existe uma outra edição (23/5/88) de Veja trazendo Collor na capa: "Collor de Mello, o caçador de marajás." O olho da matéria exaltava: "No seu papel de caçador de marajás, o alagoano Fernando Collor de Mello torna-se um dos governadores mais populares do país."

Não se quer aqui fazer comparações entre Collor e Roseana, mas identificar o que há de comum na construção da imagem política. Vejamos alguns trechos das matérias de Veja que ilustram muito bem a semelhança entre os dois fenômenos:


(Veja, 23/3/88) "…Fernando Collor de Mello, 38 anos, sem assinar uma única grande obra em seu estado, conquistou a simpatia dos alagoanos e popularidade no Brasil inteiro num fenômeno tão curioso quanto inesperado. À frente do segundo menor estado brasileiro, Fernando Collor figura hoje entre os governadores mais festejados do país…"

(Veja, 14/11/01) "Ela tinha tudo para não emplacar no time das estrelas nacionais. É filha de uma oligarquia que há mais de três décadas manda num dos estados mais atrasados e pobres do Brasil… sua carreira política começou há apenas onze anos, quando já beirava os 40, enfrentou eleições pelo PFL, um dos partidos menos populares do país, mas Roseana Sarney Murad é o fenômeno da temporada."


Como se dá a construção desses fenômenos? Dois governadores desconhecidos nacionalmente conquistam as massas um ano antes das eleições presidenciais. Eles não apresentam projetos, são amados e odiados em seus estados, governam alternando atos conservadores e progressistas, investem verbas públicas nos veículos de comunicação de suas famílias, não têm grande biografia política, são acusados de irregularidades em seus governos e mesmo assim reúnem mais intenções de votos do que políticos de tradição histórica.

No caso de Collor, sua tática de se tornar conhecido nacionalmente como "O caçador de marajás" foi a faísca responsável pelo incêndio que se seguiu logo depois. A mídia caiu direitinho na armação, mesmo com todas as acusações de irregularidades no governo de Alagoas. Nada disso era importante diante da imagem de "Indiana Collor", como bem referiu o então presidente dos EUA, George Bush (o pai). Um trecho da matéria de Veja em 1988 ilustra bem esse entusiasmo da mídia:


Esse senhor, herdeiro de boa fortuna e mimado pelo ambiente aconchegante de uma família endinheirada, tinha tudo para avançar pela vida como um desses eternos garotões de praia e de vida noturna. Em vez disso, acabou combatendo marajás, desafiando a aristocracia dos usineiros alagoanos e prometendo passar a limpo a tradição de violência em seu Estado."


O leitor que quiser se divertir ou chorar, deveria ler essa edição de Veja, na qual, na foto de capa, Collor aparece diante do quadro de Deodoro da Fonseca, comparado ao militar, com direito a seguinte afirmação:


"Deodoro foi o primeiro presidente da República e era alagoano. Eu também serei presidente como ele."


Mas Veja até então não acreditava totalmente na possibilidade de o governador chegar à Presidência:


"Nada impede que um governador de estado sonhe com a Presidência, mesmo que esse estado seja muito pequeno e o pretendente exiba uma biografia sem o lastro usual nessas postulações."


O ex-governador de Alagoas, Suruagy, foi mais lúcido:

"Collor é a maior farsa montada no Brasil, não passa de um fruto da mídia eletrônica."

A edição de 1989 já não foi tão inocente. Veja foi além da propaganda criada pela "República de Alagoas", mostrando que Collor não era uma unanimidade e que havia muitas desconfianças sobre sua honestidade. Nesta edição, a revista exibiu alguns comentários de políticos sobre o candidato:


"Ele não é um candidato, é um videoclipe." José Thomaz Nonô;

"Esse troço de Collor está uma doença." Borges da Silveira;

"Ele é um produto artificial, que não diz o que pretende, mas o que lê nas pesquisas." José da Costa;

"O problema é que Collor não passa de uma farsa." Teotônio Vilela Filho.


Hoje, parece que Veja toma mais cuidado com o que diz. A matéria sobre Roseana mantém certa empolgação com a governadora, mas alerta para os processos envolvendo irregularidades na administração do estado. A reportagem é sutil sobre as confusões administrativas do Executivo do Maranhão, mas deixa uma boa brecha para que outros veículos ou quem sabe o próprio Ministério Público esclareça as suspeitas. Vale lembrar aqui uma frase de Collor sobre Roseana e Jorge Murad, em 1992: "A musa do impeachment e seu ex-marido não resistem a uma investigação de dez minutos da Receita Federal."

Contudo, a frase mais significativa e importante desta edição é a seguinte:


"Com um marketing imbatível, Roseana Sarney sobe nas pesquisas sem prometer nada. Bastou explorar sua fina estampa."


Que esse fenômeno é pura propaganda não há dúvida, mas ainda é necessário ampliar a discussão acerca dessa fórmula nem tão nova de se construir um candidato a partir da imagem.

O ano eleitoral se aproxima e o eleitor deve estar atento para o que vê na televisão. Também a mídia deve estar de olhos bem abertos para os processos de manipulação da imagem. A televisão alterou o discurso político, e as propagandas políticas seguem como base o entretenimento. Hoje, a técnica de se vender um candidato através da tela da televisão é imbatível, não importando quais sejam suas idéias ou partido político. A ênfase da campanha política centrada num indivíduo em vez de no programa de ação do partido põe em perigo o sistema democrático, conforme afirma Raymond Strother: "Em certas circunstâncias, é possível eleger verdadeiros fantoches."

No livro "Vende-se política", o autor, Lawrence Rees, afirma que "a televisão projeta o mito do líder, e não é interessante que ele fale diretamente com a câmera, mas que fale apenas quando não estiver prometendo alguma coisa e, em seguida, seja filmado em ação numa variedade de situações controladas, utilizando o comentário para listar suas realizações ou características. Os consultores políticos e publicitários criam e manipulam a imagem dos políticos e, com o uso principalmente da televisão, conseguem transformar política num negócio em que a imagem é o produto principal, o dinheiro é o motor de tudo e as idéias deixam de ter importância."

O programa televisivo do PFL, em que Roseana aparece sorridente em situações simpáticas, segue rigorosamente as características da pós-política, em que, conforme Nestor Canclini, "age-se como se não houvesse conflitos, tem-se a impressão de que não é necessário negociar, apenas se fotografa, se filma, se televisiona e se consome essas imagens. Nada de discursos intelectuais, nem de confrontos diretos, imprevisíveis, com tensões sociais".

O que temos visto na televisão é a vontade que o político tem de não se parecer com um político.

(*) Jornalista em Porto Alegre

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