Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PARLA, SARAMAGO!

A fala de um José e o silêncio de outro

Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

PARLA, SARAMAGO!

Deonísio da Silva (*)

O que escrevo não é uma resenha. As palavras a seguir me brotaram das almas ? acho que todo escritor tem mais do que uma ? domingo, 11 de maio, e segunda-feira, dia 12, quando degustei, saboreei e avaliei o presente que o jornalista Ubiratan Brasil nos deu em O Estado de S. Paulo (Caderno 2, pág. D 10).

Rubem Fonseca, já recuperado de enfermidade que o levou a ficar internado por vários dias no Hospital Samaritano, no Rio (parece-me que o primeiro a informar foi Ricardo Boechat, em sua coluna no Jornal do Brasil), completou 78 anos no domingo (11/5). Em 1979, ainda perseguido pela censura ? seu livro de contos Feliz Ano Novo continuou proibido até fins de 1989 ?, ele publicava O cobrador, cujo conto-título, vencedor do Prêmio Status de Literatura (patrocinado pela revista Status, na época dirigida por Gilberto Mansur), também fora proibido, juntamente com outro célebre contista, igualmente vencedor e também vetado no mesmo concurso: Dalton Trevisan, com Mister Curitiba. Rubem parou de falar em 1976. Dalton falou muito menos ao longo desses anos. Os dois já passaram da idade bíblica dos setenta anos.

Mas Rubem Fonseca, um dos mais silenciosos de nossos escritores, fala muito de seu ofício na prosa de ficção, no conto e no romance. Onze de Maio é o título de um dos contos de O cobrador. Passa-se numa espécie de casa de repouso para velhos e todos vivem em cubículos. Eis trecho de seu desfecho:


"Começo a sentir um cansaço muito grande. Deito-me no sofá da sala… Acho que posso dormir um pouco, as negociações talvez se arrastem (…). Acho que estamos iniciando uma revolução… mas é preciso que o nosso gesto saia desta torre e faça os outros pensarem… Meu Deus! Como estou cansado!"


Há, porém, muito mais o que ler, ele não pára de escrever e de publicar. E acaba de lançar Diário de um fescenino, já há três semanas entre os dez mais vendidos.

José Saramago é o único Prêmio Nobel de Literatura que nossa mãe, "inculta e bela", "esplendor e sepultura", nos deu até hoje. Foi agraciado em 1998. Ao contrário de Rubem Fonseca, escreve e fala. E Ubiratan Brasil entrevistou o escritor às vésperas de sua palestra no Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

Silêncios inesperados

Destaco a seguir trechos de sua entrevista, como de hábito feita em conversa clara.


"Rompi com Fidel, e não com o povo cubano que ainda tem minha solidariedade".

"Desde Ensaio sobre a cegueira, o foco de meu interesse se deslocou, pois o ponto de vista, em lugar de ser amplo, afunilou-se. Em O homem duplicado, durante essa procura de Tertuliano pelo outro, a pergunta que se apresenta como crucial é: quem sou eu?"


Ubiratan Brasil conseguiu arrancar do escritor uma daquelas curiosidades que encantam os leitores: o tema da clonagem nasceu enquanto o Nobel fazia a barba. E, ao lado de um relato aparentemente tão prosaico, aparece uma profunda reflexão sobre a democracia:


"Os governos (democráticos) se transformaram nos comissários políticos do poder econômico e, algumas vezes, com cumplicidade".


A fala do escritor, pois todo escritor tem sua fala, já que o silêncio também diz alguma coisa, pode manifestar-se nos livros e na imprensa. José Saramago fala para além de seus livros! Rubem Fonseca, que também é José (é conhecido por Zé Rubem, entre os amigos), escolheu falar preferencialmente nos livros. Na imprensa ninguém lhe arranca uma entrevista. Mas outro dia, assistindo a alguns documentários sobre futebol em que o narrador é Rubem Fonseca, percebi que a compaixão que o narrador de sua ficção tem pelos mais fracos está presente também no tom da voz do autor.

Há um proveitoso e oculto diálogo entre os dois grandes ficcionistas nos livros que escreveram, nas falas e nos silêncios. Entretanto, talvez os escritores portugueses e os brasileiros, assim como outros irmãos lusófonos, precisem falar mais, também para além dos livros.

Um bom recomeço seria a imprensa voltar a fazer o que fazia antes. Dar vez e voz a outros escritores, a muitos deles, pois mesmo aqueles que já falaram muito no passado precisam voltar a ser entrevistados. Tudo mudou muito em poucos anos. Sem contar que precisamos perder a obsessão pelos nomes óbvios, tão importantes e, evidentemente, com obras consolidadas, e ouvir também os novos, principalmente aqueles que ainda não foram ouvidos, com suas obras em formação. Em resumo, os leitores querem o caminho inteiro, pois há muitos percursos a ser esclarecidos.

Talvez tenha sido Berlioz o autor dessa frase: "Para exprimir o silêncio
em música, eu necessitaria de três bandas militares".
Para fazer o mesmo em literatura, convém reexaminar os arquivos
das diversas censuras, e não apenas aqueles já indexados
nos órgãos de repressão. Afinal, o silêncio
continuou a ser imposto, inclusive em instituições
onde menos o esperávamos.

PS – Acabo de saber que Rubem Fonseca recebeu o Prêmio Camões,
no valor de US$ 100.000. O reconhecimento é importante por
muitos motivos. Um deles é que mostra, ainda mais uma vez,
que a censura equivocou-se ao proibi-lo no Brasil por mais de treze
anos.

(*) Escritor, professor, escreve semanalmente neste espaço; seus livros mais recentes são A vida íntima das palavras, A melhor amiga do lobo e Os segredos do baú

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