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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > não dá para esperar pelo poder público

A Globo e o discurso da concórdia

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

COBERTURA ELEITORAL

Sylvia Moretzsohn (*)

[Sobre artigo de J.S.Faro, remissão abaixo] Faro, li seu artigo no Observatório e gostei, antes de mais nada, que você pusesse a questão sobre os interesses dos meios de comunicação como empresa, algo que se costuma esquecer nesses caudalosos apelos à dignidade, imparcialidade, objetividade, sem a mínima atenção à luta política inerente ao trabalho da imprensa.

Considero que o principal motivo dessa suposta imparcialidade da mídia na atual campanha seja aquilo que você aponta como terceira razão: o melê geral em que se fundem as candidaturas. Mas tenho cá comigo a idéia de que isso apenas ajuda uma nova estratégia de legitimação da mídia, especialmente da Rede Globo, como defensora da "cidadania". As matérias especiais que o Jornal Nacional tem apresentado são exemplares.

Uma delas é, como dizem os acadêmicos, emblemática: é a que trata da mobilização de moradores de uma favela e de condomínios luxuosos em Belo Horizonte. William Waack (sim, porque não são repórteres iniciantes, é o William Waack, ou então o Ednei Silvestre) mostra uma líder comunitária falando da importância da organização dos moradores para o tratamento da água imunda que eles usam "para beber, cozinhar, lavar roupa, tomar banho", depois mostra um morador do Belvedere (um dos tais condomínios de classe média alta, cuja única semelhança com a favela é estar também num morro, não fosse esta a cidade das Alterosas) dizendo da organização dos vizinhos para a participação nos conselhos da prefeitura.

Então, o repórter conclui, triunfal: "Não importa qual seja o nível de renda das pessoas, a grande cidade brasileira trouxe uma importantíssima lição para as comunidades que vivem nela. É fundamental se organizar e não dá para esperar pelo poder público." (os destaques são por minha conta, para marcar que ele enfatizou essas palavras, num tom otimista qual um Getúlio discursando ao povo no estádio do outrora glorioso Vasco da Gama).

E completa: "Organizar-se dentro da grande cidade é um dos poucos retratos unindo brasileiros por cima do fosso social que os separa".

Agora você vê: não importa qual seja o nível de renda? Pois é exatamente isto o que importa! Como se a possibilidade de organizar-se fosse a mesma, independente do nível social! E como se as associações de moradores de favela e asfalto (perdão, das "comunidades" e da classe média) equivalessem em força política!

Depois: "Não dá pra esperar o poder público". Ele insinua que a organização é autônoma, substitui o Estado, mas na verdade mostra exemplos de organização que dialogam com o Estado, que não existiriam se não fosse sua relação com o Estado.

Tremenda mistificação, não é?

E conclui que a organização é a panacéia para unir os brasileiros "por cima" do fosso social… tem mesmo de ser por cima. Porque o buraco é muitíssimo mais embaixo…

Enfim, acho que isso procura legitimar o discurso neoliberal da própria empresa, que assim se faz passar por imparcial: é o discurso natural, da concórdia, de quem procura o bem para todos e desqualifica os conflitos como estranhos à nossa índole.

Considerando o cenário das eleições, é mais ou menos isso que ocorre. Claro que a pele de cordeiro não resiste a uma disputa polarizada de um segundo turno, mas por ora é possível passar essa impressão de "maturidade". De modo que até o Lula fala o que fala sobre a imprensa.

Aliás, o Lula está cada vez mais maduro. Ao contrário do que pedia Maiakovski, "espero que jamais alcance a imprudente idade do bom senso". Mas Maiakovski, além de poeta, era um suicida, não é?

(*) Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora do recém-lançado Jornalismo em tempo real ? O fetiche da velocidade,Editora Revan


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