Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > EM GUERRA

A difusão do espírito de revanche

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

EM GUERRA

Antônio Ribeiro de Almeida Jr. (*)

A guerra foi e ainda é um modo de resolver impasses entre nações. O vencedor podia e ainda pode impor condições que a negociação não consegue estabelecer. Ao menos para um dos lados, a guerra representava e ainda representa um ganho substancial. Porém, novos fatos ocorreram. Hoje, mesmo para os vencedores, os riscos envolvidos na guerra são extremamente elevados. Em vez de seqüestrar um avião, um suicida poderia passar por um local onde alguém está morrendo com ebola ou antrax (doenças facilmente transmissíveis e que matam mais de 95% dos contaminados) e depois visitar seus inimigos. Ou bombardear uma usina nuclear.

Muitos choraram as mortes em Nova York. A grande mídia sabe provocar nossos sentimentos humanos quando isto lhe convêm. Não apenas nosso luto, mas também nossa raiva contra os "árabes", mostrando e repetindo cenas de comemoração pelos ataques em Nova York. Não mostrou as comemorações de brasileiros, europeus e americanos, mas as de "árabes". Nem lembrou as comemorações no Ocidente quando os ataques ao Iraque começaram. Também não disse que aqueles que comemoraram constituíam ínfimas minorias e eram politicamente imaturos.

Com o que conhecemos da grande mídia, podemos prever que a tragédia que se abaterá sobre o Afeganistão será pouco vista e o sofrimento de seu povo não será muito valorizado. Provavelmente, a grande mídia desculpará os ataques ou reduzirá suas dimensões, como ela fez durante as guerras do Golfo e de Kosovo. Como afirma o dito popular, o que os olhos não vêem o coração não sente. Assim, este lado do mundo chorará menos pelas vítimas inocentes do Afeganistão do que chorou pelas de Nova York. Mas, quem terá coragem de afirmar que a vida dos afegãos vale menos que a dos americanos?

A grande mídia é cúmplice importante das mortes que encobre ou justifica. Ela também é cúmplice das mortes que estimula ao incitar um clima de guerra e de revanche. Ela é responsável direta pelo aumento da violência internacional. Do mesmo modo que tem enorme responsabilidade no encobrimento e na justificação das atrocidades domésticas. A grande mídia precisa repensar sua subserviência aos donos do poder e tornar sua voz mais democrática, mais plural. Ela tem papel imprescindível na construção de relações internacionais e internas mais justas e pacíficas.

A grande mídia é um armamento dos mais poderosos. Mas, como os porta-aviões, é um armamento do passado. Pode levar-nos a novas guerras, mas será incapaz de vencê-las. Estas novas guerras serão travadas com armas de outra geração. Armas aterrorizantes que não devem ser empregadas. Por isto, é preciso abolir a guerra. A guerra é obsoleta.

(*) Professor da Esalq ? USP <almeidaj@esalq.usp.Br>

    
    
              

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