Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > OMBUDSMAN

A igualdade é branca? (*)

Por lgarcia em 20/07/1998 na edição 49

Lira Neto, ombudsman de O Povo

“Todo discurso se sustenta em teias invisíveis. A eficácia do
discurso do poder está justamente naquilo que ele oculta”

Isaac Epstein, em A Gramática do Poder

 

“E os africanos, hein? Voltaram para a selva…” A afirmação, que mal consegue encobrir o carregado preconceito, foi publicada pelo O Povo na última terça-feira, na coluna esportiva “Contra-Ataque”. A coluna, assinada pelo jornalista Alan Neto, está sendo publicada diariamente no caderno Copa 98. Naquele dia, o colunista referia-se à desclassificação da seleção da Nigéria na Copa do Mundo, após a goleada sofrida contra os dinamarqueses. As outras quatro equipes africanas que também participavam do torneio – Marrocos, Camarões, África do Sul e Tunísia -haviam sido eliminadas ainda na primeira fase. Todas as seleções africanas voltaram, portanto, mais cedo para casa. Mas, segundo o colunista, elas teriam “voltado para a selva”. Não foi o primeiro indício de preconceito nas páginas do O Povo em relação às equipes africanas na Copa do Mundo. Duas semanas antes, um dos quadrinhos do até então inofensivo Tapioca, personagem desenhado por Roberto Munhoz para o caderno Copa 98, mostrava um torcedor nigeriano, caracterizado como um selvagem antropófago, diante de um grande caldeirão de água fervendo. A tal tirinha com o nigeriano comedor de gente falava de “pratos típicos africanos” e afirmava textualmente que, pelo menos no futebol, a Nigéria “de primitiva não tinha nada”.Aquela tirinha do Tapioca, publicada na primeira fase da Copa – quando a seleção nigeriana ainda era a grande surpresa do Mundial e havia acabado de derrotar os espanhóis – provocou a indignação de leitores do O Povo . Para os leitores que ligaram para o ombudsman, associar os povos africanos à antropofagia e a adjetivos como “primitivo” significava um evidente preconceito contra a cultura dos países daquele continente, formado por uma população essencialmente negra.

A nota infeliz sobre a desclassificação da Nigéria não era, também, a primeira vez em que a coluna “Contra-Ataque” deixava antever sinais de um preconceito mal dissimulado. Há três meses, em meus comentários internos, eu já chamava a atenção para outra ocorrência, do mesmo tipo, na mesmíssima coluna. Àquela época, o campeonato cearense deste ano, vencido pelo Ceará Sporting Club, ainda estava em disputa. Em certa altura da competição, a coluna “Contra-Ataque” propôs, em tom de ironia, uma espécie de prêmio de consolação aos torcedores do Ferroviário. O
prêmio seria “um pôster colorido do técnico Argeu”. Ora, o treinador Argeu dos Santos, do Ferroviário, é negro. A idéia de um “pôster colorido”, evidentemente, não era gratuita. E nem um pouco sutil. “Se o técnico fosse branco, o colunista teria feito a mesma brincadeira?”, indagava um leitor, entre os tantos que ligaram e escreveram para o Ombudsman para questionar aquele tipo de humor, vulgar e preconceituoso, de inspiração fundamentalmente racista.

Nos três casos citados acima, a mesmo constatação: o preconceito revelou-se através da difusão de estereótipos e de alusões pejorativas à cor, à origem e à cultura negra. Na verdade, esse tipo de discurso revela em sua estrutura os sintomas de um racismo introjetado historicamente. Uma discriminação que tem raízes fincadas na exploração colonialista, na tradição escravocrata, que procurou legitimar-se, ao longo do tempo, através das teorias de uma suposta superioridade geográfica-racial dos povos de pele branca. Tal lógica, que condenou todo um continente durante centenas de anos à escravidão, é a mesma que continua hoje a sustentar as teias simbólicas do discurso racista. A igualdade, definitivamente, não é branca.

Nós, profissionais da informação, deveríamos ter, essencialmente, um compromisso social com a liberdade, com a imparcialidade, com o respeito ao outro. Pelo menos é o que apregoam todos os nossos códigos de ética, tanto aqueles subscritos por donos de jornais quanto os endossados pelas entidades profissionais dos jornalistas. Muitas vezes, é verdade, os códigos de ética não passam de belas cartas de intenções emolduradas nas paredes das redações. Mas, desde que concordemos que eles não estão pregados ali apenas para enfeite, que aquelas não são palavras ao vento, desvendar, revelar, combater os mecanismos do discurso autoritário deveria ser, portanto, nossa tarefa cotidiana. A linguagem jornalística não pode reforçar, difundir ou compactuar com qualquer espécie de discriminação social e/ou racial. Descobrir os elementos inerentes à “gramática do poder”, trabalhar pelo fim da veiculação de preconceitos e estereótipos, tudo isso é princípio básico para a necessária democratização dos meios de comunicação. Além do mais – é bom lembrar – manifestações de discriminação racial são consideradas crimes pela Constituição Federal. Está lá, com todas as letras, no inciso XLI do Artigo 5?. Um crime inafiançável e imprescritível, vale dizer.

Exercício de futurologia

De vez em quando, estrangulados pelo horário de fechamento das edições de final de semana, os jornalistas arriscam-se a fazer profecias. Antecipam-se aos acontecimentos e escrevem a notícia antes que os próprios fatos aconteçam. Muitas vezes, são traídos e castigados em sua intenção de adivinhar o futuro. Foi o que aconteceu, por exemplo, à coluna de Sônia Pinheiro na segunda-feira passada. Naquele dia, 29 de junho, em nota intitulada “Suspense”, a colunista afirmava: “Ciro Gomes não compareceu ontem (domingo, dia 28) à convenção de seu partido, o PPS, no Palácio Adauto Bezerra”. Entretanto, naquela mesma edição do O Povo , as páginas do noticiário político traziam a foto de Ciro Gomes, ao lado da mulher e da filha, na convenção regional do PPS. Por motivos industriais, a coluna de Sônia Pinheiro havia sido escrita e editada no sábado, um dia antes da convenção do partido.

(*) Copyright O Povo, 6/7/98.

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