Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > IMPRENSA E RISCO-PAÍS

A dependência e a subserviência

Por lgarcia em 21/10/2003 na edição 247

IMPRENSA E RISCO-PAÍS

Marcelo Salles (*)

Folha de S.Paulo e O Globo são jornais incrivelmente prepotentes. Acreditam que suas versões dos fatos são absolutamente verdadeiras e definitivas. É claro que existem outros jornais desse tipo. Cito apenas esses dois por serem os mais vendidos.

Na quinta-feira (9/10), a Folha apareceu com um quadro na página B1 em que se propunha a explicar o que é o risco-país:


"Quando um país é considerado emergente no mercado internacional é porque existe um risco de que ele não venha a pagar sua dívida. Essa desconfiança é medida pela taxa de risco: quanto maior ela for, mais alta é a percepção de que o país não vá honrar seus compromissos. Então, para correrem o ?risco? de aplicar num emergente, os investidores exigem o pagamento de uma taxa de juros maior, determinada pela taxa de risco medida pelo mercado. A base para comparação são os T-Bonds, papéis do Tesouro dos EUA, considerados de risco zero. A diferença entre o que os EUA pagam e o que um país paga é a taxa de risco".


O Globo, vez por outra, aparece com quadro semelhante. A questão toda gira em torno da credibilidade. Ela é conseguida pela forma agradável com a qual o jornal se apresenta ao leitor, aliada a uma linguagem que serve para conferir sensação de veracidade ao texto. A Folha faz isso muito bem. No entanto, podemos verificar que na maioria dos casos esse esquema não passa de puro sofismo. A questão do risco-país é um bom exemplo disso, em que forma e conteúdo estão sendo usados para veicular falsa verdade. Folha de S. Paulo e O Globo, que pretendem explicar tudo a seus leitores, não explicam o que é, por exemplo, "mercado". E sem entender a principal variável de uma equação não é possível entender o processo como um todo. Sem entender o processo como um todo está-se condenado à eterna subserviência.

Veja esse destaque: "Quando um país é considerado emergente no mercado internacional é porque existe um risco de que ele não venha a pagar sua dívida". O que é mercado internacional? Quem o regula? Quais são os grupos que lucram bilhões com esse tal mercado? Por que e para que (ou para quem) ele existe? Quais são os interesses envolvidos? Essas são as perguntas que deveriam ser esclarecidas.

Dependência externa

Além disso, O Globo e Folha se transformam em meros porta-vozes desse mercado, a partir do momento em que simplesmente reproduzem suas definições sobre risco-país. Sustentam a idéia de que o risco de um país não pagar sua dívida advém de uma questão econômica, quando na verdade trata-se de uma questão política. O recente calote da Argentina é o melhor exemplo disso. Néstor Kirchner não decidiu parar de pagar ao FMI porque seu país estava sem dinheiro. Ele o fez por uma decisão política; priorizou outros setores em detrimento dos especuladores.

A todo instante ameaçam: "O Brasil pode quebrar se não obedecer aos fundamentos econômicos". Não é difícil perceber que é o "mercado" quem ordena tais manchetes. E a mídia apenas as reproduz. Assim, eles conseguem ter o país na mão. Dominam a política para dominar a economia. Usam a mídia. Manipulam as idéias conforme lhes convêm. São sofistas profissionais.

O risco que o Brasil tem de quebrar não existe em outro lugar senão nas palavras e imagens vendidas à população. Deveriam explicar que o verdadeiro risco-país reside na dependência externa. Mas isso eles não explicam, estimulam.

(*) Estudante de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense

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