Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > AUTORES & LIVROS

A hora e a vez dos novíssimos

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

AUTORES & LIVROS

Deonísio da Silva

O Caderno 2 do Estado de S.Paulo (24/1/04) dedicou extraordinário suplemento literário do fim de semana à literatura brasileira em suas nascentes. Celebrou os 450 anos da cidade com dez contos garimpados num concurso que recebeu 756 inscrições, facilitadas pela modernidade tecnológica: as narrativas foram enviadas por e-mail. Este é o grande mistério da literatura brasileira: com tantos escritores, por que tão poucos leitores?

A comissão julgadora é motivo de orgulho para os premiados e para todos os concorrentes, de quem foi exigido atestado de estreante ou, no máximo, dois livros publicados. O jornal alude a obra, mas este termo abrange mais acertadamente o conjunto de livros de determinado autor e não um livro apenas. De todo modo, obra e livro estão consagrados como sinônimos e talvez seja difícil mudar isso.

Aos juízes

Julgaram os trabalhos, entre outros, o professor da Unicamp Alcir Pécora, que estende seus estudos da prosa de Vieira aos autores contemporâneos, e o escritor Moacir Amâncio, poeta, ficcionista e professor de língua e literatura hebraica na USP, profundo conhecedor da obra do romancista israelense Yoram Kaniuk, que examinou no livro Dois Palhaços e uma Alcachofra. Além disso, já demonstrou talento em narrativas curtas e em poesia.

Aliás, é raro um jornalista dedicar-se com tamanha dedicação a um percurso intelectual que o levou a viver alguns anos em Israel, a fazer o doutoramento na USP, onde hoje é professor. Conciliou o trabalho na imprensa com estudos acadêmicos e nisso ganharam imprensa e universidade. A imprensa tem um scholar e a universidade um dublê de escritor e jornalista que sabe conciliar rigor de pesquisa com linguagem capaz de ser entendida fora do campus, o que é raro acontecer nos textos dos pesquisadores.

Os inéditos chegam a Paris

Leitor anônimo e benfazejo ligou a iniciativa do Estadão ao trabalho desenvolvido pela professora Andrea Hossne, da USP, que desde setembro dá aula na Universidade de Paris 8, onde ficará até julho próximo ministrando aulas de literatura brasileira, sobretudo a contemporânea.

Seu projeto de pesquisa ocupa-se da narrativa brasileira contemporânea brasileira, examinando a produção literária da década de 1990 em diante, dando atenção também à literatura dita marginal. A revelação dos inéditos pelo Estadão e dois olhares discrepantes sobre São Paulo (Folha, 24/1/04, pág. 3) enriqueceram a leitura dos interessados em autores e livros no fim de semana.

Os escritores Marcelo Rubens Paiva e Ferréz, cada um a partir de um mirante diferente, examinaram a São Paulo na passagem dos 450 anos. O primeiro mostrou a megalópole elitista, refinada. O segundo revelou a estranha dialética entre centro e periferia, questionando quem está cercando quem. Mas nem o primeiro e nem o segundo têm na imprensa o destaque que seus livros fazem por merecer, como é praxe em nossas cada vez mais minguadas páginas dedicadas a livros. (A iniciativa do Estado de S.Paulo foi notória exceção.)

"Recebo alguns livros, em geral de autores iniciantes, vou lendo tudo na medida das minhas forças e do tempo disponível", disse Andrea Hossne ao Observatório, revelando que em Paris, juntamente com Rita Godet, professora de literatura brasileira atualmente na universidade de Rennes, tenta fazer com que pelo menos as bibliotecas universitárias francesas recebam livros que sejam um contraponto ao olhar estrangeiro que só vê o fenômeno Paulo Coelho.

"Os livros brasileiros produzidos nos últimos 30 anos, com raríssimas exceções, estão ausentes das estantes por aqui", disse Andrea, informando que "dias 5 e 7 de maio ocorrerá em Paris e em Rennes um colóquio sobre literatura brasileira contemporânea, dos anos 1970 até hoje. Ao mesmo tempo, acontecerá uma exposição das novas aquisições de livros feitas pela biblioteca da Maison du Brésil e pela da universidade de Rennes".

Como sempre, faltou verba. A professora solicitou doações. "Fui direto aos autores, pedindo-lhes a colaboração. Tenho procurado obter exemplares de obras pertencentes a coleções inovadoras, como a "Janela do Caos", da Nankin, ou lançadas por novas editoras sérias e com autores interessantes, como o pessoal da Livros do Mal, do Rio Grande do Sul, por exemplo".

Fábio Weintraub fez circular seu pedido entre alguns escritores. "Isso nos trouxe, por exemplo, os livros do Glauco Mattoso ? as lacunas e a defasagem da biblioteca da Maison du Brésil são marcantes justamente no que diz respeito à década de 1970 em diante, com a exceção de alguns nomes já bastante consagrados. Meu amigo e jovem escritor Bruno Zeni, por sua vez, a meu pedido fez circular a solicitação dos livros entre alguns outros escritores. Além de livros, estamos pedindo ? e recebendo! ? revistas literárias".

"O projeto todo é esse: completar as duas bibliotecas (Paris e Rennes) tanto quanto possível; expor as aquisições e fazer o colóquio, reunindo pesquisadores franceses e brasileiros. O colóquio está prontinho, apesar do pouquíssimo dinheiro que obtivemos até agora ? parte dele para publicar aqui na França as atas", finalizou Andrea.

Aos interessados, eis os informes básicos:


Colloque: La littérature brésilienne contemporaine (de 1970 à nos jours).Université de Haute Bretagne ? Rennes 2 / Équipe d?Accueil ERILAR.Université Paris 8 ? Vincennes Saint-Denis / Département d?Études des Pays de Langue Portugaise. Avec le soutien de la Maison du Brésil ? CIUP.05 et 07 MAI 2004. Langues du colloque: français et portugais. Responsables scientifiques du colloque: Rita Godet (Rennes 2) et Andrea Hossne (Paris 8 / USP-Brésil). Contato: andreahossne@freesurf.fr


Iniciativas como esta decorrem de caminhos misteriosos, pois como sabemos o acaso tem leis que desconhecemos. Andrea Hossne é filha do ex-diretor da Fapesp e ex-reitor da UFSCar William Saad Hossne. Não foi o pai quem fez chegar à imprensa o que a filha está fazendo. Soube por e-mail repassado por alguns dos jovens escritores que lêem o Observatório. E que solicitaram ajuda. "Se a imprensa esquece até autores consagrados, imagine o silêncio que impõe sobre nós, jovens, ainda com poucos livros publicados", disse o engenheiro Whisner Fraga, cujos contos de estréia lhe valeram prestigioso prêmio literário e a edição do livro.

Que os editores das páginas literárias reflitam sobre o desabafo, mais do que pertinente, e sobre as iniciativas em curso, de que os leitores ficam sabendo por acaso. Afinal, há gente de valor remando contra a maré.

Outra pauta mais do que oportuna seria uma visita aos blogues, que estão
exalando pela internet os mais pertinentes murmúrios. Os blogues são
o último reduto da liberdade. Cumprem a função antiga dos
banheiros, onde os adolescente iam ler o que pais e professores proibiam Agora,
eles vão escrever! Estejam na primeira, na segunda ou na última
adolescência.

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