Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A ignorância do conhecimento

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

ERA DA INFORMAÇÃO

Nahum Sirotsky, de Israel

Há tempos queria fazer estas observações sobre o paradoxal fenômeno do aumento do conhecimento que aprofunda a ignorância. Verifico a repetição do Brasil à China. País algum escapa dos efeitos nefastos do desenvolvimento dos meios de comunicação. Repete-se o que aconteceu com a invenção de Gutenberg, da qual resultou a democratização do acesso aos livros. Vieram a Renascença, a alfabetização de milhões (a maioria contínua analfabeta), as liberdades políticas, como a de pensamento e expressão, e o fantástico desenvolvimento científico-tecnológico. O conhecimento, porém, permaneceu com aqueles que se convencionou chamar de elites ? as quais, mesmo elas, pela pobreza dos meios de transmissão, tinham limitadas informações sobre os fatos do mundo. O desenvolvimento e velocidade dos meios de transmissão e comunicação deveriam, em tese, expandir as elites pensantes e a atitude de dúvida das massas diante das informações que recebem.

É tamanha a quantidade e o peso das informações transmitidas a cada milésimo de segundo, tamanho o número dos meios de comunicação (mídia), tão rápido o avanço dos conhecimentos nos centros de estudos especializados que as conseqüências vêm sendo a especialização cada vez maior, limitando os conhecimentos das chamadas elites (os homens de ciência, de pesquisadores e aplicadores) e criando confusão no pensamento das massas.

Antes, a filosofia é que fazia os homens refletirem em busca do entendimento. Houve época em que era matéria obrigatória no secundário, de cujo currículo foi eliminada como o latim. Algum "gênio", dos tantos que se tem hoje, considerou inútil o estudo de Lógica e da origem da língua. De tantas reformas o ensino fundamental no Brasil só piorou. E escola alguma considerou a hipótese de ensinar a pensar. Não é possível a um ser humano absorver a massa de informações com a qual é bombardeado o tempo todo e de todos os cantos.

Na análise dos meios verifica-se que quase todos, excetuados uns poucos e raros analistas, transmitem fatos e, na melhor das hipóteses, num contexto sintetizado e faccioso. Não se informa nem se educa, opina-se sem dar ao leitor (gente simples como a gente) a oportunidade de saber que nem sempre dois e dois são quatro. É quase tudo propaganda:

** As agências de notícias enxergam pelo ângulo de seus paises.

** Os jornais refletem os preconceitos dos editores.

** As emissoras de televisão dependem dos que editam as imagens, pois é muito simples transformar pequeno grupo em multidão.

** A internet dá acesso a incontáveis sítios, a incontáveis veículos pelo mundo em todas as línguas existentes. E também a bases de conhecimento só compreensíveis aos especialistas.

Qualquer teoria de comunicação ensina o óbvio em linguagem atrapalhada: só se entende com o que se sabe: não há comunicação sem ruídos (interferências de indivíduos), que transformam observação factual numa opinião. Quase que instantaneamente se sabe por todos os cantos sobre choques armados, assassinatos de indivíduos e os extremos a que leva o relativismo da verdade.

Lima Barreto, onde estás?

Ao indivíduo que quer defender sua sanidade restam a alienação (ignorar propositadamente), simplificar sua concentração ao compreensível, como esportes, ou assumir uma ideologia, uma visão unilateral da vida e do mundo. Há uma tendência universal pelas ideologias populistas e fascistas, que são as de mais fácil compreensão.O social-fascismo se apresenta com linguagem de esquerda, a populista.

Um mundo com um norte claramente visível ou exposto é mais compreensível do que o mundo complexo como é: imprevisível, não-planejável. Um mundo no qual o individuo é o único que tem um mínimo de possibilidade de se construir, e são incontáveis as possíveis interrupções definitivas. Não existe nem é possível o Homem Renascentista, que tinha boa idéia do conhecimento de então. Não existe o individuo bem-informado. Existe o individuo bem formado, que aprendeu a pensar e a buscar conhecimentos necessários A mídia, mesmo a mais cheia de recursos materiais e humanos, ainda não encontrou o meio de informar bem o individuo de hoje.

No século passado os americanos, primeiros com escolas de Jornalismo, definiram a noticia em respostas a cinco perguntas: o que? quando? onde? quem? como? Ainda é a melhor definição. Só que, partindo-se da premissa de que se faz tudo para as massas que, no máximo, só querem saber o mínimo, e o espaço ou tempo são caros, só se passa adiante o mínimo. No nosso mundo se conhece cada vez mais e se compreende cada vez menos. Daí ser tão perigoso, com a multiplicação do terrorismo e do extremismo, expressões da angústia de não entender e querer resolver, o enfraquecimento de liberdades e o fortalecimento de figuras e partidos que apresentam soluções simplistas. Com a probabilidade do reaparecimento de autoritarismos, pois não há analgésico para acertar a confusão que se implanta na cabeça do homem comum.

Ele quer o impossível: pão-pão-queijo-queijo. Ou, talvez, o reconhecimento da genialidade de quem sabe o javanês que ninguém mais sabe. Lima Barreto, onde estás? Podemos estar regredindo para sistemas repressivos.

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