Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > LAURO CAMPOS (1928-2003)

A homenagem que a mídia não fez

Por lgarcia em 22/01/2003 na edição 208

LAURO CAMPOS (1928-2003)

Ivo Lucchesi (*)

Corretíssimo está o jornalista Alberto Dines quando defende radicalmente a inexistência de qualquer censura à imprensa. Não menos certo, ao afirmar que, em lugar da censura, há de vigorar o permanente estágio de vigília crítica sobre os passos dados pela mídia, sendo, aliás, esta a função do OI. É, portanto, perseguindo tal propósito que não se pode deixar de registrar omissão recente.

É sabido de longa data que, resguardadas as exceções de sempre, a parceria entre mídia e intelectual é, no mínimo, tensa ou conflitiva, principalmente no Brasil das últimas três décadas. É possível que a responsabilidade caiba a ambas as partes. A apuração mais criteriosa acerca desse fato requereria escrita de outra ordem. No caso, pretende-se apenas assinalar o melancólico tratamento jornalístico que a “grande imprensa” destinou ao falecimento, em 13 de janeiro deste ano, de um dos mais ilustres, talvez o mais completo, membro do Senado: refiro-me ao senador Lauro Campos (PDT-DF). Nele se harmonizavam a envergadura intelectual, a retidão do caráter e a combatividade, cuja origem provinha de alentados estudos e de não menos enraizadas convicções. A cada participação na tribuna, correspondia uma riquíssima aula para uma platéia nem sempre à altura. Enfim, o senador permitia, com sua retórica, que outros absorvessem um pouco mais de conhecimento, ainda que, para a maioria, o fosse desnecessário. A “grande imprensa” nada lhe dedicou fora de burocráticos e habituais obituários. Perdeu-se oportunidade, como poucas, para enaltecer-se a figura de um político destituído de qualquer sombra inoportuna capaz de acinzentar-lhe a luminosa trajetória de décadas.

Pobre jornalismo aquele que não desenvolve a sensibilidade para perceber quando, de maneira efetiva, pode tornar-se um instrumento de ativa contribuição para o caráter nacional. Sabendo-se que, para a maioria da população, a figura do político não goza da mais plena credibilidade (e não faltam razões para isso), essa era a hora de oferecer-se a essa mesma população o contraponto, evitando a corrosão progressiva e de efeitos perigosos a todos. É óbvio que propinas desviadas para a Suíça devam merecer diligente acompanhamento e intensa investigação. Todavia, esse foco não exclui o reconhecimento de quem, na vida pública, exerceu sua função com mais plena dignidade. Infelizmente, a morte do senador passou ao largo, em simplórias e marginais matérias informativas. Que pena.

Mídia e o político intelectual

O negligenciamento com o qual a mídia tratou o falecimento do senador não difere daquele que ela lhe conferiu em vida. Afora episódicas aparições, por conta de livros publicados, Lauro Campos, ao longo de seus mandatos, jamais foi escolhido para ser exposto a refletores ou a gravadores. Em outras palavras, não era o político palatável ao tempero midiático, diferentemente de outros que sempre estão na vitrina. Por outro lado, nenhum fato ao redor da vida do senador oferecia enredo interessante para uma novela lacrimejante ou de perfil detetivesco. Ou seja, por ser correto e intelectual, não poderia ser contemplado com o benefício do suporte midiático, sempre à espreita do próximo escândalo ou desvio de conduta. Volto a frisar: nada contra, mas que se realce a outra face, sob pena de sucatear a ainda frágil democracia brasileira.

Outro ponto merece comentário. O descaso da mídia já fora antecipado pelo alto escalão do PT, partido do qual, desde a fundação, Lauro Campos fora signatário ? elo que teve de ser desfeito quando, em abril de 2001, a cúpula do PT achou mais oportuno optar pelo nome de Cristovam Buarque. Ao então senador Lauro Campos não restou outra opção além da saída. Triste do partido que para preservar um perde outro. Feliz do partido que pode escolher entre dois belos nomes. A realidade, por vezes, cria injustas injunções… O emérito professor de Economia Política da UnB acabou ingressando no PDT. Com a nova legenda, o senador conheceu a amarga recusa do eleitorado do Distrito Federal, que preferiu, além da merecida vaga obtida por Buarque, dar a outra ao senhor Paulo Otávio (PFL). Lauro Campos foi relegado à humilhante quarta votação nas eleições de outubro passado. Enfim, desvios do jogo eleitoral produzem distorções que exigem acatamento. Tomara que os eleitores brasilienses não se arrependam tardiamente. Afinal, eles poderão consolar-se com os eleitores cariocas que levaram ao Senado o “amado pastor”, deixando de fora nomes como o de Leonel Brizola e Artur da Távola (Paulo Alberto Monteiro de Barros). É curioso que, entre os três excluídos, algo de comum haja: história e conhecimento.

Entre o casamento e o divórcio

O que efetivamente aqui se está tentando pontuar é o divórcio entre a mídia e o intelectual. Que razão obscura insiste em lançar ao ostracismo aquele que criticamente se posiciona? Que mal profundo a voz independente pode produzir à rede corporativista? Quais concessões são exigidas pela mídia para, em troca, dar visibilidade? Nesse momento da vida brasileira em que se mobiliza o sentimento de “esperança” e de “transformação” (será?), talvez se faça oportuna uma revisão profunda quanto a certos procedimentos e compromissos.

Em clima de injetada esperança ? e que não seja traída por enganosas mudanças ?, não será papel da mídia, ao invés de diariamente focalizar abraços e beijinhos, casar-se com o refortalecimento da inteligência, como valor com o qual uma nação possa aspirar à efetiva autonomia? Será, por outra, que a mídia (ou, pelo menos, a “grande imprensa”) insistirá em joguinhos de “disse-me-disse” e outras picuinhas mais? Está aí. A hora para mudança é agora. Recusada, vingará, como sentença, a afirmação de Lauro Campos, quando de seu desligamento do PT: “Não há mais uma consciência crítica”.

Ainda que a mídia não venha a fazer a sua parte no “pacto da mudança”, poderá o (e)leitor colaborar consigo mesmo lendo três primorosas obras desse mais que senador ? um intelectual dedicado ao aprimoramento do pensamento crítico. Em 1980, Lauro Campos publicou A crise da ideologia keynesiana; em 1991, O PT frente do capitalismo. Por fim, em 2001, em obra à qual o senador intelectual dedicou mais de década de estudos e revisões, foi lançado A crise completa: a economia política do não. Sem dúvida é sua obra mais completa e madura, na qual sinaliza horizontes preocupantes com base em criteriosa análise sobre os rumos econômicos e políticos da contemporaneidade, destacando o “império das não-mercadorias”.

No mais, fique o agradecimento por uma vida exemplar, como intelectual e político. Lauro Campos era o símbolo que melhor encarnava a relação entre o conhecimento e sua destinação pública. O lamento profundo é o de saber que os espaços da política brasileira não foram justos quanto ao potencial de uma figura pública tão preparada quanto ? da maioria ? desconhecida. Que mais poderá haver a lamentar, sob a atmosfera dos alegres “Tristes Trópicos”?

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV/RJ

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