Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > GLOBO REPÓRTER

A falta que faz uma boa pauta

Por lgarcia em 09/12/2003 na edição 254

GLOBO REPÓRTER

José Carlos Aragão (*)

Houve um tempo em que o Globo Repórter era sinônimo de programa jornalístico da TV brasileira. Tempo em que a expressão "reportagem investigativa" era a mais completa redundância.

Naquele tempo, que parece mais distante do que realmente é, uma prosaica investigação sobre que destino tiveram as crianças de uma aleatória foto de formatura de escola, quinze ou vinte anos depois, emocionou a todos e revelou-se um exemplo de pauta original, produção dedicada e resultado impecável. Ganhou merecidos prêmios, à época, e o programa ficou perpetuado em nossa memória.

Em outros tempos, a produção também parecia mais ágil e, em dois, três dias, era capaz de mudar uma pauta e refazer um programa inteiro para documentar um crime de grande repercussão, a morte repentina de uma personalidade nacional ou um acontecimento que potencialmente mudaria a história do país ou do mundo. Guerras, maracutaias políticas, fatos históricos, biografias de ilustres e anônimos, temas científicos, grandes acontecimentos do esporte, efemérides e tragédias naturais eram assuntos que se renovavam a cada semana e redundavam, quase sempre, em memoráveis programas. Muitas vezes, ainda, um programa chegava a ter dois ou três temas diferentes, porque todos eram relevantes ou atuais e mereciam um tratamento mais aprofundado que o dado no exíguo tempo dos telejornais.

Pioneiro, original, denso, eclético e bem-sucedido, o Globo Repórter de antanho incomodava a concorrência, chegando até a gerar clones como o Manchete Documento ou o SBT Repórter.

Esse tempo passou.

O império da mesmice

Hoje, impera uma mesmice cíclica na produção do Globo Repórter. A cada mês, é certo que veremos um ou dois programas sobre paraísos ecológicos intocados ou ameaçados, no Brasil ou na África. No mesmo mês, veremos ainda um ou dois programas sobre comportamento ou sobre os riscos à saúde representados pela má alimentação. No mês seguinte, a fórmula tende a se repetir com ligeiras variações, como a inclusão de um programa sobre os benefícios de uma alimentação balanceada para a nossa saúde.

A pauta não varia muito e, em conseqüência, o conteúdo também não. Se o programa é sobre alimentação, é inevitável vermos aquelas imagens de transeuntes obesos não identificados ? de costas ou com as cabeças cortadas ? circulando pelas calçadas e shoppings de Rio, São Paulo ou Nova York. Se é sobre algum paraíso ecológico, travellings em tomadas aéreas são inevitáveis ? especialmente sobre florestas, rios, lagos e áreas inundadas. Se o programa é sobre o sono, lá vem entrevista com o Dr. Tufik.

Um observador mais atento ou mais crítico não deixará de notar que o Globo Repórter de hoje é herdeiro do Fantástico de ontem, quando este tinha pautas dominadas por recentes descobertas da medicina e era um arauto semanal de novas doenças. Diziam as más línguas que o programa era até financiado, secretamente, pelos grandes laboratórios farmacêuticos internacionais, por causa disso.

Os longos travellings aéreos sobre o Pantanal e rincões remotos da Amazônia também poderiam ser uma espécie de revival de Amaral Neto, o Repórter, outro programa da emissora, sucesso dos anos 70 e de íntimas ligações com os interesses políticos da ditadura militar.

 Jornalismo x telenovelas

Mas, afinal, o que aconteceu com o Globo Repórter?

Será que as conhecidas dificuldades de caixa da Rede Globo andam dificultando investimentos na produção de programas jornalísticos, que tendem a não ser auto-sustentáveis? Afinal, ao contrário das telenovelas, o merchandising ostensivo não cai bem ao jornalismo, pois pode comprometer sua credibilidade. Além disso, por suas características intrínsecas, programas jornalísticos brasileiros não têm, no mercado externo, a mesma aceitação que as nossas telenovelas.

Por outro lado, deslocar equipes de repórteres pelo país ou mundo afora escarafunchando uma matéria tem um custo significativo, dependendo da duração da viagem, da quilometragem percorrida, e outros fatores diversos ? alguns não mencionáveis, até. Mais barato é fazer uma reportagem viajando de monomotor sobre a Amazônia, filmando pernas de transeuntes na Praça da Sé ou entrevistando velhinhos no calçadão de Copacabana.

Arrisco-me a dizer que o maior problema do Globo Repórter é de outra natureza: falta a boa pauta.

Se há limitações de ordem econômica, que se recorra à criatividade. (Este sempre foi o lado virtuoso do, às vezes, execrável "jeitinho brasileiro".) Essa máxima é diariamente praticada por (alguns) publicitários e precisa ser aprendida também pelos jornalistas (se é que isso é ensinado em nossas faculdades de Jornalismo): se "uma foto vale mais que mil palavras", mas a verba do cliente é pequena para custear sua produção, um criativo outdoor alltype sempre resolve bem.

O importante, no fundo, é a idéia original. Como uma pauta, no jornalismo.

 (*) Jornalista e escritor, de Belo Horizonte (MG)

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem