Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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A faca e o avião

Por lgarcia em 19/09/2001 na edição 139

ARMAS CONTEMPORÂNEAS

Deonísio da Silva (*)

A faca, apenas uma faca. Os terroristas não precisaram mais do que facas para apoderar-se de sofisticados aviões, que estão entre os maiores símbolos da alta tecnologia de nossa época. E no dia 11 deste setembro fizeram com que o mundo inteiro voltasse seus olhos assustados para os EUA, onde eles pareciam ter deflagrado o fim do mundo.

Nossa imprensa, que tanto citou o prefeito de Chuí (RS) entre os suspeitos de terem ligações com os terríveis atentados ocorridos em Nova York e em Washington, não pode ignorar dois outros brasileiros que, por diferentes motivos, socorrem nossa memória e estão entre os temas de domínio conexo nas tarefas de interpretação do que houve.

Um deles é Alberto Santos Dumont, inventor do avião, cuja foto numa antiga nota de dez merrecas, em que aparece com um chapéu de abas caídas, tornava-o ainda mais depressivo do que fora em vida. O outro é Rubem Fonseca, a Greta Garbo da literatura brasileira, que não acabou no Irajá, não senhores. Ao contrário, continua encastelado no Leblon, de onde dispara, ano após ano, sem parar, romances e contos que estão entre os mais sagazes espelhos do mundo em que vivemos, especialmente da sociedade cruel e violenta que aqui foi montada e gera há séculos exclusões abominadas por todo o mundo civilizado.

Santos Dumont suicidou-se sozinho, desolado ao ver seu invento utilizado nos bombardeios das lutas fratricidas dos anos de 1930. O avião era ainda um mocinho, vivendo entre as conquistas e as desarrumações próprias a quem tinha pouco mais de vinte anos.

Rubem Fonseca, autor do livro que ficou mais tempo proibido nos anos pós-64 ? Feliz Ano Novo, vetado no governo Geisel, só veio a ser liberado em 1989, no governo de José Sarney ? estava ainda censurado quando escreveu A Grande Arte, cuja abertura fechará este artigo, prometo, como oásis que ofereço aos leitores do Observatório da Imprensa, com a intenção de refrescar nossa leitura.

Arma terrível

Afinal, todos estamos ainda à espera de que o maior romance policial do mundo em todos os tempos tenha um detetive à altura de suas complexas tramas e não a rude hermenêutica que lhe deu George Bush. Quem está por detrás do ataque ao Pentágono ? agora, virou o quê? um quadrilátero? ? e das torres gêmeas do World Trade Center? Os EUA escolhem muito depressa os inimigos. Altas autoridades americanas que não tinham ainda lido o romance, assessoradas por quem não soubera de nada, apareciam na televisão dizendo que o nome do principal suspeito só podia ser Osama Bin Laden. Elementar, meu caro Watson ? diria Sherlock Holmes. Mas nem sempre o óbvio é a melhor saída. No romance policial, raramente é.

No dia dos graves eventos, conversei com um grupo de estudantes do Largo São Francisco, em São Paulo. "Desde crianças pensamos que se o Pentágono fosse um dia ameaçado, uma espécie de escudo se ergueria sobre o prédio e mísseis vindos de mil pontos abateriam os invasores bem antes de atingirem qualquer alvo". Pois é. As crianças foram e estavam enganadas. No alvorecer do terceiro milênio, as ilusões perdidas são outras.

Volto a um de meus autores preferidos, a quem dediquei duas teses e três livros, para encerrar este artigo:


Não era uma ferramenta como as outras. Era feita de material de qualidade superior e o aprendizado do seu ofício muito mais longo e difícil. Para não falar do uso que dela fazia seu portador. Ele conhecia todas as técnicas do utensílio, era capaz de executar as manobras mais difíceis — a in-quartata, a passata sotto — com inigualável habilidade, mas usava-o para ecsrever a letra P, apenas isso, escrever a letra P no rosto de algumas mulheres. (…) O fato de as mulheres serem prostitutas não tinha qualquer influência em sua resolução. Apenas não queria correr riscos, por isso escolhia indivíduos que a sociedade considerava descartáveis.


Albert Einstein disse que não sabia quais seriam as armas da terceira guerra mundial, mas as da que lhe seguisse seriam o arco e a flecha. Quem diria, a última arma talvez seja a primeira, a faca, pedra polida para matar, não mais, um a um, mas aos milhares, pois foi inventado um modo de dar ainda mais poder à faca. Com ela pode-se dominar um avião e fazer dele uma arma ainda mais terrível.

    
    
                     
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