Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > Conclusão

A entrevista no Jornalismo Literário Avançado

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

SALA DE AULA

Pedro Celso Campos (*)


Trabalho de aproveitamento do curso de Jornalismo Literário Avançado do Programa de Pós-Graduação (Doutorado) em Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP)


Este trabalho destina-se a estudar as características da entrevista no jornalismo, com foco especial no Jornalismo Literário Avançado. A construção de perfis, as histórias de vida, as longas entrevistas para os livros-reportagem ou as matérias especiais que utilizam as técnicas narrativas do JLA exigem cuidados específicos no trato com a fonte de informação. Na verdade trata-se de estabelecer um contato mais profundo para o necessário trabalho de imersão, na prospecção do material desejado. É diferente do rápido telefonema ou bate-papo com a fonte apenas para complementar uma informação ou mesmo para uma ligeira abordagem de assunto em voga. Tratar da entrevista em profundidade é o que pretendemos nesta reflexão, tendo em vista o amplo espaço que se abre para o Jornalismo Literário Avançado em nosso país.

Introdução


Moyers: Quem interpreta a divindade inerente à natureza, para nós, hoje? Quem são nossos xamãs? Quem interpreta as coisas que não são vistas?

Campbell: Essa é a função do artista. O artista é aquele que transmite os mitos, hoje. Mas ele precisa ser um artista que compreenda a mitologia e a humanidade, e não simplesmente um sociólogo com um programa. (Entrevista de Joseph Campbell a Bill Moyers em 1985 e 1986)


Entre as definições possíveis do termo "entrevista", a explicação que mais se destaca é que se trata de um "diálogo". No jornalismo, é um diálogo voltado à produção de informação a ser publicada ou não. Pessoalmente ou por outros meios, duas pessoas se comunicam com a finalidade de produzir informação destinada a uma terceira entidade, o receptor. Do mesmo modo que são muitas as definições de "entrevista", também são inúmeras as formas de entrevistar. No entanto, é preciso levar em conta a finalidade da entrevista, mesmo no âmbito do próprio jornalismo. Fala-se do jornalismo convencional, representado pela imprensa quotidiana, e do jornalismo literário, que trabalha os fatos reais com as técnicas da literatura.

Como é próprio dos países periféricos ? seja na cultura, seja na economia, seja nos costumes ? o jornalismo literário foi importado dos EUA, onde surgiu nos anos 1920, chegando com bastante atraso ao Brasil, na verdade só depois da Segunda Guerra Mundial. O novo modo de fazer jornalismo começou a se instalar no país, através do gênero "interpretativo", em meados do século 20, e, na década de 1960, tivemos, então, bons exemplos de um jornalismo voltado para a literatura sem fugir do real, como foi o caso da revista Realidade.

Na área acadêmica o novo jornalismo passou a ser estudado com mais empenho. Afinal, ele rompia com o padrão da objetividade implantado no século 18, pelos ingleses, abrindo espaço para a criatividade, a emoção, a presença do jornalista no texto, mesmo quando ele usa a terceira pessoa em sua narrativa. A ECA-USP ofereceu uma contribuição ainda maior, através do Jornalismo Literário Avançado proposto pelo professor Edvaldo Pereira Lima, a partir de sua tese de doutoramento em 1990, ancorada na Teoria Geral de Sistemas. Levando em conta que tudo está integrado, compreenderemos que só através do aprofundamento o jornalismo poderá cumprir o seu verdadeiro e legítimo papel de colocar-se a serviço da sociedade. Esta seria a verdadeira liberdade de imprensa (e não de empresa).

O instrumento de expressão do Jornalismo Literário Avançado é a Grande Reportagem. Ela pode se materializar em cadernos jornalísticos, em revistas periódicas ou no chamado livro-reportagem. Este último é o modo mais comum, pelo menos nos EUA e na Europa, enquanto no Brasil algumas publicações periódicas já começam a financiar a produção de livros-reportagem sobre temas de grande interesse comum, como vem fazendo a revista Superinteressante.

Neste trabalho não vamos tratar da narrativa ou das formas de expressão do JLA. Escolhemos, como tema de reflexão, um elemento essencial e indispensável ao jornalismo em si: a entrevista. Vamos discutir as técnicas de entrevista, as estratégias de ação, as recomendações práticas de gravar ou não gravar e também os direitos dos entrevistados que os jornalistas devem respeitar. O Brasil ainda não tem um código próprio a respeito, mas não custa importar ? para fins de ética e cidadania, portanto para o Bem ? o código já pronto da imprensa americana, pois trata-se de preservar o respeito às pessoas, aos seres humanos, à raça humana que, no final das contas, é uma só: estamos falando da integração delineada pela Teoria Geral de Sistemas.

Procuramos, neste trabalho, ir além da entrevista jornalística em geral, tentando focar as características específicas da entrevista voltada para o jornalismo literário. Não se trata, naturalmente, de esgotar o assunto, mas a proposta é um olhar geral sobre a entrevista no jornalismo e um olhar específico no modo de entrevistar quando se trata de fazer uma biografia, um perfil, um livro-reportagem, uma abordagem mais longa, mais demorada, mais profunda. Com este objetivo estaremos observando as técnicas usadas por grandes mestres do livro-reportagem como Capote, Mitchell, Mailer, Fernando Morais, Sérgio Vilas Boas, Pereira Lima etc.

Esperamos assim contribuir, modestamente, com a divulgação e o estudo do JLA em nossas escolas de Jornalismo. Quem sabe outros colegas, tratando da narrativa e demais técnicas do JLA, ajudassem a compor um roteiro epistemológico sobre os modos de produzir o JLA, ampliando substancialmente esta contribuição para o estudo do jornalismo em nossos dias. É um projeto a ser, talvez, examinado, sob a coordenação do Prof. Dr. Edvaldo Pereira Lima.

Enquanto a idéia não se torna real, aqui vai a menor de todas as contribuições, fruto de intensa pesquisa a partir das apaixonantes aulas de JLA na ECA, neste segundo semestre de 2003, ao lado de colegas igualmente sensíveis, amigos e inesquecíveis.

Conceituação

O objeto de estudo, neste trabalho, é a entrevista jornalística. Mas a entrevista destinada a subsidiar a narrativa do Jornalismo Literário Avançado. Portanto, antes de definir "entrevista", devemos conceituar o JLA. Sabendo em que consiste essa modalidade de jornalismo, seus objetivos, seu referencial teórico, sua história, poderemos fazer um "mapa mental" bem mais claro a respeito das técnicas da entrevista voltada ao JLA. Então sim veremos os diversos tipos de entrevista e suas características. Inicialmente é bom esclarecer que não estamos tratando, aqui, de produzir matérias sobre literatura, como se faz no jornal convencional para os segundos cadernos. O Jornalismo Literário a que nos referimos é disciplina acadêmica reconhecida nos melhores centros de estudos universitários dos EUA e da Europa. Mais ainda, estamos tratando do Jornalismo Literário Avançado, uma teoria genuinamente brasileira como veremos neste trabalho. Iniciemos com a gênese do jornalismo interpretativo para compreender melhor o fenômeno.

A grande-reportagem, elaborada com recursos literários, muitas vezes na forma de livro-reportagem, surgiu nos EUA, no início dos anos 20 do século passado. Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1919, surge entre os imigrantes que tinham ido "fazer a América" uma forte demanda por notícias mais explicativas e esclarecedoras sobre o envolvimento dos países europeus no conflito. Utilizando os recursos do telégrafo, as agências de notícia, já em plena atividade, tratam de produzir matérias mais "interpretativas", mais contextualizadas, mais detalhadas, através de seus correspondentes na Europa. Toda a imprensa norte-americana passa a observar esses critérios de aprofundamento. Surge, nesse contexto, em 1923, a revista Time, toda ela voltada para o novo modo de fazer jornalismo, sempre buscando uma compreensão mais profunda da realidade. Não só da guerra, mas também dos problemas norte-americanos e do mundo. Mais tarde surgiriam publicações semelhantes (The New Yorker, nos EUA) em vários países, como Der Spiegel, na Alemanha, Cambio 16, na Espanha, L?Express, na França, L?Europeo, na Itália; Veja, no Brasil (Cf. Pereira Lima, 1995, p. 25).

Esse New Journalism norte-americano revelaria grandes nomes na primeira metade do século 20, como John Reed, Tomam Capote, Tom Wolfe, Gay Talese, Joseph Mitchell, Norman Mailer, Ernest Hemingway etc. Na América Latina destacaram-se Gabriel Garcia Marques, na Colômbia, e José Martí, em Cuba.

O Brasil só conseguiu experimentar o Novo Jornalismo, ou Jornalismo de Autor, após a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a partir de 1928 o país já contava com a revista de reportagens ilustradas O Cruzeiro, dos Diários Associados (de Assis Chateaubriand), que teve seu auge nos anos 50 e início da década seguinte, projetando nomes como David Nasser, Joel Silveira, Edmar Morel, entre outros. Na verdade, a modernização da imprensa brasileira começou em 1951, quando Pompeu de Souza, voltando dos EUA, implantou o lead no Diário Carioca, onde surgiu, também, o primeiro Manual de Redação. Logo a Tribuna da Imprensa fez sua reforma. Em 1956, Alberto Dines iniciou ampla reestruturação no Jornal do Brasil, que só terminaria nos anos 60, com a introdução de duas novidades: o Caderno Especial aos domingos, com matérias "arredondadas", e o Departamento de Pesquisa e Documentação, seguindo o modelo norte-americano e originando os atuais Institutos de Pesquisa ligados aos grandes jornais. Essas duas iniciativas contribuíram significativamente com o início do jornalismo interpretativo em nosso país. (Cf. Pereira Lima, 1995, p. 51).

As inovações de Pompeu de Souza, Alberto Dines e outros foram bem recebidas e acabaram influenciando, nos anos 60, experiências editorias de vulto, como a revista Realidade (1966) e o Jornal da Tarde (1966), que exibiram o verdadeiro potencial do jornalismo literário, no qual a qualidade do texto, a partir de intensa apuração de campo, com entrevistas em profundidade, era suficiente para manter o interesse do leitor. Nomes como José Hamilton Ribeiro, Luiz Fernando Mercadante, Domingos Meirelles, Joel Silveira, Mauro Santayana etc. honraram a imprensa brasileira com textos inesquecíveis, em que a criatividade e a capacidade de percepção da realidade revelam o traço da genialidade a serviço do melhor jornalismo. Não se tratava, como se imagina hoje, de ilustrar fartamente as matérias sob a alegação de que as pessoas "gostam de ver figura" ? como se a obrigação do jornalismo fosse competir com os recursos imagéticos da TV ou com a rapidez da internet. A técnica desse novo jornalismo era observar bem a realidade e saber escrever com emoção e criatividade, tarefa restrita apenas aos melhores repórteres, daí o nome de Jornalismo de Autor. Aquele texto capaz de prender o leitor do começo ao fim não por estar fartamente ilustrado (nada contra as ilustrações), mas por estar muito bem escrito.

Também na área editorial a segunda metade do século revelou nomes de destaque no livro-reportagem, como Fernando Morais, Zuenir Ventura, Caco Barcellos, Ruy Castro etc.

A demora da imprensa nacional para introduzir o Novo Jornalismo certamente pode ser explicada pelas condições socioeconômicas do Brasil. Estamos falando de um país que, na primeira década do século, tinha a maior parte da sua população concentrada na área rural, com elevado índice de analfabetos. É com a industrialização, no final dos anos 50, que o país inicia um acelerado e descontrolado processo de urbanização, passando a investir mais seriamente na alfabetização até chegarmos, no final do século, à obrigatoriedade legal de manter as crianças na escola básica. Naturalmente não se pode pensar o jornalismo, em suas várias manifestações e gêneros, sem pensar as condições de recepção do produto. A capacidade de evolução dos meios impressos está intimamente imbricada com o nível educacional, vale dizer, com a modernização do país. Conforme Renato Ortiz, (Cf. Ortiz, 1994, p.185), o analfabetismo atrasou o ingresso do Brasil na modernidade. O esforço dos modernistas de 1922 só alcançou resultados práticos um quarto de século depois, com a industrialização, enquanto na Europa o modernismo da década de 20 era apoiado pela expansão da sociedade industrial com efetivo progresso material e a mobilidade da vida urbana, o mesmo ocorrendo nos Estados Unidos após a quebra da bolsa em 1929. Embora "esnobado" inicialmente pelos intelectuais, o cinema americano foi o braço forte que projetou a cultura daquele país para todo o mundo, fazendo deslanchar a chamada "indústria cultural", fortemente apoiada na publicidade.

Enquanto isso, no Brasil, os índices de analfabetismo eram muito elevados, desde a virada do século, segundo dados oficiais. Em 1890, 84% da população era analfabeta; em 1920: 75%; em 1940: 57% e hoje, com tanta renda concentrada, com o país fabricando aviões na China, ainda temos cerca de 30% de analfabetos. É preciso ter isto em mente quando falamos em novas formas de narrativa jornalística. Caberia até discutir por que a universidade não se envolve mais diretamente no combate sem tréguas ao analfabetismo. Existem, no mundo, muitas sugestões a respeito. Uma delas é do professor Domenico de Masi, cujos alunos, na Universidade de Bolonha, além de um Trabalho de Conclusão de Curso também têm de comprovar a alfabetização de pelo menos 10 pessoas.

Na área acadêmica, em nosso país, o Jornalismo Literário recebeu boa acolhida junto ao Núcleo de Epistemologia da Escola de Comunicação e Artes-ECA, da Universidade de São Paulo, sob o comando da pesquisadora Cremilda Medina.

Mas foi um antigo leitor de Realidade, que também havia morado e estudado nos EUA, que não só discutiu epistemologicamente o jornalismo literário em tese de doutoramento, orientada pelo professor Gaudêncio Torquato, na ECA, em 1990, mas introduziu uma "interface" genuinamente brasileira na matéria, adaptando o conceito de Histórias de Vida e aplicando um tratamento teórico específico, através da Teoria Geral de Sistemas (formulada nos anos 20 pelo austríaco Ludwig Von Bertalanffy). Estamos falando do professor-doutor Edvaldo Pereira Lima, criador do Jornalismo Literário Avançado.

Enquanto o Jornalismo Literário trata o fato real com recursos literários, o Jornalismo Literário Avançado emprega recursos inovadores, como a Escrita Total e a História de Vida, aproveitando os pressupostos míticos da Jornada do Herói, numa abordagem transdisciplinar, complexa, integral e sistêmica da realidade. Segundo Pereira Lima, um dos diferenciais desta metodologia é trazer à tona, além dos contextos sociais e históricos, os elementos da trajetória humana que muitas vezes não estão visíveis, o que ajuda a elucidar os jogos de força que constroem cada história em particular. (Cf. Martinez, 2002).

Com vários livros publicados ? destacando-se o clássico Páginas Ampliadas, que acaba de ser relançado, agora pela Editora Manole, baseado em sua tese de doutoramento ? Edvaldo Pereira Lima é professor da ECA e diretor do Curso de Jornalismo da Universidade de Uberaba, tendo feito pós-doutoramento, recentemente, na Universidade de Toronto, no Canadá. Está fortemente envolvido não só com a divulgação do JLA através do livro-reportagem, mas também com Organizações Não-Governamentais de todo o mundo que cultivam a paz como corolário da própria Teoria Geral de Sistemas.

Basicamente a TGS defende que tudo está integrado. Homem e natureza fazem parte de um círculo que abrange todos os elementos da vida, incluindo os reinos animal, vegetal e mineral. A sociedade não subsiste sem essa interdependência, essa integração dos indivíduos, quer eles queiram ou não. Entretanto, nos últimos 300 anos, a política do desenvolvimento a qualquer preço, voltada apenas para a acumulação de riquezas, tem dilapidado perigosamente a natureza, além de introduzir no convívio humano uma brutal segregação social devido ao processo de acumulação de capital, a tal ponto que nunca se viram tão poucas pessoas riquíssimas e tantos milhões de seres humanos que não têm o necessário para comer, para morar, para vestir, vivendo como bárbaros. Dados da ONU revelam que aproximadamente três bilhões de pessoas (metade da população mundial), sobrevivem com menos de dois dólares por dia. Desse modo, a realidade crua e nua mostra-nos que não existem apenas os três mundos filosóficos de Max Weber (o mundo da vida, o meu mundo, o mundo do outro). Existem vários "estamentos" de mundo, várias gradações de mundo, várias situações de mundo não apenas entre países desenvolvidos e países sub-desenvolvidos. As diferenças já não estão entre as nações, estão escandalosamente presentes em nosso país, em nossa cidade, em nosso bairro, em nossa rua, dentro de nossas casas. Os vários mundos (do trabalho, da cultura, da família, do lazer, da saúde etc.) representados pelas "máscaras sociais" que usamos, como no mito de Kaspar Hauser, que descreve a fabricação da realidade, se sobrepõem, se relacionam, se intercomunicam, interagem entre si porque estão todos imbricados com o mundo em si, com a própria existência do homem sobre a Terra. Com a realidade virtual, o próprio conceito de distância perdeu sentido. O homem já não está mais separado pelo "espaço rural" e pelo "espaço urbano", já não faz diferença estar caminhando numa rua de São Paulo ou de Nova York, Paris, Londres… a comunicação instantânea encolheu o mundo, eliminou os espaços, liquidou o tempo. A idéia de "espaço-tempo" perde a referencialidade quando comparamos a viagem na diligência e o deslocamento no avião a jato. Todos esses conceitos de modernidade precisam estar em exame quando estudamos a própria modernização do jornalismo no contexto do mundo atual. Precisamos saber que mundo é este e onde nós nos encaixamos nele.

O mundo real tornou-se um lugar de concorrência feroz. Com ou sem internet, celular, conhecimentos de física quântica, transporte a jato, o homem moderno sai de casa ? tal qual seu ancestral das cavernas ? para caçar um lugar ao sol. A qualquer preço. Quer voltar para casa no fim do dia com a caça sobre os ombros para alimentar, fortalecer e perpetuar a prole. No início do século o velho Freud já nos alertava que o próximo não é, na verdade, aquela pessoa afável, cooperadora, solidária, amiga que parece ser. É também o concorrente, aquele que na primeira esquina pode nos assaltar, que quer ter o nosso trabalho sem pagar o salário justo, que rouba o sexo da mulher sem permissão, que arranca o couro do próximo com juros escorchantes, que faz a guerra apenas para enriquecer, que banaliza a morte, que espalha a calúnia, a mentira, que usa a força para humilhar e subjugar o mais fraco… embora rezando piamente nos encontros dominicais.

Pois bem, pregar e defender uma teoria que fala de paz, como a Teoria Geral de Sistemas, num mundo assim, é ressuscitar a ousadia dos profetas. Mais difícil ainda é agir assim no terreno minado da vida acadêmica onde sobram os preconceitos e crepita, vivazmente, a fogueira das vaidades.

É um desafio, pois, defender a Teoria Geral de Sistemas. Hoje muito mais do que nos anos 20, quando foi criada.

Aplicá-la ao jornalismo, então, parece quase uma temeridade quando vemos um mercado muito mais preocupado com interesses econômicos, políticos e financeiros que com o legítimo destino do jornalismo que é servir ao público, levar o melhor ao público, com apuração correta, com honestidade de princípios, sem preguiça de descer fundo nas questões de interesse público. Infelizmente não é o que vemos. Acabamos nos iludindo com a idéia de "liberdade de imprensa" quando, como bem observou Cláudio Abramo, o que temos, hoje, é, meramente, "liberdade de empresa". O jornalista é treinado a jogar conforme as regras do jogo, isto é, conforme a política da casa onde trabalha. Ele acaba compreendendo que o jornal é do dono, não do jornalista. Entretanto, Abramo adverte: "Antes de ser jornalista, sou um ser político. O que me interessa é mudar a realidade". (Cf. Abramo, 1988,p.120).

A dificuldade do jornal convencional para aprofundar-se no jornalismo de autor, seja por sua dinamicidade operacional, custo do espaço, custo das equipes ou mesmo interesses inconfessáveis, acaba abrindo amplo espaço para o livro-reportagem, onde o autor não tem que prestar contas ao patrão, mas à sua própria consciência e ao interesse do leitor.

É para abastecer o livro-reportagem que queremos estudar a entrevista em profundidade. A diferença em relação ao jornal convencional já começa na pauta. Desta vez a angulação não virá eivada de segundas intenções, permeada de viés autoritário, recheada de preconceitos de toda ordem, ideologicamente orientada. Será uma pauta mais livre, mais humana, mais leve, mais solta. Jamais será uma camisa-de-força a engessar a criatividade do profissional.

A partir de uma pauta assim, é possível fazer um trabalho igualmente mais livre e mais humano onde o que conta não é o número de perguntas nem o tempo contado no relógio, mas a disponibilidade para uma boa e longa conversa no próprio ambiente do entrevistado. De preferência não apenas uma conversa, mas uma convivência de alguns dias, meses ou anos ? conforme o caso ? para que desse "mergulho" possam emergir não meras respostas a um questionário frio, mas uma história de vida, uma escrita total, uma jornada heróica que estabelece, de pronto, uma interface com o leitor que se verá potencialmente retratado na situação reportada.

Isto explica o sucesso dos flash books americanos que abastecem o leitor com reportagens de aprofundamento, feitas em poucas semanas ou meses, sobre assuntos de impacto, como foi, por sinal, o caso dos atentados de 11 de setembro nos EUA.

Definição

Como deverá ser a entrevista ideal para o livro-reportagem, tendo-se em conta que não é possível fazer jornalismo, velho ou novo, sem entrevista?

De início, podemos estabelecer termos de comparação entre os vários tipos possíveis de entrevista. Estamos falando da técnica de obter matérias de interesse jornalístico por meio de perguntas e respostas.

A entrevista é um dos principais instrumentos de pesquisa do repórter. Com os dados nela obtidos ele pode montar uma reportagem de texto corrido em que as declarações são citadas entre aspas ou pode montar um texto tipo perguntas e respostas, também chamado "pingue-pongue".

Segundo Luiz Amaral, podem-se distinguir dois tipos de entrevista: a de informação ou opinião, quando entrevistamos uma autoridade, um líder ou um especialista, e a de perfil (na verdade o autor refere-se a "personalidade", sendo o termo "perfil" uma característica do jornalismo literário), quando entrevistamos uma personalidade para mostrar como ela vive e não apenas para revelar opiniões ou para dar informações. Em ambos os casos existe o interesse do leitor e o jornalista será sempre um intermediário representando o seu leitor (ou receptor) diante do entrevistado. Na primeira situação, quando se trata de divulgar informações e opiniões, mesmo para produzir uma simples nota, é conveniente e necessário o jornalista repercutir o material com outras fontes envolvidas com o fato, checando a informação. Na segunda situação, ele aconselha o jornalista a conduzir o interlocutor a revelar-se tal qual é: "Ao invés de enfatizar apenas idéias e opiniões, o que interessa é o retrato de corpo inteiro do entrevistado. Deve-se descrever o ambiente em que a pessoa vive, os gostos, preferências, aversões, atividades atuais, planos, sonhos…como se vestem, quais seus pequenos prazeres cotidianos…O entrevistador necessita ser bom observador e ter, entre outras coisas, excelente memória visual" (Cf. Amaral,1987, p. 81).

Fábio Altman diz que "a entrevista é a essência do jornalismo… ela transforma o cidadão comum em líder, dono da palavra, professor, uma pessoa incomum" (Cf. Altman, 1995, p. 1). Em Técnicas de Codificação em Jornalismo-Redação, Captação e Edição do Jornal Diário, o professor da PUC-Campinas Mário Erbolato conta que as origens da entrevista remontam a 1836, quando James Gordon Bennet fez perguntas a Rosina Townsend, proprietária de um prostíbulo de Nova York no qual ocorrera um assassinato classificado, então, como "sensacional" (Cf. Erbolato, 1991, p. 157).

Um dos requisitos mais importantes, na entrevista, é a autenticidade, isto é, que as declarações atribuídas ao entrevistado possam ser facilmente provadas (Cf. Bahia, 1990).

Carlos Tramontina lembra que todo entrevistador faz a mesma coisa: perguntas. Mas cada um desenvolve um estilo próprio, prepara-se de maneira diferente e usa de variadas estratégias para conseguir boas respostas. Afinal, não há boa entrevista sem bom entrevistador. (Cf. Tramontina, 1996, p. 15).

Perguntas frouxas e equivocadas pressupõem respostas do mesmo teor. A inteligência das questões e a descoberta do mote correto podem transformar conversas aparentemente inócuas em grandes depoimentos (Cf. Altman, 1995.p. 1). Pode-se dar como exemplo a série de encontros informais entre o ex-presidente Figueiredo e o repórter Orlando Brito em caminhadas pela Praia de Copacabana ou a fita de vídeo que ele concordou em gravar num fim de festa, em 1997, onde fez revelações sobre as entranhas do poder militar. Em agosto de 1994, com o microfone aberto e a imagem fora do ar, Carlos Monforte, da TV Globo, transmitiu para o país confidências escabrosas do então ministro Rubens Ricupero. (Todos se lembram: "O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde").

Edgard Morin define a entrevista como uma comunicação pessoal, realizada com objetivo de informação.

O professor Mário Erbolato (obra citada, p.157) lembra que "a entrevista é um gênero jornalístico que requer técnica e capacidade profissional. Se não for bem conduzida, redundará em fracasso".

Segundo Alexandre Garcia, citado no livro de Tramontina, (obra citada, p. 28), quem mais perde com o fracasso de uma entrevista é o entrevistador, porque no dia seguinte ele vai fazer a mesma coisa, enquanto o entrevistado sai de cena.

Entrevistar não é somente fazer uma pergunta, esperar uma resposta e juntar à resposta outra pergunta. É um exercício profissional trabalhoso e ingrato. Quase sempre quanto maior é o interesse do jornal em conseguir a entrevista, menor o do entrevistado em concedê-la, e vice-versa. Na medida em que cresce o interesse do jornal, crescem também os problemas do entrevistador. (Cf. Amaral, 1997, p. 125). Amaral cita, em seguida, Joseph Folliet: Esse gênero exige muita intuição, delicadeza, perfeito conhecimento do assunto, do entrevistado, de sua vida e de sua obra, uma grande probidade ? um exterior, enfim, que inspire confiança e incite à confidência.

Na opinião do professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina Nilson Lage (Cf. Lage, 2001, p. 73), a palavra entrevista é ambígua. Ela tanto significa o diálogo com a fonte como a matéria publicada.

São muitas as definições possíveis para o termo "entrevista". Entretanto, qual o melhor modo de entrevistar? Quais os procedimentos adequados? Que estratégias usar para obter um bom depoimento? Vejamos a seguir.

Estratégias

Grandes entrevistadores adquirem técnicas que transformam o jogo de perguntas e respostas numa espécie de xadrez, conseguindo arrancar declarações ? sem ferir a ética – que o entrevistado não pretendia fazer.

Mas não basta ter experiência. É preciso trabalhar duro antes da entrevista, pesquisando tudo sobre os temas a serem tratados e sobre o entrevistado.

Depois de bem preparado (de preferência um ou mais dias antes) o entrevistador deve fazer um roteiro com começo, meio e fim. O objetivo não é bitolar e restringir o desempenho do entrevistador, mas ser uma base referencial para evitar "brancos" e atropelos.

É importante que o entrevistador seja o condutor da entrevista. Mas só estará no comando se estiver bem informado e bem preparado. "É estimulante para o entrevistado, nos momentos em que a fala se interrompe, perceber que o entrevistador está compreendendo o enunciado…se o entrevistado declarou que a economia vai bem, uma observação óbvia, tal como ?o senhor é então otimista quanto aos acontecimentos do futuro próximo? vale não por seu conteúdo, mas pela demonstração de interesse e entendimento. Dependendo, no entanto, das circunstâncias, pode ser conveniente apresentar um dado de contestação, no momento adequado, para obter maior espontaneidade, expansão ou aprofundamento", ensina o professor Lage. (Cf. Lage, 2001, p. 82).

O ideal é que a entrevista flua espontaneamente, cada resposta permitindo o "encaixe" da pergunta seguinte.

Afirma Carlos Tramontina que "a estratégia mais produtiva é aquela baseada na informação: jamais um entrevistado experiente conseguirá fugir das perguntas ou esconder os fatos se diante dele estiver sentado um entrevistador cheio de informações" (obra citada, p. 215).

O exemplo a seguir confirma a correta estratégia do bom nível de informação:

Em fevereiro de 1969, ao entrevistar o temível general Vo Nguyen Giap, em Hanói, sobre a guerra que ele comandava, no Vietnã do Norte, contra os americanos e os sul-vietnamitas, entre o fim dos anos 60 e início dos anos 70, a jornalista italiana Oriana Falacci, trabalhando para L?Europeo, levou o líder vietnamita a revelar, com franqueza inédita, tudo o que pensava sobre seus inimigos americanos, conforme conta Fábio Altman (obra citada, p. 305).

Bem preparada para a entrevista, Oriana teve o cuidado de levar para o tenso ambiente do seu interlocutor duas companheiras que faziam as anotações enquanto ela enfrentava o olhar fixo do general. Nesses casos é impossível ao repórter anotar e dialogar ao mesmo tempo.

Foi nesse clima que a jornalista italiana ousou contradizer o entrevistado classificando de "derrota do Vietnã do Norte" a Ofensiva do Tet. Segundo ela contou depois, o general se levantou nervoso, caminhou ao redor da mesa e, com braços estendidos, exclamou: "Diga isto à Frente de Libertação".

Oriana respondeu: "Primeiro estou perguntando ao senhor, general".

É prática usual entre entrevistadores mais experientes usar a estratégia de começar a entrevista com atitudes ou comentários bem-humorados para deixar o interlocutor à vontade, referindo-se a um jogo importante ou a algo curioso e de conhecimento comum.

Em 27 de junho de 1989, ao entrevistar o deputado Ulisses Guimarães, Jô Soares pediu ao garçom que lhe servisse uma dose de "poire" (licor de pêra), bebida preferida do Sr. Diretas e de seus colaboradores mais próximos.

No dia seguinte, ao entrevistar outro candidato à Presidência da República, Jô chamou a atenção para o sapato Vulcabrás 752 que Paulo Maluf usava e do qual era garoto-propaganda.

Para Alexandre Garcia, constrangimentos entre quem pergunta e quem responde fazem parte da atividade da imprensa. Geralmente os homens públicos, que têm mais experiência no contato com a mídia, não se surpreendem. Esse tipo de entrevista é definida como "confronto" por Nilson Lage:


"É a entrevista em que o repórter assume o papel de inquisidor, despejando sobre o entrevistado acusações e contra-argumentando, eventualmente com veemência, com base em algum dossiê ou conjunto acusatório. O repórter atua, então, como promotor em um julgamento informal. A tática é comum em jornalismo panfletário, quando se pretende ?ouvir o outro lado? sem lhe dar, na verdade, condições razoáveis de expor seus pontos de vista".


O autor reconhece que muitas vezes esse tipo de entrevista pode transformar-se num espetáculo de constrangimento, principalmente quando transmitida ao vivo, no rádio ou na televisão. (Cf. obra citada, p. 76).

Garcia considera que a pergunta embaraçosa pode ter duas conseqüências: desmontar o entrevistado a ponto de ele contar tudo o que sabe ou irritá-lo a ponto de passar a responder a tudo com monossílabos, matando a entrevista (Cf. Tramontina, 1996, p. 21).

Alexandre recomenda que o repórter estude o perfil psicológico do entrevistado para saber se deve conduzir a entrevista "batendo ou assoprando". Mas é contra as perguntas gratuitas e provocativas. Ele ensina os iniciantes a prepararem "emboscadas", no bom sentido, claro, para o entrevistado: você faz uma pergunta sabendo de antemão qual será a resposta, porque ela é óbvia, previsível, ou porque já foi dada antes. Logo em seguida faz a pergunta-chave da entrevista. (Tramontina, 1996, p. 23).

É uma estratégia que se aplica melhor às entrevistas longas.

Às vezes é o caso de entrar direto no assunto, como fizeram os repórteres de Veja ao entrevistar Pedro Collor, a quem a mãe, Leda, vivia pedindo que fosse ao médico examinar a cabeça. Naquela entrevista, segundo os repórteres, a primeira pergunta foi: "O senhor se considera louco?". É um modo de balizar o terreno para que o leitor saiba com quem o repórter está falando. Se Pedro Collor admitisse problemas mentais suas declarações não teriam a mesma força. Morreu tempos depois com um tumor na cabeça…

Em determinados casos, o experiente Alexandre Garcia usa outra estratégia que exige muito domínio da situação:


Eu me finjo de bobo, que não sei das coisas, para que o entrevistado sinta-se mais forte, superior a mim e seguro de si. Nessa situação ele fica mais à vontade, revela mais coisas e abre a guarda. É aí que eu entro… o entrevistado tem medo do jornalista, pois uma entrevista publicada pode gerar muitas conseqüências (Cf. Tramontina, 1996, p. 24).


A história está cheia de exemplos sobre a força que uma entrevista tem em certas circunstâncias. A entrevista de Getúlio Vargas a Samuel Wainer na estância gaúcha do ex-presidente, publicada por O Jornal, do Rio de Janeiro, em 3/3/1949, abriu caminho para a volta do ditador ao poder. A já citada entrevista de Pedro Collor provocou o impeachment de Fernando Collor e o desbaratamento do Esquema PC. As entrevistas em off conseguidas por Carl Bernstein e Bob Woodward, no caso Watergate, levaram à renúncia o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos Estados Unidos da América, Richard Nixon. Costuma-se datar o início da revolução sexual feminina no Brasil a partir da entrevista que Leila Diniz deu ao Pasquim entre 21 e 26/11/1969, ao chegar dos EUA. (Cf. Altman, 1995, p. 2)

A Entrevista no JLA

Quando a entrevista destina-se a livro-reportagem, muitas destas técnicas aqui citadas podem ser úteis. Mas algumas são essenciais, destacando-se, como já foi dito, o aspecto da "imersão". Nas histórias de vida, antes de mais nada, é preciso conquistar a simpatia do entrevistado. E isto não se faz com meias-verdades, com mentiras, com falsa identidade, com câmeras ocultas ou com qualquer outro expediente escuso. Pelo contrário, para estabelecer uma boa interação com a fonte, o jornalista deve ser honesto, transparente, amigo, companheiro. Ninguém abre a caixa-preta da vida, na sua intimidade mais crua e mais exposta, a uma pessoa não-confiável, estranha, maquiavélica. Por outro lado, o próprio jornalista deve se precaver para não se envolver em situações ilegais. Em depoimento à imprensa, no início deste ano, sobre seu mais recente livro a respeito do traficante Uê, Caco Barcellos contou que estabeleceu algumas normas, segundo as quais não tomaria conhecimento ? durante as entrevistas ? de fatos criminosos em andamento ou futuros, apenas de fatos passados. Já o cineasta Moreira Salles teve problemas com a lei porque sabia onde sua fonte se refugiara e continuou entrevistando-a para a produção de um filme sem avisar às autoridades. Também é necessário obter, logo de início, um documento assinado em que o entrevistado autoriza a divulgação de texto e imagem a seu respeito, o que poderá livrar o profissional de futuros e caros processos por uso indevido de imagem.

Uma vez conquistada a simpatia do entrevistado, é necessário passar a conviver com ele em seu próprio ambiente. Foi assim que Joseph Mitchell escreveu uma das mais bonitas reportagens, em meados do século 20, contando a história de um boêmio do Greenwich Village, em Nova York, o popular Joe Gould, que estaria escrevendo uma História Oral maior que a Bíblia. Mitchell sempre evitava os lugares-comuns do jornalismo: celebridades, poderosos, "olimpianos" (na expressão de Cremilda Medina). Seus personagens viviam à sombra, anônimos. Suas reportagens eram buriladas anos a fio e foram elas que melhor capturaram o espírito de Nova York entre as décadas de 30 e 60. O primeiro perfil de Joe Gould foi publicado na revista The New Yorker no fim de 1942. Em 1964, Joseph Mitchell completaria o perfil de Joe Gould, sete anos após a morte de seu personagem, com o qual conviveu longamente nos bares da cidade até "percebê-lo" nos mínimos detalhes.

Não agiu diferente outro destacado jornalista-literário norte-americano, Norman Mailer, ao descrever "a luta do século" entre Cassius Clay (Muhamed Ali) e George Foreman, realizada em 1974, no Zaire. O autor entrou "em comunhão" com seu personagem, interagindo com ele, sentindo suas dores, experimentando suas alegrias, participando de corridas com ele, convivendo em sua casa, no Zaire, tornando-se quase uma "extensão" da pessoa. Afinal, essa luta tinha algo de ideológico entre o americanismo escancarado de Foreman e o muçulmanismo combativo de Clay, aquela coisa de Bem contra o Mal tão própria do judaísmo-cristão e tão cara aos que continuam se achando no direito de mapear o "eixo do mal" sobre a terra.

O polêmico Truman Capote passou seis anos fazendo entrevistas, coletando dados, lendo documentos, pesquisando, até publicar, em 1965, o clássico A sangue frio, por ele considerado o primeiro livro-reportagem com recursos literários, baseado em fato real, narrando um crime ocorrido em 1959 no interior do Kansas, no meio-oeste americano. Para uma verdadeira "imersão" no contexto dos fatos, o autor mudou-se ? por um ano ? para a cidadezinha de Holcomb, onde um casal e seus dois filhos foram assassinados friamente, numa tragédia que causou comoção nacional.

Ao posfaciar o relançamento de A sangue frio [sic], pela Editora Companhia das Letras, este ano, o jornalista Matinas Suzuki Jr. baseou-se em longa entrevista concedida pelo próprio Capote a George Plimpton, publicada em 16 de janeiro de 1966, em The New York Times, para expor o método de apuração que o autor utilizou até chegar ao que batizou de "romance de não-ficção". As informações que Matinas Suzuki Jr. coletou no referido depoimento revelam que "Capote entrevistou por longo tempo um grande número de pessoas sem fazer anotações ou gravá-las. Segundo ele, a anotação e a gravação prejudicam o tempo dedicado à observação dos personagens e do ambiente, e intimidam os entrevistados, que perdem a naturalidade e deixam de fazer revelações importantes. Gay Talese, outro expoente do jornalismo literário, também condena o uso de gravador e das anotações na frente do entrevistado. Capote dizia ter treinado com um amigo uma técnica de prestar atenção absoluta ao que ouvia (o amigo lia longos trechos de um livro em voz alta, e depois Capote, qual um "fotógrafo literário", tentava reproduzir literalmente o trecho lido). Ele gabava-se de conseguir cerca de 95% de total precisão". (Voltaremos ao gravador).

A citação literal do texto tem o objetivo de lançar luz sobre a já referida dúvida que muitos profissionais têm na hora de registrar a apuração. Entretanto, mais do que a expressão mecânica do método (gravar ou anotar ou um dos dois ou nem um nem outro), o que resulta bastante relativo conforme as situações profissionais que se apresentam ou conforme as capacidades e limitações de cada entrevistador, o mais importante é reter o conceito do método. Trata-se, com efeito, de exigir do entrevistador uma concentração especialíssima sobre o que está ouvindo, uma capacidade de percepção do real muito superior ao que normalmente chamamos de "prestar atenção". Não basta prestar atenção, é preciso "entrar" na história, pensar junto com o entrevistado, "copiar" o seu vôo, como se diz no jargão da aviação quando o piloto precisa repetir, em vôo, as manobras do colega ou da equipe, como faz a Esquadrilha da Fumaça. A segurança da manobra depende literalmente dessa capacidade de interação do piloto com o grupo, numa fusão quase perfeita entre homem e máquina, tal como poderíamos dizer de Ayrton Senna ao conquistar suas melhores marcas com pneus de chuva, exatamente quando os concorrentes não conseguiam a concentração suficiente para evitar as fatídicas derrapagens. Muitos fazem entrevistas, muitos se põem a fazer perguntas durante dias a fio a um personagem determinado para escrever uma "história de vida". Mas poucos se perguntam por que Mitchell, Capote e todos os ases do jornalismo literário eram tão cuidadosos na apuração e levavam tanto tempo para produzir o relato. Tudo bem que contavam com o apoio (inclusive, ou principalmente, financeiro, coisa que falta hoje em dia) do fundador da revista The New Yorker, Harold Ross, e do editor Willian Shawn, que financiaram os dois autores e publicaram seus livros, inicialmente, em capítulos.

Na verdade, resolvido o problema financeiro, não se pode ter pressa para produzir o jornalismo literário. Este é um gênero em que não basta registrar os fatos, é preciso pensar a narrativa (outro elemento fundamental do JLA que, entretanto, não cabe tratar aqui neste trabalho focado na entrevista), rechecar informações, conferir dados, ficar atento ao andamento da situação. No caso de A sangue frio, por exemplo, a obra pareceria incompleta ou menos importante sem a solução final representada pela execução dos criminosos. Seria transformar uma tragédia de grande repercussão em conto da carochinha, parodiando os clássicos dos irmãos Grimm: "E ficaram presos para sempre"… Também J. Mitchell só revelou o segredo do seu personagem depois que Joe Gould morreu.

Vejamos outro exemplo.

O professor da ECA Sergio Vilas Boas acaba de publicar novo livro (Perfis e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003) contendo perfis de 10 escritores brasileiros. Para isto ele agendou entrevistas nos "quatro cantos" do país, indo até o ambiente dos entrevistados para conversar longamente com eles em seus próprios locais de atuação. Assim ficamos sabendo o que pensam e como vivem Chico Dantas ("um cabra caladão") em Sergipe; Luiz Antônio de Assis Brasil ("culto e cosmopolita") em Porto Alegre; João Ubaldo ("sua paciência estava por um fio") no Rio; Cristóvão Tezza ("ex-hippie") em Curitiba; Ferreira Gullar ("o poeta perseguido pela ditadura") em Copacabana; Lya Luft ("a tradutora") novamente em Porto Alegre; Manoel de Barros ("e seu pequeno avião transpantaneiro") no Mato Grosso, Sérgio Sant?Ana, outra vez no Rio ("o terror está superando a poesia") etc.

Na aula de 21/10/03, na ECA, os alunos de Jornalismo Literário Avançado tiveram o privilégio de conversar com o autor Sergio Vilas Boas. Ele respondeu a algumas perguntas, inclusive do autor desta monografia, sobre seu método de apuração. Confira as anotações a seguir:


"O perfil é uma história de vida, como a biografia. A diferença é que esta é duradoura, mais detalhada; tanto que, geralmente, os biógrafos preferem contar a história de pessoas que já morreram há 10 anos ou mais. Já o perfil é uma história mais rápida ? embora possa ter até 150 páginas ? que capta, basicamente, duas coisas: o momento e o ser da pessoa. Devemos interpretar pessoas como interpretamos a arte, pois tanto a vida ilumina a obra como a obra ilumina a vida. Tudo está imbricado na mesma árvore: a pessoa, em si, já é uma obra".


A explicação acima respondeu a uma indagação sobre o novo livro de Vilas Boas, que trata de autores nacional ou regionalmente consagrados. Entretanto, outros autores, como Mitchell, encontraram em pessoas anônimas seus personagens preferidos. Isto seria possível no Brasil? Sérgio respondeu que isto seria perfeitamente possível, daí sua explicação sobre o conteúdo "divino" de cada ser humano, o que ele vê como "uma obra de arte". Em recente ensaio sobre "Metabiografia e Arte: um problema de aproximação" (parte de seus estudos de doutoramento na ECA, em andamento), Sérgio Vilas Boas comenta que "o biógrafo, da mesma maneira que o crítico de arte, busca desvendar as ordens vital, humana e psíquica do seu sujeito, pois não se trata de ficar inerte na contemplação da obra, mas de ir muito além dela, até a oficina do artista, onde (aqui ele cita Pareyson ) é necessário associar-se à sua criação, escutar com ele as exigências da obra, ver a obra no ato de regular a sua própria formação". (Pareyson, 2001, p. 223).

Esse diálogo do leitor com a obra é feito de perguntas e respostas, no processo de interpretação estética. Assim, a contemplação tanto premia quanto recompensa o esforço do espectador, segundo explica Vilas Boas. Para ele essas perguntas e respostas são perceptíveis num texto biográfico profundo, múltiplo.

Estas reflexões dão a perceber, claramente, que o jornalismo literário não é coisa pequena. O profissional que optar por este caminho deverá ser um estudioso da epistemologia do jornalismo e da fenomenologia do mundo. Ele aprenderá muito com a nova psicologia que concebe o mundo e as pessoas de modo menos sombrio, menos determinista, onde a jornada do herói é possível. Em Jung entenderá a diferença do "eu" e do "eu superior". Para Campbell é através do estudo da mitologia que aprendemos a ler o mundo de modo menos egoísta. Ele acha que o artista é o único capaz de explicar o mundo e ele o faz através da Mitologia (Cf. Campbell, 1995, p. 105).

Voltando à aula de JLA na ECA:


O profissional que deseja biografar ou traçar um perfil precisa aguardar um "gancho", como se diz no jargão do jornalismo?

Sérgio:

Não. Geralmente o jornalismo convencional produz matérias especiais a partir de datas especiais: o aniversário da pessoa, uma data marcante, uma comemoração, quando ela morre, a festa de bodas etc. O perfil independe de ganchos. Vale pela pessoa mesmo, pelo ser humano que ela é. Mas não basta colocar a pessoa diante de um gravador ligado. É preciso transmitir um significado sobre o sujeito. Por isto é necessário estar muito atento durante a entrevista porque o corpo fala, o ambiente fala, tudo está falando o tempo todo e o bom repórter é aquele que consegue captar todas essas falas. Depois é preciso saber narrar porque sem narrativa não há jornalista.


A exemplo de Capote, Vilas Boas também não usa gravador. Mas toma notas. Prefere anotar palavras-chave para reproduzir diálogos a partir delas. "Registro o principal, o resto vem depois", ensina. Ele também acha que o jornalista deve ser cético: "Não se pode apenas confiar no que a fonte diz. É preciso pesquisar, ler tudo sobre a pessoa, tudo o que ela escreveu, fazer um trabalho de imersão mesmo".

Sérgio avalia que o contato pessoal, a presença no ambiente do entrevistado é muito importante, a não ser quando isto é impossível como em dois exemplos existentes em seu próprio livro: a história de Gabriel Garcia Marques e a do escritor americano Paul Auster. Para falar sobre eles, entretanto, leu tudo a respeito. Para dar mostras da importância de estar no ambiente do entrevistado, contou um caso que não está registrado no livro. Quando foi entrevistar Chico Dantas, no interior de Sergipe, Sergio notou algum estranhamento em relação ao "paulista" que chegava do Sul para entrevistá-lo. Por isto não titubeou em aceitar o "banho de bica" para o qual o anfitrião o convidou… foi aí que obteve o "ambiente de informalidade, de relaxamento indispensável a uma boa entrevista".

No caso da entrevista com Sérgio Sant?Ana, Vilas Boas também buscou essa "empatia" com o entrevistado, procurando colocar-se "no lugar dele", quase que sentindo as dores e a depressão de um escritor competente, momentaneamente sem dinheiro até para trocar o sofá da sala ou recuperar a pintura do apartamento…

A regra de ouro, segundo Sergio Vilas Boas, é ser leal e transparente. Ninguém deve tomar o tempo de uma pessoa apenas com o propósito de agredi-la, de prejudicá-la, de sacaneá-la, porque isso não é ético. Por isso ele acha que é preciso dar acesso às principais informações do texto. O entrevistado poderá ajudar a melhorar algumas informações. O que não se deve usar, nunca, é a prepotência, é a imposição.

Um conselho importante para os iniciantes, segundo Sergio: "Não se deve aferrar-se demais ao método. O perfilador não deve se patrulhar demais. Cada um tem um modo de agir. Mas não basta agir, é preciso pensar também. Eu, por exemplo, começo com um título criado mentalmente. Depois crio um substantivo que defina aquela situação, aquele contexto. Depois tudo isso pode ir mudando, é apenas um começo".

É necessário que o operador do JLA seja também uma pessoa com uma visão de mundo mais ampla, com bom acervo de leitura e leitura de qualidade, com boa disposição de fazer contato com as pessoas, de conhecer gente, de saber como as pessoas pensam. Era assim que Balzac escrevia seus livros, tornando-se um dos fundadores da Escola Realista na França do século 19. Quem olha à sua volta, no mundo de hoje sente-se compelido a uma política de inclusão social. "O modelo elitista naufragou. A insatisfação é crescente, o mal estar é geral. Também nas redações de jornal esse mal estar está instalado. Uma grave crise existencial abate-se sobre as pessoas. Mais do que seguir métodos preestabelecidos, eu me incomodo é com vidas", esclarece Sergio Vilas Boas.

Resumindo, o conceito de Jornalismo Literário Avançado para o autor de perfis como escrevê-los é: Pesquisa, Contato pessoal e Narrativa Literária.

Mas, como chegar a uma boa narrativa?

Em suas obras e em suas aulas na ECA, o professor Edvaldo Pereira Lima lembra que não se pode chegar a uma boa narrativa sem uma adequada apuração, vale dizer, sem a entrevista cuidadosa. Se temos em mente o objetivo de traçar um perfil ou de escrever uma grande reportagem contendo uma história de vida, devemos levar em conta a Jornada do Herói, verificar os momentos de "ruptura" do entrevistado com o seu estado de vida anterior, os momentos em que ele rendeu-se humildemente a um poder maior para cumprir suas tarefas, bem como sua persistência, sua disciplina em busca do ideal. Devemos compreender as passagens da vida em que a pessoa colocou o "eu superior" (que trabalha pelo coletivo, pelo próximo, pela humanidade) acima do "ego" (que é mais individualista, que trata das coisas materiais, dos interesses pessoais, da sobrevivência etc.). Em que fases o entrevistado procurou ouvir o seu "sábio interior"? Como ele buscou a ajuda dos seus mentores? Como o universo conspirou favoravelmente ao entrevistado através das inúmeras sincronicidades da vida, que também chamamos de "coincidência" ou "oportunidade"? É possível perceber na entrevista que o herói não caminha sozinho? O campo genérico sutil que envolve o entrevistado é negativo ou positivo? Como ele lida com a vida, o ser humano, as diferenças? Há preconceitos contra as minorias, as etnias, as religiões? O entrevistado cultiva o seu "cristo interior"? Tem uma ação pró-ativa no mundo?

Conduzindo adequadamente a entrevista, o bom repórter deixará que o mundo do personagem se revele em sua narrativa, em lugar de ele, repórter, invadir o mundo do personagem com "trombadas" agressivas ou com violência verbal.

Citamos, há pouco, grandes livros-reportagem que podem servir de exemplo, de guia, para um trabalho nessa área do JLA. Quem se interessa por este modo de expressão jornalística deve ler todos eles (e outros mais), procurando aprender a técnica dos autores.

Outros livros-reportagem de grande sucesso no país, como Olga, Chato ? rei do Brasil, e Corações sujos, todos de Fernando Morais, apresentam esse tipo de entrevista mais aprofundada, com ampla documentação sobre os personagens e recriação dos ambientes em que viveram. São livros de fôlego que dão muito trabalho até ficarem prontos, mas que, uma vez editados, permanecem para sempre, como leitura imperdível para os estudantes de jornalismo, os comunicadores e o público em geral, consagrando definitivamente seus autores.

A professora Cremilda Medina define bem o tipo de envolvimento que a entrevista em profundidade exige: "Quando entrevistado e entrevistador saem alterados do encontro, a técnica foi ultrapassada pela intimidade entre o EU e o TU. Tanto um como outro se modificaram, alguma coisa aconteceu que os perturbou, fez-se luz em certo conceito ou comportamento, elucidou-se determinada autocompreensão ou compreensão do mundo. Ou seja, realizou-se o Diálogo Possível (Cf. Medina, 1990, p. 7).

Para escrever Chatô ? rei do Brasil (Companhia das Letras, 1994. 732 pp.) Fernando Morais entrevistou 184 pessoas. Seu trabalho mais recente, sobre uma seita japonesa que espalhou o terror entre os imigrantes japoneses logo após a Segunda Guerra Mundial, ameaçando e matando quem afirmasse que o Japão havia perdido a guerra, Corações sujos (Companhia das Letras, 2000. 349 pp.) envolveu 88 entrevistas e grande número de consultas a jornais do interior de São Paulo, onde a Shindo Renmei praticou atentados de 1946 a 1947, e seus matadores (tokkotai) levaram à morte 23 imigrantes e deixaram cerca de 150 feridos.

O mais interessante é que este último livro resultou de uma característica que todo bom repórter deve ter: a percepção para o detalhe, o faro para a notícia. Fernando estava realizando as últimas entrevistas para Chatô, na casa do próprio Chateaubriand, no Rio, quando, ao comentar com uma enfermeira de origem nipônica a prolongada doença do anfitrião, ouviu dela uma outra história igualmente trágica sobre parentes que tinham sido aterrorizados e mortos por uma seita japonesa no interior de São Paulo. Ali nasceu Corações sujos, outro grande sucesso de Fernando Morais.

Muitas vezes o repórter está participando de uma entrevista, mas está tão distante, tão distraído, tão desligado que não é capaz de perceber o que significa uma variação de voz, um gesto nervoso do corpo, uma frase inacabada, uma pausa inexplicável, uma referência extemporânea, uma lágrima inesperada … e pode até passar batido diante de uma revelação extraordinária, só porque ela não estava na pauta. Exagerando na comparação (para provocar reação mesmo), é como se ele fosse escalado para cobrir o discurso de John Kennedy, em Dallas, e voltasse para a redação sem matéria porque "não houve discurso".

Edgard Morin (citado por Medina) e vários autores consideram que entrevistar é a arte de ouvir, perguntar e conversar. O repórter está ali para realizar a mediação entre a fonte e o receptor através do suporte da comunicação que, neste caso, é o livro-reportagem. Por isto deve agir como um observador participante, atento para a subjetividade do encontro, para a riqueza informacional daquele momento único, agindo interativamente como um profissional da área de humanidades. Naquele instante o repórter não é cientista, não é árbitro do Bem e do Mal, não é dono da verdade: é um investigador da realidade, uma pessoa que assume postura humilde diante dos fatos tentando compreendê-los. Cremilda Medina explica melhor:


Entramos numa especulação ilimitada, um mergulho na Verdade de muitas faces, contradições, em que a atuação do jornalismo é sempre relativa, nunca totalmente objetiva, cientificista, como pretendem os clássicos do mito da objetividade. Diante de uma realidade cifrada (como Freud diante do Sonho), inicia-se um processo de decifração. Trata-se da arte de tecer o presente e não a garantia científica de atingir a Verdade Absoluta (Cf. Medina, 1990, p. 33).


Ainda no terreno das estratégias e da comparação entre os vários tipos de entrevista, é importante reter aqui os ensinamentos do professor Edvaldo Pereira Lima a respeito do encontro com a fonte especialmente voltado para o livro-reportagem:


O perfil humanizado é onde o livro-reportagem concede à entrevista a máxima possibilidade de alcançar dimensão superior ao que raramente seria aceitável nos veículos periódicos. A exigüidade de espaço, nestes, é uma condicionante limitadora a vôos mais elevados. No livro, todo o texto pode apresentar-se em forma de entrevista, como é o caso de Conversas com Vargas Llosa, do jornalista brasileiro Ricardo A. Setti, editado pela Brasiliense em 1986. Essa opção reservou ao autor o privilégio de conduzir um diálogo interativo de qualidade com seu entrevistado, construindo-lhe um retrato humano ancorado em cinco eixos básicos: seus amigos e inimigos, a confecção e os projetos de seus livros, o ofício de escrever, a vida particular ? fama, sexo,família,drogas,dinheiro,lazer ? e a política. Há a pauta, mas também coexiste a flexibilidade de o entrevistador momentaneamente abandoná-la para entrar numa variante mais empática com seu entrevistado. Surge a emoção, surge a pessoa por detrás do mito. Ascende-se o circuito e não é mais a corrida atrás desse produto volúvel, a informação, que se dá. O que então desponta é, por parte do entrevistador e do público que lê seu trabalho, a descoberta compreensiva do universo, por vezes misterioso, às vezes exuberante, nem sempre comum, de um ser humano, sempre sendo um espelho das possibilidades disponíveis a toda a espécie (Cf. Pereira Lima, 1995, p.89/90).


Cuidados

Alguns cuidados ajudam o entrevistador a evitar problemas na hora de transformar a entrevista em informação final. São indicações válidas para o aproveitamento do material nos diferentes meios de comunicação. Afinal, mesmo quem se dedica ao livro-reportagem pode deparar-se com outras situações profissionais onde a psicologia da entrevista é igualmente fundamental.

Uma precaução é sustentar o diálogo com o entrevistado tratando-o do modo mais coloquial, seja pelo primeiro nome ou pelo cargo, conforme as circunstâncias. Soaria ridículo tratar um cantor popular ou um ator de "senhor": Sr. Chico Buarque, Sr. Caetano Veloso, Sr. Roberto Carlos, Sra. Carla Peres… Nos diálogos com um deputado, um ministro, um senador usa-se o nome do cargo. Em coletivas ou locais solenes chama-se o presidente da República de "Sr. Presidente".

É preciso desenvolver, também, uma técnica pessoal para observar se o entrevistado está mentindo. A este respeito, conta Luiz Amaral que depois de entrevistar milhares de homens e mulheres sobre casos sexológicos, o médico e pesquisador Alfred Kinsey respondeu, certa vez, ao lhe indagarem se ele sabia até que ponto eram verdadeiras, ou não, as confissões que lhe eram feitas: "É muito simples. Eu encaro as pessoas de frente. Inclino-me para diante. Faço as perguntas rapidamente, uma depois da outra. Não as perco de vista. Naturalmente, se vacilam posso saber que estão mentindo". (Amaral, 1978, p. 84)

Em casos de entrevistas ao vivo pode acontecer o acidente do "dar um branco", mesmo quando se entrevista pessoas que o país inteiro conhece. Nunca é demais ter o nome do entrevistado bem à mostra, além do seu cargo exato.

Conta-se que até o experiente Boris Casoy já sofreu com isto porque o editor se esqueceu (ou achou que nem precisava) de colocar no script do apresentador o nome do entrevistado daquela noite, no SBT. E na hora de apresentar o entrevistado, entre uma matéria e outra, Boris começou: "Estamos aqui com um grande nome da música popular brasileira, um homem extremamente conhecido de vocês, que agora está atuando na política, vereador em Salvador, um compositor maravilhoso, um compositor de mão-cheia…"

A apresentação não acabava mais porque Boris não conseguia lembrar-se do nome de Gilberto Gil sentado à sua frente, saindo-se com esta: "Ele dispensa apresentações". (Cf. Tramontina, 1996, p.76).

"Mais do que em qualquer outro veículo, a entrevista televisiva devassa a intimidade do entrevistado, a partir de dados como sua roupa, seus gestos, seu olhar, a expressão facial e o ambiente. A produção, nos talk shows televisivos, é geralmente mais cuidada e o entrevistador, violando um dos preceitos básicos da entrevista jornalística, pode tornar-se a estrela do programa, com todo prejuízo que isso traz para a informação – não necessariamente para o espetáculo", observa Nilson Lage (Cf. obra citada, p. 87). Para o rádio, ele recomenda um tom mais coloquial.

É importante, ainda, entender porque as pessoas geralmente gostam de dar entrevistas. Não é apenas porque precisam se comunicar, mas por vaidade, na avaliação de Boris Casoy. Por isto ele acha que um elogio inicial "lubrifica" e a pessoa acaba liberando as portas de sua intimidade, permitindo que o entrevistador chegue à caixa-preta (Cf. Tramontina, 1996, p. 78).

Para Joelmir Beting, as pessoas dão entrevistas porque têm informações, idéias ou propostas importantes. Outros, por interesses pessoais ou financeiros. Querem mostrar a empresa, a associação, o sindicato ou o órgão de governo ao qual pertencem. (Cf. Tramontina, 1996, p.109).

Mas Joelmir também não se esquece da vaidade: "O pior é que muitos não estão preparados e acabam falando o que não devem, vendo publicado o que não gostariam."

Exemplo foi a entrevista do ex-ministro da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Walter Werner Brauer, que enviou carta à Revista Veja de 10.01.2.000 desmentindo referências elogiosas a Hitler contidas na entrevista concedida à repórter Sandra Brasil na edição anterior.

Joelmir conta, com orgulho, que não é amigo de nenhum ministro ou qualquer outra autoridade do governo. Faz questão de não dever favores porque quer se manter livre e independente em seu trabalho.

Gravar ou anotar

Cada repórter desenvolve um método pessoal de documentar a entrevista, tanto para o JLA quanto para a mídia convencional. Como vimos no caso de Capote e de Sérgio Vilas Boas, alguns preferem confiar na memória, o que é perigoso quando a declaração envolve números ou nomes de difícil entendimento. Outros preferem anotar, porém em alguns casos é difícil sustentar um diálogo e anotar ao mesmo tempo, como já foi visto na técnica usada por Oriana Fallacci ao entrevistar o general Giap. O mais garantido é gravar. Mas até isto pode dar problemas, porque o gravador pode falhar e surpreender o repórter na fatídica hora do fechamento do jornal. O recomendável é, além de gravar, reconstituir a entrevista com base em palavras-chave que o repórter anota, indicando os temas principais na seqüência em que ocorreram. Em Jornalismo Literário Avançado esse esquema chama-se "mapa mental" (grifo do autor). Isso geralmente basta para, passado um período curto de tempo, reproduzir com bastante fidelidade, discursos não muito extensos ou complicados (Cf. Lage, 2001, p. 79). Também há entrevistados que se intimidam com o gravador ligado, temendo falar alguma bobagem e não poder voltar atrás ou com receio de que a gravação se torne um documento de uso futuro.

Cada caso é um caso.

Boris Casoy conta que, quando trabalhava em jornal impresso, preferia gravar a entrevista com dois gravadores por via das dúvidas.

Também há diferentes modos de veicular a entrevista. Ela pode servir apenas como banco de dados para reforçar uma reportagem; as citações podem ser colocadas entre aspas ao longo do texto corrido ou também se pode usar o já referido formato de perguntas e respostas, tal como foi gravada a entrevista.

Nos casos de denúncias, a reprodução fiel da gravação é o melhor sistema porque não deixa margem a dúvidas sobre a interpretação do repórter. Foi o que aconteceu com o "grampo do BNDES" em 1999. A Folha de S. Paulo soltou o conteúdo das fitas aos poucos, reproduzindo na íntegra os diálogos que comprometeram ministros e autoridades do governo FHC com favorecimentos na privatização da telefonia no país.

Gravando ou anotando, Boris Casoy ensina que o entrevistador não deve ter vergonha de perguntar tudo o que precisa saber, senão fará um texto falho, incompleto. "O bom profissional é aquele que consegue transmitir para o leitor, num texto sintético e conciso, todos os conceitos, com precisão", diz, referindo-se ao jornalismo convencional.

Direitos do entrevistado

Se estamos falando de JLA, sob os auspícios da Teoria Geral de Sistemas que consagra o princípio do respeito ao ser humano, portanto o pressuposto da Ética, além das técnicas de entrevista, o jornalista também deve levar em conta os direitos do entrevistado. Segundo Caio Túlio Costa, nos EUA as vítimas de entrevistas deturpadas ou fraudadas podem recorrer ao Centro Nacional das Vitimas, com sede em Forth Worth, no Texas, que defende os seguintes direitos dos entrevistados:

** Você tem o direito de dizer não a um pedido de entrevista.

** Você tem o direito de escolher um porta-voz ou um advogado da sua preferência.

** Você tem o direito de escolher a hora e o local para entrevistas aos meios de comunicação.

** Você tem o direito de requisitar um repórter de sua escolha.

** Você tem o direito de recusar entrevista a um repórter específico, mesmo que você tenha prometido entrevistas a outros repórteres.

** Você tem o direito de dizer não a uma entrevista mesmo que você tenha dito anteriormente que daria entrevistas.

** Você tem o direito de excluir crianças de entrevistas

** Você tem o direito de não responder questões que julgue inconfortáveis ou inapropriadas.

** Você tem o direito de saber com antecedência quais direções a história vai tomar.

** Você tem o direito de pedir para rever suas declarações antes da publicação.

** Você tem o direito de recusar coletivas de imprensa e falar com cada repórter por vez.

** Você tem o direito de pedir retratação quando informações imprecisas forem reportadas.

** Você tem o direito de pedir que fotografias ofensivas sejam omitidas na publicação ou que imagens idem não sejam levadas ao ar.

** Você tem o direito de dar entrevistas na televisão mostrando apenas a silhueta ou solicitar que sua foto não seja publicada.

** Você tem o direito de recusar-se a responder perguntas de repórteres durante julgamento.

** Você tem o direito de processar um jornalista.

** Você tem o direito de sofrer na privacidade.

** Você tem o direito a todo momento de ser tratado com dignidade e respeito pelos meios de comunicação".

Caio Túlio comenta que "tudo isto tem muito a ver com o que os americanos chamam de fair play, o jogo limpo, a transparência do jornalista para com seu entrevistado e seus leitores"(Cf. Túlio Costa, 1991, p. 206/207).

Recomendações Finais

Pode-se resumir assim as principais recomendações dos autores sobre as técnicas de entrevista(são conselhos sempre úteis tanto no JLA quanto no jornalismo convencional):


a) Evitar perguntas fechadas, isto é, que só admitem monossílabos como resposta. ("O Sr. é a favor ou contra a candidatura de Lula à Presidência?". Uma pergunta aberta seria: "Por que o senhor apóia Lula para presidente?");

b) O repórter deve responder brevemente se o entrevistado pedir a opinião dele;

c) Quando o entrevistado foge do assunto, o repórter deve usar a pergunta seguinte para trazê-lo de volta ao tema;

d) Procurar ser bem-humorado no diálogo, porém sem exageros que destoem;

e) Agir com segurança e naturalidade, mostrando que sabe o que quer;

f) Ao ouvir uma resposta-bomba, o repórter não deve revelar entusiasmo porque essa reação pode levar o entrevistado a pedir o cancelamento da declaração, receoso das conseqüências;

g) Não se deve usar exclamações para comentar as respostas ("puxa! "…"quem diria!"…"não me diga!".)

h) as perguntas podem ser de esclarecimento ("quantos operários foram demitidos?"), de análise ("que motivos a empresa deu para as demissões?"), de ação ("o que o sindicato pretende fazer agora?");

i) Perguntas muito longas podem complicar a vida do repórter se o entrevistador pedir que ele repita;

j) Não se deve misturar várias perguntas ao mesmo tempo ("qual seu nome, idade, trabalho atual e a situação do seu bairro?");

l) Perguntas muito amplas confundem o entrevistado ("como o Sr. vê a situação da humanidade de Adão até nossos dias?");

m) O repórter deve acompanhar com total atenção as respostas do entrevistado;

n) O entrevistado deve ser alertado para o fim da entrevista ("agora uma última pergunta"…"para terminar, o senhor gostaria de acrescentar alguma coisa?")


Mário Erbolato relaciona, entre outros já vistos, os seguintes procedimentos na preparação do repórter para a entrevista:


a) Chegue ao local da entrevista na hora combinada, se possível com alguma antecedência;

b) Ajude o entrevistado, se necessário, a expor as suas opiniões. Conduza a entrevista;

c) Não corte as respostas. Espere que cada uma delas termine para formular a próxima pergunta;

d) Faça as perguntas no mesmo nível de quem responde: às vezes trata-se de pessoa humilde que tem informações sobre determinado fato, mas se ficar amedrontada negará esclarecimentos preciosos para o jornal;

e) Prepare o terreno para cada pergunta. As coisas mais indiscretas podem ser indagadas se o jornalista tiver o cuidado de ir-se conduzindo com habilidade. (Cf. Vigil,1986).


O comportamento de alguns repórteres de vídeo deixa dúvidas sobre quem deve ser a "estrela" da entrevista. Todos sabem que a "estrela" deve ser sempre o entrevistado, "por mais conhecido e vaidoso que seja o repórter", observa Nilson Lage. Segundo ele, espera-se que o repórter seja discreto, como coadjuvante e, ao mesmo tempo, diretor de cena: "Entrevistados podem ser malcriados ou tentar intimidar o repórter; este não deve irritar-se nem deixar-se intimidar".

A exemplo de outros autores, também Nilson Lage lembra que, durante a entrevista, uma das chaves é saber perguntar em cima da resposta. Outra é manter o comando da conversa impedindo que o entrevistado se desvie do tema. Em algumas situações, quando isto acontece, a melhor estratégia, conforme Lage, é apresentar nova pergunta, mudando o assunto, para retomar posteriormente ao ponto problemático. "Não se deve questionar mais do que o necessário nem insistir em linhas de questionamento que se constatam improdutivas", ensina.

Há muitos casos em que a entrevista precisa ser feita por telefone. Lage observa: "O telefone é um meio muito útil para a apuração de informações, mas suprime algumas condições facilitadoras da entrevista, tais como o ambiente controlado e a presença do outro".

Outro modo, hoje muito usual, de se entrevistar à distância, é via e-mail. Aliás, com a internet não apenas os jornalistas encontram inúmeras facilidades em seu trabalho, mas os próprios estudantes de jornalismo podem partir para contatos diretos no mercado, colocando em prática as teorias aqui aprendidas sobre a arte de entrevistar, por exemplo. No caso de conversas online, o resultado depende, em parte, da destreza do entrevistado na digitação. Muitas pessoas perdem a espontaneidade quando escrevem. E se digitam lentamente, as respostas "tenderão a ser formais, como as que se obtêm em questionário escrito" (Cf. Lage, 2001, p.78).

Conclusão

A conclusão natural que se pode extrair desta abordagem da entrevista no Jornalismo Literário Avançado é que não se pode separar a prática jornalística em vários "pedaços", isto é, em jornalismo convencional, em jornalismo literário etc. A profissão é uma só. O jornalista precisa estar habilitado a exercê-la plenamente onde quer que esteja.

Todavia, quando se trata de entrevistar para o JLA, algumas características devem ser observada pelo entrevistador. É de se esperar dele uma maior sagacidade, uma acentuada percepção, uma disponibilidade de tempo para não fazer nada correndo e poder checar a informação quantas vezes for preciso, uma necessária disposição para o trabalho diuturno de ler documentos, viajar (nas condições dadas) e, especialmente, ter capacidade de conviver com o outro, de aceitar o diferente sem preconceitos, de abrir-se para a cultura do outro sem viés de superioridade, de entregar-se humildemente à apuração como um ser humano que tenta compreender outro ser humano para repassar a informação a outros seres humanos, e não com o racionalismo vitorista de quem parte para a conquista do Eldorado. A verdade absoluta não está dada porque ela não existe. Tudo está relativizado e integrado como ensina a Teoria Geral de Sistemas e só a postura humilde diante do fato conduzirá à conquista da maior porção de verdade possível.

Jornalista não é cientista.

É pessoa. E pessoa ? mais ainda quando se põe a comunicar ? precisa interagir, estar entre as pessoas. Santo Agostinho pontifica:

? Inter homines esse!

(*) Doutorando da USP, mestre em Comunicação, professor de Jornalismo da Unesp/Bauru, 54 anos, foi editor de Cidade do Jornal de Brasília, da TV Globo Brasília, editor-chefe da TV Nacional-Radiobrás e, de 1982 a 1999, fez a experiência de administrar seu próprio jornal diário (Interior) em Penápolis, SP


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