A gangorra da fama e o sobe-desce do equívoco | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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A gangorra da fama e o sobe-desce do equívoco

Por lgarcia em 20/09/1998 na edição 53

Carlos Vogt

A revista Veja traz, já há alguns anos, uma sessão interessante, comum a outras revistas do gênero e mesmo a jornais diários: Radar.

Um pouco de informação, um pouco de intriga, outro tanto de fofoca, rapidez, alusividade, senso de oportunidade, intimidade com a notícia e com o noticiado, humor, graça e singeleza (ao menos percebe-se a intenção) são os materiais, adereços e temperos que fazem os tijolinhos antenados com a informação de bastidor.

Esse tipo de publicação, assim como o Painel da Folha de S. Paulo, a Coluna do Estadão, d’O Estado de S. Paulo, e outras da mesma família, espalhadas nacional e internacionalmente pela imprensa, tem a pretensão de despertar no leitor a ilusão de que ele está tendo acesso a informações que a revista conseguiu em off e que, portanto, são de rara preciosidade, a ser compartilhada em gotas de cristal de mistério e revelações. Daí o ar de conivência que se pretende estabelecer entre o repórter-editor e o leitor-editado: os tijolinhos são sussurros de inteligência voyeurista ou bisbilhotices vendidas como segredinhos de intimidade, quando e se conseguem esconder o cálculo do arranjo plantado, prêt-à-porter, de interesse do espirituoso informante-sombra.

Pois bem, no Radar da Veja há sempre um quadradinho que é a gangorrinha do prestígio de personagens e/ou de suas ações: é o Sobe-Desce da Cotação Radar para os destaques da semana, feitos pela revista. A revista Época tem também o seu brinquedinho de parque de diversão, quadradinho parecido com o de Veja e que, sugestivamente, se chama Montanha Russa.

Na Veja, ano 31, nº 35, de 2 de setembro de 1998, não acontece diferente. Lá está, à página 31, a indefectível gangorrinha da fama: três de um lado, três do outro; do lado Sobe sentam-se na tábua da ascensão Gilberto Gil, Vasco da Gama (o time, não o navegador) e Frei Betto; do lado Desce, pendurados na extremidade descendente, a empresa Mills, os fiscais da Receita Federal e (surpresa!) Frei Betto. No grafismo do quadradinho, o nome de quem sobe é em azul, o de quem desce, em vermelho. O simbolismo das cores, aliado ao do movimento, é tão óbvio que precisa ser explicado: de um lado, o céu, do outro, o inferno, as alturas e as profundezas, a salvação e a perdição, a glória e a penitência, e por aí vai com todas as oposições que se podem imaginar e que entrem no paradigma da gangorra.

Acrescente-se ao paradoxo de Frei Betto subir e ao mesmo tempo descer, na balança dessa justiça de almanaque, o estranho fato de que para o azul e o vermelho o que se apresenta como razão da esquizofrenia avaliativa é exatamente o mesmíssimo texto, portanto, a mesmíssima justificativa. O que faz Frei Betto ganhar e perder a um só tempo é, como se pode ver na reprodução abaixo, o enunciado Ele reconheceu que é um “dinossauro, uma espécie em extinção do tempo em que os jovens abraçavam utopias”.

É inegável que o leitor só pode ficar confuso. E mais confuso ainda quando, ao virar a página, depara-se, na seção Contexto, com o título Confusão na TV e, logo em seguida, com a disposição dicotômica das incoerências dos candidatos no circo de mau gosto dos programas eleitorais da telinha.

Como é que o nosso querido Frei Betto pode estar, ao mesmo tempo, na ponta que sobe e na ponta que desce da gangorrinha da fama de Veja?

Muitas explicações poderiam ser dadas para o fenômeno.

A primeira, e mais simples, embora não menos misteriosa, é a de que a personagem em questão tem o dom da ubiqüidade, de modo que é capaz de fazer pesar a gangorra para um lado e simultaneamente para outro, estando, no movimento de opostos, em cima e em baixo a um só tempo.

A outra explicação, mais misteriosa, mas nem por isso menos simples, é a de que o famoso frade dominicano escritor é uma espécie de divindade ou de mito literário desdobrado na identidade de ser ele mesmo e o seu duplo.

A literatura, aliás, é rica e profusa na galeria de personagens e protagonistas dobrados, cuja expressão iconizada pode ser atestada pela fórmula do poeta francês Rimbaud “je est un autre” (eu é um outro) e que eu parodiei, no meu poema Clone, do livro Mascarada, refletindo as adequações do duplo mitológico ao desdobramento da ciência e da tecnologia genéticas contemporâneas: “este/sou/você”.

É claro que o mito da cisão do homem que aparece em O Banquete de Platão ou no Gênesis sustenta toda a simbologia das duplicidades e das tensões dos opostos que, por exemplo, caracterizam o cristianismo – corpo e alma, céu e inferno, bem e mal etc. – e que fazem com que, nas religiões monoteístas, em geral, o duplo tenha plena objetividade, já que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus.

A dilaceração, a morte da divindade, a hipertrofia do eu pensante (o cogito de Descartes, no século 17), a separação sujeito/objeto é fonte de novas tensões e duplicidades que culminam no romantismo com o sentimento de estranheza e alienação que o tema recorrente do exílio tão bem representa.

O surgimento da psicanálise reforçará o conceito e o mito do duplo passará a conviver com o cotidiano de nossos desconhecimentos.

Uma terceira alternativa para explicar o doutor Jekyll e o mister Hide do Frei Betto de Veja passa pelas sutilezas do código lingüístico, e nos levaria a distinguir no mesmo enunciado – Ele reconheceu que é “um dinossauro, uma espécie em extinção do tempo em que os jovens abraçavam utopias” – uma dupla possibilidade de significação, ou, sem jogo de palavras, um duplo sentido, tal como já o fazia, no século 17, a Lógica de Port-Royal para os enunciados do tipo Todos os filósofos afirmam que a terra é redonda, que pertencem à mesma família do enunciado de distinção e estigma da revista Veja.

Segundo a Lógica de Port-Royal, enunciados como esses têm sempre um duplo sentido, dependendo da intenção do seu autor em afirmar ou o que os filósofos afirmam, isto é, que a terra é redonda, ou a própria afirmação dos filósofos, sem comprometer-se com a verdade do conteúdo dessa afirmação.

Pode ser o caso de Veja no quadradinho Sobe/Desce de Radar. No primeiro caso, aquele em que Frei Betto sobe, a revista só se compromete com a afirmação do reconhecimento, e isso é bom; no segundo, quando ele desce, além de reportar em discurso indireto o reconhecimento de Frei Betto, Veja também afirma o conteúdo desse reconhecimento, isto é, de que ele é “um dinossauro, uma espécie em extinção do tempo em que os jovens abraçavam utopias”, e isso é ruim.

Haveria certamente outras explicações para a engenhoca da duplicidade simultânea veiculada por Veja, umas mais engenhosas que outras e todas oferecidas pelas armadilhas axiológicas do triângulo das bermudas sujeito-língua-objeto, sumidouro e revelação do dito, do não dito, do interdito.

Mas seria a revista capaz de toda essa sutil artimanha linguístico-filosófico-literária em tão reduzido espaço e tamanha concisão de síntese?

Ou teria sido mero descuido, como este outro, um pouco maior, que na semana seguinte (Veja nº 36, de 9 de setembro de 1998) levou a revista a estampar uma capa com matéria relativa à Fuga de dólares, em manchete principal, e a estampar à página 5, do índice, uma outra capa alusiva à reportagem sobre Drogas, trânsito, Aids e confusão no caminho dos jovens?

Confusão também na revista que na Carta ao Leitor, à página 9, reforça o equívoco. Confira o leitor:

“A última Veja circulou com uma capa retratando o desarranjo nos mercados financeiros, situação que se degradou, na semana passada, levando as bolsas de valores do mundo à beira do desastre. (…). A presente edição traz também diversas páginas com assuntos que podem gerar ansiedade nos leitores. Uma delas trata dos riscos que cercam a adolescência, tema da capa desta semana.” (O grifo é meu).

O editor escreveu a sua carta para uma capa que depois foi substituída por outra, permanecendo o texto sem o necessário ajuste de referência.

Esperei a Veja seguinte, a de número 37, de 16 de setembro de 1998, com a expectativa de ali encontrar alguma menção ao equívoco. Nada, nenhuma palavra. Mas ao menos dessa vez, lá na ladeira do Sobe-Desce, ninguém teve de bancar o Zorro e desdobrar-se em duplos.

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