Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > 4.

A educação e o Estado mínimo

Por lgarcia em 26/08/2003 na edição 239

PANORAMA DA AVALIAÇÃO

Victor Gentilli

O tema do suposto excesso de cursos de Jornalismo no Brasil sempre reaparece. Às vezes, até mesmo com a agregação de uma proposta, aparentemente tentadora, de impedir a criação de novos cursos.

Os números nunca são precisos. Nem todos os cursos de Comunicação oferecem formação em Jornalismo. Apenas os cursos que já têm alunos concluintes fazem o Provão. Como as universidades e os centros universitários têm autonomia para criar cursos (que só constarão de estatísticas oficiais quando seus alunos começarem a fazer o Provão), a rigor ninguém sabe quantos cursos de Jornalismo temos no Brasil.

A questão do número é secundária. Primeiro, porque a pressão por ensino superior tende a crescer, particularmente no Brasil, onde a meta oficial é colocar 30% dos jovens entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior até 2010. Aí os médicos e outros corporativos ficam limitando os cursos de medicina e outros. E ninguém percebe que o número de cursos de Administração, Letras, Pedagogia, Direito e similares são os que mais crescem? Necessitam apenas salas de aulas e de professores ? são baratinhos.

Mas a questão da qualidade é fundamental. E é nela que estamos, surpreendentemente, no pior dos mundos. O governo anuncia que o Provão vai continuar, mas diferente.

Página inteira

O anúncio do "novo sistema de avaliação" do MEC, claro, vai ser comprado pela mídia a partir da quarta-feira (27/8), quando a comissão encarregada de prepará-lo fará a entrega formal ao ministro da Educação.. É pauta anunciada, sabida.

Claro também que os jornais vão ignorar as crescentes crises no MEC, no Inep e no Departamento de Avaliação do Ensino Superior (DAES), com suas freqüentes trocas de comandos. O Inep já está no segundo presidente, o DAES no quarto ? apenas neste ano da graça de 2003.

Enquanto o Estado mínimo vai se consolidando no MEC, a imprensa vai embarcando nos balões de ensaio do ministro. Ou alguém ainda se recorda que o ministro anunciou interesse em cobrar, a posteriori, mensalidades dos alunos de renda mais alta?

Os fatos continuam ignorados pela sociedade:

1. Praticamente todos os cursos superiores tradicionais estão sem renovação de reconhecimento. No caso do Jornalismo, as exceções não passam de três escolas; apenas uma por atenção estrita à legislação.

2. As avaliações das condições de ensino ? que valem como reconhecimento ? continuam simplesmente correndo atrás do tempo perdido. Ninguém mais fala nos mutirões de avaliação, ninguém se preocupa com renovações de reconhecimento. Apenas os cursos criados recentemente, com novos formandos, estão sendo avaliados cada vez com mais atraso.

3. Os critérios para reconhecimento de cursos foram revistos no final do governo passado (e se tornaram, aliás, extremamente generosos com os picaretas) e não há um único indício de que possam voltar a ser rígidos.

4. As autorizações de cursos para instituições privadas estão mais frouxas e liberais do que nunca. As comissões de especialistas, cuja rica experiência foi encerrada em julho de 2002 no mais absoluto silêncio, jamais foram sequer cogitadas pelo novo governo.

Enfim, conhece-se cada vez menos a realidade do ensino superior e o Estado vai deixando de lado suas funções. Enquanto isso, os jornais vão abrir o debate sobre o "novo provão".

A sociedade fica cada vez mais desinformada e os "empresários" de "fábricas de diplomas" e "shoppings da educação", cada vez mais agradecidos. Enquanto os anúncios de página inteira de instituições privadas nos jornais continuarem a saudar o ministro, saibam todos que continuamos no pior dos mundos.

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